O governo da ocasião, configurado como uma monarquia constitucional, tentava alternativas reformistas — como a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários — mas havia em parte da sociedade, principalmente na capital Rio de Janeiro, dois sentimentos que passaram a se tornar manifestos: medo e vergonha. O medo compreensível da reescravização e a vergonha de viver em um país que ainda permitia alguém ser proprietário de outro alguém.
Medo e vergonha que se transformaram em ação. Revoltas aconteciam em todo país, células abolicionistas transformaram-se em quilombos e multiplicavam-se as publicações jornalísticas focadas nos movimentos republicanos e abolicionistas. No Rio, foram formados, entre outros, o quilombo Raimundo, no Engenho Novo; o Miguel Dias, no Catumbi; o Padre Ricardo, na Penha; e o quilombo Clapp, na praia de São Domingos.
E onde hoje é o metro quadrado mais caro da cidade do Rio de Janeiro (nada menos que R$ 22.445,00 em agosto deste ano, segundo o Índice Fipe), o bairro Leblon, existia um quilombo icônico instalado em uma chácara de propriedade de um comerciante português influente. Com ideias avançadas para a época, José de Seixas Magalhães abrigava escravizados que fugiam ou que entravam para a resistência.
A Casa Seixas e Cia. funcionava na rua Gonçalves Dias, onde elegantes casarios abrigavam cafés, hospedarias e casas comerciais. Lá estava o armazém de seu José de Seixas, idealizador proclamado do quilombo do Leblon. No comércio eram vendidos malas e sacos de viagem, mas a chácara abrigava algo de simbolismo e importância muito maiores.
As camélias como símbolo — No então subúrbio à beira mar do Leblon, o quilombo do “Seixas das malas” cultivava uma flor chamada camellia japonica — ou simplesmente camélia. Segundo Eduardo Silva, no artigo “Rui Barbosa e o quilombo do Leblon - uma investigação de história cultural”, aquela era uma flor “relativamente rara no Brasil, introduzida no Rio fazia uns 60 anos, se tanto”.
O comerciante Seixas era amigo dos maiores abolicionistas do Rio e do Brasil, e certa vez, por ocasião de seu aniversário, estiveram reunidos no quilombo das camélias — ou quilombo do Leblon — Joaquim Nabuco, João Clapp, o campista José do Patrocínio e muitos outros abolicionistas.
Mas o quilombo não tinha apenas a função comercial e de reuniões abolicionistas. As camélias produzidas no Leblon passaram a ter um valor essencial para a causa da abolição: ela se transformou em um símbolo.
O simbolismo das camélias ficou tão forte que não pretendia ser escondido ou viver na clandestinidade. Na subscrição popular pode ser encontrada tanto a existência do quilombo do Leblon como a oferta por Seixas de uma pena de ouro à Princesa Regente Isabel, para que ela assinasse a lei da Abolição.
Desconstruir o racismo — Embora Isabel não tenha sido benevolente, ela foi uma figura essencial para que o Brasil chegasse ao 13 de maio de 1888. Figuras abolicionistas importantes foram fiéis à princesa até o fim, como José do Patrocínio. Mas o que determinou que a nação, ainda que tardiamente, abolisse a escravidão, foi principalmente a luta de pessoas escravizadas.
Mas os reflexos desse período são visíveis ainda hoje. Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) sobre o encarceramento, informam que em 2022 havia 442.033 negros encarcerados no país, ou 68,2% do total das pessoas presas.
Nas eleições de 2022, o número de negros eleitos para a Câmara dos Deputados bateu recorde: 135. Porém, esse é um percentual muito pequeno de representação, onde apenas 26% do total de parlamentares são pessoas pretas.
De acordo com projeção recente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), como os números atuais de juízes negros no Brasil (identificam-se como pessoas pretas apenas 1,7% dos magistrados e magistradas) levaremos 30 anos para que ter — apenas — 20% de pessoas pretas na magistratura.
Esses são apenas alguns dados do que a academia chama de "racismo estrutural" no Brasil. Os espaços de poder são ocupados majoritariamente por pessoas brancas e acontece exatamente o contrário nos locais de vulnerabilidade social. E isso é visto com naturalidade.
É preciso construir novos símbolos para desconstruir essa realidade. Não se combate violência com flores, mas mudam-se realidades através de símbolos e de pessoas. São lutas constantes — de todos.
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