Um dos estopins da briga foi Leon Trotsky, revolucionário russo assassinado em 1940, que é tido como ídolo por algumas alas internas do PSOL. Embora seja um partido progressista, existem sérias discordâncias entre militantes, ainda que próximos ideologicamente, mas que se dividem em grupos mais e menos à esquerda.
O Congresso buscava eleger a presidência do partido para o próximo período, e a vitória da historiadora Paula Coradi representou a predominância das alas “menos radicais”. Ligada ao deputado federal Guilherme Boulos, Coradi teve 300 votos contra 147 do grupo intitulado Bloco Democrático de Esquerda, que seria “mais radical” ideologicamente.
A ideia central da “Primavera Socialista e Revolução Solidária” — grupo representado pela presidente eleita — é a aproximação com o governo do PT, onde se buscaria apoio mútuo para candidaturas nos municípios. O outro grupo, tido como mais à esquerda, defende que o PSOL seja independente, principalmente no Congresso Nacional.
Na visão do PSOL, pautas caras ao partido vem sendo tratadas pelo Governo Federal e por governos petistas nos Estados de forma errada. Um dos principais focos de críticas é a segurança pública na Bahia, estado governado pelo PT, que apresenta altos números de violência policial. Sobre esse problema, o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Ricardo Cappelli, disse em entrevista à CNN: “Você não enfrenta o crime organizado com fuzil com rosas”.
A frase com pegada de bolsonarismo desagradou não apenas o PSOL, levando as redes sociais de Capelli a receber críticas de jornalistas, pesquisadores e pessoas ligadas a movimentos sociais contra a violência policial. O secretário-executivo bloqueou alguns deles, o que gerou ainda mais críticas, considerada como uma atitude anti-democrática. Capelli é cotado para assumir o lugar de seu chefe, o ministro Flávio Dino, titular da pasta da Justiça, caso ele deixe o cargo para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal.
Aliás, a vaga do Supremo também é foco de críticas pelo PSOL e pelos movimentos chamados de “identitários”. A pressão aumenta para que Lula indique uma mulher negra para o STF, mas o presidente já deu sinais que não usará critérios de gênero e raça na decisão.
A picareta
Embora falar em Trotsky em 2023 possa soar anacrônico — e é, em muitos sentidos —, existem lições valiosas que sua história pode dar ao PSOL.
O grupo psolista que perdeu a eleição acusa o vencedor de querer mudar o regimento para tentar controlar os cargos mais importantes na direção da legenda. O que acabou ficando definido foi que a composição dos postos será proporcional entre os diferentes grupos, usando como critério a quantidade de votos na eleição deste domingo.
Com a morte de Lenin — após um derrame que o deixou parcialmente paralisado — Stálin toma o poder do Partido e da Rússia, para isso precisando isolar o máximo que pudesse Trotsky, que era um insurgente integrante do quarteto informal que liderava o governo russo revolucionário, de onde somava-se, além dos três, o bolchevique Sverdlov.
Exilado, Trotsky ainda influenciava a oposição aos delírios totalitários que tomavam conta de Stálin, que ficava também cada vez mais paranoico. Stálin entra em uma fase de terror, prendendo e executando dissidentes, opositores e até membros históricos do Comitê Central, até que em agosto de 1940, Trotsky foi assassinado no México, com um golpe de picareta na cabeça. Morria o último dos oponentes de Stalin entre os ex-líderes do Partido Comunista Russo.
Os tempos atuais são incrivelmente diferentes dos anos 1930. E embora a morte de opositores e delírios totalitários ainda aconteçam em alguns países do mundo (inclusive na Rússia contemporânea), não existem muitos paralelos possíveis com a realidade que vivia Trotsky com a do Brasil de hoje. Mas, uma lição deveria ser evidente: radicalidade, anacronismo e cisões internas graves são prenúncios do fracasso.