Há momentos na história em que os fatos recentes confirmam aquilo que a análise já vinha sugerindo há muito tempo. A política brasileira, especialmente no período republicano, tem sido marcada por uma ausência quase estrutural de estadistas. E, quando eles surgem, tornam-se inevitavelmente figuras de contraste.
A recente decisão de Anthony Garotinho de colocar-se novamente no centro do debate público, ao anunciar sua pré-candidatura ao governo do Estado do Rio de Janeiro, não é um movimento trivial. Ao contrário, é sintoma de um vazio. Segundo a própria avaliação do ex-governador, os atuais pretendentes não reúnem condições para retirar o Estado da crise em que se encontra, a saber, uma crise agravada pelo cenário político recente que culminou, inclusive, na renúncia do então governador Cláudio Castro em 2026.
O diagnóstico pode soar duro, mas encontra respaldo na realidade institucional do Rio de Janeiro, marcada por instabilidade, disputas fragmentadas e uma sucessão de lideranças incapazes de formular um projeto duradouro de poder.
E aqui reside o ponto central: a República brasileira, ao longo de mais de um século, acostumou-se a produzir gestores de ocasião, mas raramente homens de Estado.
No Império, a política era compreendida como construção. Havia continuidade, direção e, sobretudo, responsabilidade histórica. Figuras como Dom Pedro II não governavam para ciclos eleitorais, mas para gerações. Seus contemporâneos, igualmente, compreendiam o poder como missão, não como oportunidade.
A República, por sua vez, substituiu esse horizonte por uma lógica imediatista. O resultado está diante de nós: crises recorrentes, ausência de planejamento e uma política frequentemente reduzida à disputa de curto prazo.
É nesse cenário que a figura de Garotinho retorna com relevo.
Sua trajetória não é a de um aventureiro. Foi prefeito de Campos dos Goytacazes, governador do Estado do Rio de Janeiro entre 1999 e 2002, deputado federal e candidato à Presidência da República, obtendo votação expressiva no cenário nacional. Não se trata, portanto, de um político circunstancial, mas de alguém cuja presença se projeta ao longo de décadas.
Mais do que cargos, há um elemento que o diferencia: a construção de um legado político com identidade. Vinculado ao trabalhismo, corrente que no Brasil possui raízes históricas profundas, Garotinho desenvolveu uma atuação voltada às camadas populares, com políticas públicas que buscaram responder às demandas concretas da sociedade.
E é precisamente essa combinação de experiência, densidade histórica e capacidade de diálogo com o povo, que o coloca no rol daquilo que, em termos clássicos, se poderia chamar de estadista.
Sua decisão de retornar ao debate estadual não pode ser lida apenas como ambição política. Ela revela, sobretudo, uma percepção: a de que o Rio de Janeiro atravessa um momento que exige mais do que candidatos, exige direção.
Ao afirmar que os atuais nomes não estão à altura do desafio, Garotinho não apenas critica seus adversários; ele reposiciona o debate. Ele o eleva. Obriga-nos a perguntar, novamente, o que é governar e, mais importante, para quê.
Se o Império nos legou exemplos claros de estadistas, a República, em sua longa trajetória, raramente conseguiu reproduzir esse padrão. Garotinho, com todas as suas complexidades, ressurge como uma dessas raras exceções.
E talvez seja justamente por isso que sua presença ainda incomoda grupos oligárquicos, não por aquilo que lhe falta, mas pelo contraste que estabelece com aquilo que, há muito tempo, deixou de existir na política brasileira.