Arthur Soffiati - Chuvas de verão
* Arthur Soffiati 17/01/2026 07:38 - Atualizado em 17/01/2026 07:38
Começava o ano de 1966. O lugar era o Rio de Janeiro, que deixara de ser a capital do Brasil e a sede do Distrito Federal. Pelo Ato Adicional de 1834, o legal era o Distrito Federal voltar a integrar o estado no qual estava inserido. Mas ele se transformou do estado da Guanabara e o Rio de Janeiro passou a ser a sua capital entre 1960 e 1975.
Eu tinha, então, 19 anos e morava no subúrbio de Padre Miguel. Começou a chover forte. A chuva continuou intensa por cinco dias. A cidade foi alagada em vários pontos. Houve deslizamentos, inundações, destruição em vários bairros. Sobretudo nas encostas, nos bairros pobres e nas favelas.
Meu pai, já oficial reformado do Exército, entendeu que deveria fazer alguma coisa em benefício dos atingidos. Entendi que também devia ajudar as pessoas que sofreram perdas com as fortes chuvas. Ele e eu, contudo, não sabíamos como.
Fomos para a casa de meus avós paternos, rua Visconde de Baependi, em Laranjeiras. Lá, decidimos ir ao Palácio da Guanabara, sede do governo. Negrão de Lima era o governador. Oferecemo-nos como voluntários. Passamos a noite em claro e voltamos para a casa dos meus avós ao amanhecer do dia. Havia muita gente trabalhando. Nós fomos elogiados e dispensados. Havia pessoal preparado para atender os atingidos, embora a impressão era a de que a chuva torrencial pegou população e governo de surpresa. E pegou mesmo.
Mais tarde, soube que vários lugares do estado do Rio de Janeiro foram afetados. Há várias fotos de Campos embaixo d`água. Eu havia enfrentado fenômenos meteorológicos virulentos, mas nunca como aquele. Chuva intensa e aparentemente interminável.
Eu ainda não tinha preocupações com mudanças climáticas. Não se falava nisso. Entendia-se que o clima era regular e previsível. Fazia calor no verão e chovia muito, assim como esfriava no inverno e havia estiagens. Em meio a essa regularidade, havia fenômenos climáticos mais intensos de tempos em tempos. Eram os ciclos decenais e centenários. Aquelas chuvas no início de janeiro de 1966 nunca tinham sido registradas antes. Mas eram previsíveis.
Daí em diante, órgãos governamentais passaram a se equipar para efetuar previsões mais precisas de fenômenos climáticos, sobretudo chuvas torrenciais. Da mesma forma, passaram a desenvolver sistemas de evacuação de áreas potencialmente perigosas em face de fenômenos climáticos. Foi criada a Geo-RIO fundação vinculada à Secretaria Municipal de Infraestrutura do Rio de Janeiro.
De 1966, aos nossos dias, houve chuvas até mais volumosas do que as de 1966, mas não ocorreram o número de mortes daquele ano por medidas preventivas. Alagamentos, transbordamentos e deslizamentos continuam. A cidade ainda não se adaptou devidamente às mudanças climáticas.
A tempestade de 1966 não suscitou discussão sobre aquecimento progressivo da Terra. Nem mesmo a Conferência de Estocolmo, em 1972, levantou essa questão. Só em meados da década de 1970, algumas vozes começaram a relacionar a queima intensiva de carvão, petróleo e gás natural ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Para estudá-las, foi criado o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas no âmbito da ONU.
A maioria da população mostrou-se indiferente às mudanças climáticas excessivas. Uma minoria ligada aos combustíveis fósseis adotou uma postura negacionista. No extremo oposto, outra minoria passou a alertar quanto aos perigos das mudanças climáticas em todo o mundo.
Enchentes em Friburgo, na zona serrana do Rio de Janeiro, no litoral paulista, no Rio Grande do Sul, no Paquistão, assim como secas severas endossam a posição dos ecologistas. Mas a adaptação às mudanças climáticas caminha a passos lentos. A redução de combustíveis fósseis também.
*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras. 

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