Arthur Soffiati - Vegetação de restinga
* Arthur Soffiati 03/01/2026 10:30 - Atualizado em 03/01/2026 10:30
 
Volto a caminhar na faixa costeira de uma restinga, aquele acúmulo de areia mais largo que uma praia produzido por um obstáculo pedregoso ou pelo jato de um rio ao entrar no mar. Não estou na Região dos Lagos, onde as restingas se formaram por antigas ilhas costeiras pedregosas que retiveram areia transportada por correntes marinhas e construíram terrenos que continentalizaram as ilhas. Encontro-me numa larga área de areia sem nenhuma formação pedregosa natural em forma de ilha. Aqui, quem produziu a retenção de areia foi o jato de um grande rio com volume bem maior no passado que atualmente. Estou na restinga de Paraíba do Sul, a maior do estado do Rio de Janeiro em área e uma das maiores do Brasil.
Trata-se de uma restinga nova, com menos de cinco mil anos, que barrou cursos d’água em sua saída para o mar. Estou no Açu, na altura de uma curva pronunciada do litoral para o norte ou para noroeste, dependendo de onde se vem. Poucas pessoas sabem que essa curva, batizada com o nome de cabo de São Tomé no século XVI, resulta de uma luta ciclópica entre um dos canais do Paraíba do Sul, em seu curso final, e a força do mar. Encontro aqui um ensinamento da natureza: o meio termo de forças naturais. O famoso córrego do Cula, que começava no Paraíba do Sul na altura de Campos e tentou desembocar na altura do cabo de São Tomé, encontrou a resistência do mar e se espraiou no grande banhado da Boa Vista. Porém deixou seu registro nos baixios de São Tomé, temido pelas viagens navais de cabotagem por conta dos naufrágios. E muitos aconteceram naquela curva aberta, naquele seio feminino sem mamilo.
Mas, agora, olho para o continente e me deleito com a vegetação da restinga. Ela desceu a serra, vindo da Mata Atlântica e se adaptou ao novo ambiente, arenoso, pobre de nutrientes, varrido por ventos fortes e carregados de salinidade, abrigando uma infinidade de lagoas. A Mata Atlântica, no seu todo, não poderia se adaptar àquele novo ambiente, mas algumas espécies abrigadas por ela tiveram sabedoria para se adequar ao novo terreno. Uma sabedoria inconsciente e paciente. Não como a dos humanos (teremos atualmente consciência com sabedoria e paciência?).
A faixa que se estende da linha da costa à cerca de 300 metros para o interior é a mais hostil à vegetação nativa, pois a salinidade do solo e do ar é mais alta. É a mais nova quanto à formação geológica. Entraram e vingaram nela as espécies herbáceas e reptantes, como a ipomeia e a salsinha-da-praia. Pode-se encontrar, nessa faixa, espécies arbustivas, mas elas têm de pagar o preço de crescerem de forma horizontal, sem assumir sua estatura normal quando em outros ambientes. É o caso da pitangueira, por exemplo. O leigo apontará o caso da casuarina, mas ela é exótica e suas folhas são filiformes, deixando o vento passar. Quando caem, porém, elas formam uma manta que inibe o crescimento de espécies nativas. Ela contraria a sabedoria das espécies nativas, que se curvam às condições naturais.
Depois da primeira faixa, a segunda se estende entre 300 e 700 metros, mais ou menos. Os ventos do mar e a salinidade diminuem. As condições ambientais permitem então o desenvolvimento de espécies arbustivas. A pitangueira, a aroeira, o araçá-da-praia, o camboim, a clúsia, os cactos, as samambaias verticalizam-se mais. As condições ambientais permitem a diversificação de espécies vegetais. A fauna nativa também encontra ambiente mais propicio para se diversificar, até porque proliferam as plantas frutíferas. Os carnívoros de pequeno porte encontram herbívoros também de pequeno porte que lhes servem de alimentos.
A terceira parte dessa larga restinga foi a primeira a ser colonizada. Com ventos e salinidade atenuados, ela comporta vegetação arbórea. Existem árvores que alcançam 25 metros de altura. Nas margens das lagoas, eles encontravam água o ano todo e se mostravam pujantes. Cabe lembrar dos rios que cortam essa restinga e desembocam no mar, como o Guaxindiba, o Paraíba do Sul com os braços de Gruçaí e Iquipari, integrantes do seu antigo delta quando das cheias. Mais ao sul, o rio Iguaçu, que tinha curso próprio, mas recebia água do Paraíba do Sul quando de seus transbordamentos por uma série de paleocanais.
Essa fantástica restinga foi conquistada pela agricultura e pecuária pouco a pouco. Ao lado dela, desenvolveu-se também uma agricultura produtora de alimentos para subsistência e venda de excedentes. Na década de 1940, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento invadiu-a com trabalhos de drenagem. A urbanização em seu âmbito é antiga, pelo menos por conta de Atafona e São João da Barra. Nos séculos XIX e XX, ela se expandiu no eixo litorâneo, no eixo Paraíba do Sul e no eixo rio Água Preta. Obras pesadas foram construídas na linha costeira, como os espigões de Barra do Furado e o porto do Açu. Na margem direita do Paraíba do Sul, o Parque Estadual da Lagoa do Açu teoricamente protege uma amostra magnífica da restinga. Não acontece o mesmo na margem esquerda.
*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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