Edmundo Siqueira
24/01/2026 11:04 - Atualizado em 24/01/2026 11:08
HIPÓCRATES" (1638) (PETER RUBENS, 1577-1640), "JURAMENTO DE HIPÓCRATES" (SEC. XII), "MAIMÓNIDES (DISSERTA SOBRE A DIMENSÃO HUMANA)" (1347) (AUTOR DESCONHECIDO), "JURAMENTO MÉDICO DE MAIMÓNIDES" (SEC. XX-XXI) (J LEE JAGERS, SEC. XX-XXI)
/
Fonte: https:/www.josepocas.com/2019/10/hipocrates/
Em termos médicos, uma epidemia acontece quando um patógeno encontra hospedeiros com baixa imunidade causando um aumento do número de casos além do esperado. Nos últimos dez anos, o Brasil viveu uma epidemia de novos cursos de medicina: o número de faculdades passou de 252 para 505, e mais de 75% das vagas estão na rede privada, segundo dados do Ministério da Educação (MEC).
O Brasil só perde para a Índia em número de escolas de medicina per capita. Essa proliferação embasou um prognóstico sombrio, que se mostrou concretizado na última segunda-feira (19), com a divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica).
O Enamed deixou exposto o baixo desempenho de parte relevante das faculdades analisadas: 107 cursos de medicina, dos 351 avaliados, obtiveram conceito 1 ou 2, considerado insatisfatório pelo MEC. Dos “reprovados”, 87 são faculdades particulares.
A tradicional Faculdade de Medicina de Campos (FMC) ficou entre elas. Com nota 2, o curso ofertado no município há quase 60 anos teve sua qualidade contestada. Em nota, a FMC disse que “uma avaliação única, teórica e padronizada não é capaz de mensurar, de forma integral, o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que compõem a formação médica”.
De fato, o Enamed sozinho não é capaz de apresentar um diagnóstico preciso da “doença”. Porém, o exame oferece pistas para se chegar nele. Com 100 questões de múltipla escolha — que abrangem clínica geral, cirurgia, obstetrícia, pediatria, medicina da família, saúde mental e coletiva — o exame é aplicado obrigatoriamente aos concluintes.
Os alunos
Um dia após a divulgação do Enamed, o Diretório Acadêmico Luiz Sobral, da FMC, divulgou uma nota onde contestou as justificativas da faculdade. Reconheceu o esforço da direção em “evitar interpretações simplistas”, mas disse que a resposta da instituição “sem explicitar um compromisso claro com a investigação interna de fragilidades acadêmicas”, “transmite à comunidade acadêmica e à sociedade a percepção de deslocamento de responsabilidade”.
A nota pública do Diretório expôs uma fratura antiga. Uma parte dos discentes está insatisfeita e vem registrando denúncias e reclamações nos canais internos contra professores e direção, como acesso ao hospital-escola (instalado no Hospital Álvaro Alvim), favorecimentos de alunos, ausência de professores, dentre outras.
Embora sejam reclamações endógenas, o resultado do Enamed acabou por tornar pública a existência de conflitos que têm potencial para afetar a formação dos futuros médicos.
A profissão médica, selada pelo juramento de Hipócrates e essencial a qualquer sociedade, não diz respeito apenas às instituições de ensino. Ela envolve também os alunos, gestores e o poder público. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada — sobretudo quando os sinais de falha deixam de ser internos e passam a ser públicos.
Os professores
O médico infectologista Nélio Artiles, ex-diretor da FMC e professor da instituição há quase 40 anos, foi ouvido sobre o assunto. Segundo ele, é preciso cautela na leitura dos resultados. “Não podemos nunca ficar cegos. É necessário compreender as dificuldades que levam os alunos a trazer essas questões e refletir tanto sobre a realidade do curso quanto sobre a eficácia do próprio método de avaliação. O resultado do Enamed não corresponde ao que observamos quando analisamos o produto final da FMC”, afirmou.
Em 2025, a FMC recebeu o conceito máximo (5) do MEC, que avalia qualidade dos cursos, com base em indicadores como corpo docente, infraestrutura e desempenho dos alunos. O Enade, agora o Enamed, são componentes da avaliação.
“A nota dois da faculdade não é condizente com a estrutura do curso que foi graduado com a nota máxima do MEC, o que mostra a eficácia da infraestrutura e dos seus professores”, continuou Artiles.
Sobre as rusgas com os alunos, disse que pode ter afetado o resultado do exame: “uma insatisfação de um grupo de alunos no último ano com a gestão pode motivar negativamente (a realização da prova), isso é algo que tem que ser considerado com muito cuidado”.
A sociedade
Um curso de medicina é um investimento alto para as famílias, que depositam na instituição a confiança de que seus membros sejam formados para exercer uma profissão altamente valorizada.
No entanto, tratar o curso de medicina apenas como um negócio é aceitar que vidas podem ser descartadas como custos do sistema. Com o diagnóstico do Enamed nas mãos, alunos, professores e a direção das instituições devem achar um caminho profilático efetivo, que não apenas exponha fraturas, mas que as tratem.
“Como diretor, na minha época, sempre tive essa preocupação de trazer os alunos para perto e mostrar a importância da instituição, para eles poderem se orgulhar”, disse Artiles. Para o bem de todos, é preciso que esse orgulho seja retomado.
* O atual diretor da FMC, Edilbert Pellegrini, não retornou as tentativas de contato até a publicação desta matéria.