Verdade seja dita, o Trianon já havia sido vendido antes. O seu idealizador e construtor, o usineiro conhecido como Capitão Carneirinho, sonhava com trazer para Campos os maiores espetáculos de teatro, dança, música e cinema. E havia público para isso na Campos do início do século 20, levando o Trianon ao sucesso por anos. Porém, mesmo com o sucesso, o teatro precisou ser vendido. Carneirinho o vendeu em meados de 1940.
Depois que Carneirinho saiu de cena, o Trianon perdeu parte de seu encantamento. Além de profunda crise social e econômica na cidade, principalmente pela decadência das usinas. O teatro e a dança foram abandonados, e o cinema passou a ser a única arte exibida no Trianon. Em 1975, Campos assistiu, com a complacência de muitos, sua ruína, após a venda para o Banco Bradesco.
A última e melancólica exibição no Trianon trouxe o filme estadunidense “Gilda”, um drama noir estrelado por Rita Hayworth. Antes que o espelho côncavo da lente do antigo projetor do Trianon jogasse na tela o que estava nos rolos de película de 35 milímetros, um campista pediu a palavra e leu um manifesto sentido:
Os gemidos de saudade levaram à Comissão Trianon, e depois ajudaram a eleição do candidato a prefeito que usou politicamente a omissão de seu antecessor no caso da demolição da casa de espetáculos mais emblemática de Campos. Em 1991, esse mesmo candidato, já prefeito, negociou com o Bradesco os custos de construção de um novo teatro.
O novo teatro foi construído. A 700 metros do antigo, o segundo Trianon de Campos tem linhas modernas e se constituiu como um centro cultural importante, palco de espetáculos de teatro, dança, música e tantas outras expressões de arte e cultura. Mas os tijolos tombados do primeiro levaram pedaços da alma de Campos e, caso ainda erguido, seria um patrimônio de importância nacional.
Cíclica, como sempre se mostrou, a história agora afeta o banco. Segundo informações do jornalista Saulo Pessanha, da Folha, e Edvar Jr., da CDL, o Bradesco pretende mudar de endereço e dar outro uso ao prédio construído sob os escombros do antigo Trianon.
Na mesma linha, a história e o mercado, o mesmo que possibilitou a compra do Trianon, está impondo à livraria mais antiga do Brasil — a Ao Livro Verde — seu fechamento. E assim como em 1975, a sociedade civil se mobiliza, mas parte do empresariado e do poder público lava as mãos.
Uma das principais funções do poder público é equilibrar o jogo. Garantir direitos das pessoas, da maioria, em detrimento de interesses particulares — ou mesmo de apenas uma pessoa vulnerável quando colide com interesses econômicos. No caso do Trianon, a prefeitura deveria achar uma solução viável que trouxesse uma agência bancária — ação importante para aquela época — e garantisse a sobrevivência do patrimônio. A prefeitura de Campos, atualmente, tem papel fundamental para que a mesma ideia seja possível.
Caso houvesse em Campos uma política pública cultural que tratasse do patrimônio como um potencial, e não como um problema, essas questões seriam abraçadas. E se fosse perene, e não apenas apagasse incêndio. Aliás, em Campos sequer incêndios são apagados, basta olhar para o que resta e para o que se foi.