Se seu bar fosse um filme, André seria algo como um Tarantino. Se fosse um livro, um Hemingway. Tem criadores que são assim: as suas criaturas carregam sabores especiais por serem deles. No caso de André, como ele dedicou sua vida a uma de suas criaturas, ela levou seu nome: “Bar Bicho André”.
André tinha mais de um metro e oitenta, assim como Tarantino e Hemingway. Era difícil passar despercebido. Era daqueles tipos que podiam transmitir, pelo rosto, mesmo com os olhos encobertos pelos óculos Ray-Ban, sarcasmo e raiva na mesma intensidade de satisfação e alegria. O sonho do bicho era criar o melhor bar de Campos; talvez não tenha conseguido, mas conseguiu algo ainda maior.
Quantos na cidade entravam no Bicho André sedentos para viver os exageros dionisíacos daquele oásis do rock campista. Iam para matar a sede em um bar de estética noir, e por lá tentavam extravasar o que era preciso exorcizar. E encontravam companheiros e companheiras igualmente sedentos, em uma taberna que aceitava que bandas locais experimentassem sua arte, nua e crua. Era como atravessar um portal em uma cidade cheia de tradicionalismos bobocas. E o guardião era André.
Entre pôsteres de bandas e copos trincados, seu bar era um santuário onde a vida se propunha a acontecer com mais intensidade. O guardião André por vezes mantinha seu templo com a dualidade com o profano, onde o sagrado não era algo religioso, mas sim a humanidade. Uma trincheira roqueira onde guitarras distorcidas ecoavam como orações, e cervejas eram servidas como sacramento.
André talvez tenha entendido que o Bicho André viveria tempos difíceis se não fosse encarado como um comércio. Se não se rendesse às facilidades do pop, se não abrisse sua casa para espetáculos popularescos cheios de pagantes sem alma.
O guardião e criador do Bar Bicho André se despediu na segunda, último dia de setembro do ano de 2024. Dizem que antes de morrer a vida passa diante de nossos olhos. Crendices de quem quer acreditar que há algo de especial na morte.
Lá pelas tantas, já quase pronto para apagar a luz do bar e fechar a grade, uma garotinha se aproximou e disse que o amava; e o perdoava. Disse que se sentia jovem, como ele sempre foi, e que queria se manter assim, como ele. Que havia herdado dele quase tudo. Era sua única filha, Carol. André chorou, beijou-lhe a testa, e disse que sempre estaria com ela. Ela, disse apenas que sabia disso.
Aquela era a última apresentação do Bicho André, e as luzes se apagaram. Os créditos passaram todos na tela e o livro teve seu ponto final. Mas André ensinou durante toda sua vida, e deixou como ensinamento: o show tem que continuar.