Ensaio sobre Campos
Edmundo Siqueira 04/01/2026 09:35 - Atualizado em 04/01/2026 09:39
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto, já pronto.
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto, já pronto. / Edmundo Siqueira


Um círculo se formava em frente ao palco. Cadeiras brancas, de plástico, acomodavam organizadores e participantes do festival — discutiam-se os problemas e apontavam-se soluções para as próximas edições. A principal queixa era a falta de público. A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), uma espécie de secretaria de cultura da cidade e organizadora do evento, era cobrada a respeito da qualidade e antecedência da divulgação das mesas, vindas da programação proposta pela curadoria que estaria por conta da sociedade civil.

A mesa subsequente àquela discussão trataria sobre o fechamento da “Ao Livro Verde”, livraria tida como a mais antiga do Brasil enquanto estava em funcionamento em Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro. Debatedores e público presente tentavam encontrar um caminho para que a livraria renascesse e ocupasse novamente o posto da longevidade no país. Embora houvesse propostas factíveis e gente disposta a apoiar a iniciativa, havia no ar um saudosismo irrevelado, quase como se todos ali soubessem que aquele seria um sonho distante, e incapaz de atrair apoio do poder público local.

Os dois acontecimentos se deram na noite de 9 de novembro de 2025, três dias depois da reinauguração do prédio denominado “Palácio da Cultura”, local onde estava sendo realizado o festival. Batizado com o sugestivo nome de FDP!, o Festival Doces Palavras encerrava sua sexta edição naquela noite.

O episódio que narro até aqui possui uma forte relação simbólica com a cidade de Campos, no geral. O próprio Palácio que abrigou o referido festival, representa como o poder público encara os patrimônios materiais que dispõe sob o seu jugo — descaso que não tem apenas relação com o governo da ocasião, mas como uma forma de governar que se perpetua por décadas, quase como um “modelo de Estado campista”. O palácio é uma construção de beleza arquitetônica icônica, pensado sob linhas vanguardistas europeias nos anos 1970, combinadas ao modernismo e ao concretismo brasileiros, e que contou ainda com jardins assinados por Burle Marx. Mesmo incrustado na área mais valorizada da cidade, permaneceu fechado por mais de uma década.

O fechamento do Palácio da Cultura por tanto tempo não expõe apenas o descaso patrimonial. Representa, fielmente, o deserto de ideias e políticas públicas que assola o município. O “modelo de Estado campista” é carente de ações estruturantes. Campos é uma cidade histórica, extremamente representativa do período imperial do Brasil e da produção de cana-de-açúcar. Conta também boa parte do processo escravagista do país. E nenhuma das duas características são exploradas de forma turística, tampouco em educação patrimonial e ações antirracistas.
Inexiste em Campos uma política pública patrimonial como há em cidades como Ouro Preto (MG) e Petrópolis, também no interior do Rio. Embora existam problemas na conservação patrimonial nessas cidades, o ativo construído por mais de um século é explorado e gera divisas. Portanto, Campos ignora seu passado e por isso dá as costas ao futuro que poderia ter.
Interior do Palácio da Cultura, em 2018. Obras haviam começado em 2014 e foram paralisadas em 2016. Seguiu fechado por mais de uma década.
Interior do Palácio da Cultura, em 2018. Obras haviam começado em 2014 e foram paralisadas em 2016. Seguiu fechado por mais de uma década. / Foto: Divulgação/Prefeitura de Campos


A estagnação como projeto

Para além do potencial em patrimônio e história, Campos vem se consolidando como uma cidade de serviços. Pela proximidade com uma zona portuária significativa e sua posição geográfica entre capitais importantes (Rio e Vitória), ser polo universitário e por Campos oferecer a melhor estrutura da região em comércio, shoppings, vida noturna e lazer, a cidade acaba por concentrar moradores imigrantes vindos de outras cidades menores e população flutuante que utiliza constantemente oos serviços oferecidos.

O que à primeira vista pode parecer uma qualidade — e traz benefícios, porém limitados e limitantes —, acarreta estagnação no município em três frentes importantes: a primeira diz respeito à industrialização. Com exceção de algumas iniciativas industriais, principalmente ligadas à cana-de-açúcar, Campos atraiu poucas indústrias e teve tentativas frustradas na criação de zonas industriais circundando a cidade.

A segunda estagnação — talvez a mais danosa quando pensado em um município com a extensão territorial de Campos — está relacionada à concentração de serviços, oportunidades de emprego e educação na área central. A cidade, popularmente chamada de “pedra”, mantém concentrada não apenas a iniciativa privada como os esforços públicos em infraestrutura. Regiões de alto potencial turístico como Imbé e Lago de Cima seguem sem acesso satisfatório, transporte público eficiente e serviços básicos como segurança e esgotamento sanitário precários.

A terceira estagnação está no agronegócio. Tido por mais de um século como a atividade mais importante do município, poderia gerar divisas e empregos com os espólios dos tempos áureos, mas segue com baixa tecnologia aplicada, deficiência de pessoal especializado e inexistência de programas de irrigação com incentivo público.

Segundo o Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (Nuperj), da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o saldo de empregos acumulado em outubro de 2025 (veja aqui) para o Estado do Rio de Janeiro foi de apenas 641, enquanto serviços acumulou um saldo de 65.339 empregos. Na indústria, fortemente puxado por distritos industriais no grande Rio, teve saldo positivo de 13.983.

Os dados apresentados e as avaliações empíricas em relação a Campos são ainda mais estagnantes se pensarmos em indústria fina e tecnologia da informação. Não seria ilógico pensar que uma cidade com quase meio milhão de habitantes conseguisse produzir um ecossistema mínimo de tecnologia e inovação.

Lago de Cima, Campos dos Goytacazes. Local subutilizado em turismo.
Lago de Cima, Campos dos Goytacazes. Local subutilizado em turismo. / Foto: Leonardo Berenger


Quando o entorno avança

Em comparação com vizinhos próximos, o Nuperj informa que em Macaé, com uma população estimada de 264.138 habitantes em 2024, registrou um estoque de 130.321 empregos formais em 2023, sendo o município, além de produtor de petróleo, sede de um conjunto importante de empresas que operam na atividade offshore da indústria petrolífera.

São João da Barra com uma população estimada de 38.708 habitantes em 2024, registrou um estoque de 21.009 empregos formais em 2023. “Uma discussão importante a esse respeito passa pelas teorias de aglomerações produtivas e as correspondentes externalidades (Ribeiro e Hasenclever, 2019), e sendo “consenso na literatura internacional que aglomerações dessa natureza costumam atrair fluxos consistentes de capital e tecnologia, com reflexos ampliados em indicadores como PIB, Renda, emprego, etc”.

Em contrapartida, “os territórios não se constituem de boa capacidade de absorção das externalidades positivas, a sua fuga é inevitável, sendo fixadas somente as externalidades negativas associadas à poluição, pobreza, violência, desemprego e outros problemas da mesma natureza”, conforme matéria publicada no Folha1, em março de 2025 (veja aqui).

Prefeitura Tentacular

Em um município com as características de Campos, é fundamental que o poder público local se articule com outros entes federativos e ofereça à população e aos investidores privados as melhores condições possíveis em infraestrutura e facilidades para expansão habitacional e empresarial.

O que se vê, historicamente, é uma cidade que faz o contrário. As políticas públicas, quando existentes, servem a fins eleitorais ou a interesses de nichos específicos. Estradas vicinais, asfaltamento urbano, anéis rodoviários, pontes, melhorias em educação básica e saúde, programas de segurança pública, ações ambientais e outras ações estruturantes respondem a problemas, mas não demonstram planejamento.

A prefeitura local se mostra, há vários governos, mantendo o “modelo de Estado campista” como um organismo tentacular, que mantém sob seus desígnios boa parte da força de trabalho empregada e um sistema de compadrio — ou um capitalismo de compadres — que cria uma interdependência proposital entre atores públicos e privados.

Politicamente, é um sistema interessante aos objetivos eleitorais estaduais. Não é surpreendente que existam atores locais com força política estadual ou ocupando cargos estratégicos da máquina administrativa do Rio de Janeiro. O próprio modelo político implantado historicamente em Campos favorece que a cidade seja usada como trampolim, e ajuda a explicar muito das ações da prefeitura e a ausência de políticas públicas.

Além das ações propositalmente eleitoreiras, as boas iniciativas da prefeitura esbarram em movimentos contrários da sociedade civil, que se colocam contra intervenções que afetem o meio ambiente ou comunidades tradicionais, por exemplo. Essas oposições da sociedade civil além de rotineiras em democracias consolidadas, servem para que o poder público calibre suas ações e conciliem os interesses distintos, mantendo o interesse público em primeiro plano quando forem inconciliáveis.

Vejamos o caso do Mercado Municipal em Campos, exemplificativo e simbólico nessa questão. Há na região central da cidade uma praça de Mercado com mais de 100 anos, instalada por questões logísticas e econômicas que não mais se justificam. Nos anos 1980, foi construída uma estrutura metálica que iria abrigar temporariamente a feira de peixe e verduras. A estrutura permanece até os dias de hoje. Além dela, outra grande estrutura que abriga um camelódromo esmaga o prédio histórico, tornando-o invisível, além de manter, abaixo das estruturas, condições precárias para feirantes e clientes.
Mercado Municipal de Campos: espremido entre estruturas equivocadas.
Mercado Municipal de Campos: espremido entre estruturas equivocadas. / Foto: Genilson Pessanha


A prefeitura propôs que fosse utilizado uma praça próxima ao Mercado, cerca de 250 metros, localizada nos fundos da rodoviária central da cidade. Além de uma nova feira, estavam contemplados no projeto áreas de convivência e aberturas de restaurantes, e ainda um Banco de Alimentos, que distribuiria alimentos que seriam descartados à população em situação de rua e vulnerabilizados. A iniciativa encontrou resistência principalmente sobre a utilização da praça, que possui árvores e construções, mas também da remoção da feira do local que permanecia há um século (veja matéria sobre os 104 anos do Mercado, aqui).

Embora ambas fossem manifestações justas, a praça encontrava-se em abandono e assim permanece. As condições dos feirantes e clientes mantêm-se da mesma maneira. A prefeitura se retraiu quando encontrou resistência, possivelmente por receio de incomodar o eleitorado e direcionou o orçamento para outras áreas. A iniciativa com potencial transformador da área central e cultural da cidade, ficou anestesiada.

Isso se repete sistematicamente. É possível citar o abandono do sambódromo público, chamado de CEPOP, a falta de aproveitamento da Cidade da Criança, ações meramente maquiadoras na área do cais da Lapa, o Palácio da Cultura por mais de 10 anos fechado, solares em ruína, casarios doados à prefeitura sem utilização e também em ruínas como o Olavo Cardoso.

Modelo de Estado Campista

O problema, portanto, não é a ausência de potencial, mas a persistência de um modelo. O “modelo de Estado campista” não fracassa por ignorância técnica ou falta de diagnósticos — fracassa porque não foi concebido para induzir desenvolvimento, mas para administrar permanências.

Campos não é uma cidade abandonada pelo Estado. É uma cidade administrada para não mudar demais, demonstrando que sua estagnação faz parte de um projeto fisiológico de poder.

Trata-se de um Estado que funciona melhor na exceção do que na regra, que responde a crises pontuais com ações episódicas, mas se esquiva sistematicamente de políticas de longo prazo. Um “Estado Campista” que prefere inaugurações simbólicas a processos contínuos; eventos a estruturas; remendos a reformas; pinturas a revitalizações.

Nesse modelo, a estagnação não é um efeito colateral indesejado — é um componente funcional. A cidade que não diversifica sua economia permanece dependente, e quando não organiza seu território reforça desigualdades. Não investindo em educação patrimonial ou inovação, limita a formação de pensamento crítico e reduz sua capacidade de reivindicação e formulação prática de seu futuro.

O Palácio da Cultura fechado por mais de uma década, a livraria histórica encerrada sem mobilização efetiva do poder público, as regiões de potencial turístico relegadas à precariedade e a ausência de uma política industrial consistente não são episódios desconexos. São manifestações distintas de uma mesma lógica: a de um Estado que governa o presente sem compromisso com o futuro.

Campos segue presa a uma ideia de centralidade que não se converte em liderança regional. Atrai pessoas, mas não fixa projetos. Concentra serviços, mas não multiplica oportunidades. Produz circulação, mas não gera transformação. O resultado é uma cidade que se move sem sair do lugar.

Regionalismo, Cidennf e abandono da ideia de capital do Estado

Campos já pensou em ser a capital do Estado do Rio de Janeiro. Nas mudanças promovidas pela União, que mudou a capital da República para Brasília e criou o Estado da Guanabara, as elites campistas tentaram fazer de Campos dos Goytacazes a capital, iniciativas facilmente comprovadas em periódicos locais dos anos 1960 e 1970, e anteriormente, quando o município era um potente produtor de cana-de-açúcar.

A ideia foi vencida por Niterói, e depois novamente pela cidade do Rio de Janeiro. Porém, parece ter permanecido no imaginário das elites de Campos a vontade de ter centralidade estadual, quando na verdade seria necessário que se criasse uma política voltada à regionalização do Norte e Noroeste Fluminense.

Campos exerce organicamente a liderança dessas regiões, pelas características e motivos aqui elencados e mesmo com as dificuldades também aqui apresentadas. Portanto, voltar-se aos municípios regionais não seria uma fraqueza e sim um direcionamento estratégico mais lógico e mais efetivo economicamente.

Para tanto, já existe o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense (Cidennf), que conta com nove câmaras técnicas setoriais distribuídas em diversas áreas, como saúde, turismo, desenvolvimento regional, cultura e educação. Apesar de constituir-se como um órgão consultivo e deliberativo, o Cidennf se mostra um instrumento potente para produzir o regionalismo necessário para cidades como Campos e seus vizinhos (site do Cidennf aqui).

Promover arranjos regionais se mostra fundamental para a realidade desses municípios, que ao unir esforços e pensar conjuntamente políticas públicas, estabelecem planejamentos de médio e longo prazos, com real poder transformador.

Soluções já dadas

Campos não carece de planos, diagnósticos ou recursos. Carece de decisão política para romper com um modelo que transforma a exceção em regra e a permanência em método. Enquanto o “Estado campista” seguir operando para administrar dependências, toda tentativa de transformação será episódica, toda promessa de futuro será adiada.

O que está em disputa não é apenas o desenvolvimento econômico ou a revitalização urbana, mas a capacidade da cidade de voltar a se pensar como projeto coletivo — e não apenas como território administrado.

A roda de cadeiras de plástico montada diante do palco, discutindo a falta de público, não era apenas uma cena cultural, no Palácio da Cultura reaberto. Era uma metáfora da cidade. Campos segue debatendo seus próprios limites sem decidir se quer ultrapassá-los. Enquanto isso, o palco permanece montado, as luzes acendem, o espetáculo começa — e o futuro, mais uma vez, não entra em cartaz.
 
RIBEIRO, Rodrigo; HASENCLEVER, Lia.
Aglomerações produtivas, desenvolvimento regional e políticas públicas. Revista Brasileira de Inovação, 

NÚCLEO DE PESQUISA ECONÔMICA DO RIO DE JANEIRO (NUPERJ).
Boletim do mercado de trabalho do Estado do Rio de Janeiro: outubro de 2025. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2025.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO (UENF).
Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (NUPERJ). Campos dos Goytacazes, 2025. Disponível em: <https://www.uenf.br>. Acesso em: dez. 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE).
Estimativas da população residente nos municípios brasileiros: 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
Disponível em: <https://www.ibge.gov.br>. Acesso em: jan. 2026.

FOLHA1. Externalidades negativas e desenvolvimento regional no Norte Fluminense. Folha1, Campos dos Goytacazes, mar. 2025.

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