Dora Paula Paes
29/11/2025 09:01 - Atualizado em 29/11/2025 09:03
Divulgação/Foto: Neto Barbosa
É possível rasgar páginas da vida e começar a escrever uma nova história? Tudo indica não ser tão simples quando envolve convicção, tradição e política. Em 2020, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), a relações públicas campista Érica Viana foi presa sob suspeita de atos antidemocráticos. Durante um ano, entre o cárcere e a prisão domiciliar, ela relata o abandono dos seus pares da direita. Agora, pronta para escrever novos capítulos na sua vida, Érica aposta em uma forma mais leve para seguir. O caminho encontrado por ela é de salto, vestidos, ora sensuais, ora românticos, entre festas e ações sociais, dessa forma tomada de coragem, joga-se nas redes sociais.
A mulher na fase da loba conta que foi no setor diocesano da juventude que aprendeu cedo a se comunicar, articular e inspirar. No campo profissional, atuou durante alguns anos no setor privado, em empresas de grande porte como Dorel e Bradesco. Posteriormente, funcionária pública municipal e, em 2024, tornou-se suplente de vereadora em Campos. É de todo esse aprendizado que se reconstrói.
“Ainda jovem conheci as dores da morte de meus entes mais amados. Todavia, em 2020, o destino me testou profundamente. Uma grave violação de direitos humanos marcou minha trajetória. Fui pioneira em relação ao Supremo Tribunal Federal, sendo uma das primeiras prisioneiras sem acusação, do natimorto inquérito 4828 do STF, que investigava supostos Atos Antidemocráticos”, conta. “O inquérito foi arquivado em 2021. De todos os inquéritos conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes, este foi o único arquivado”, complementa.
Hoje, Érica ocupa espaços múltiplos: das redes sociais aos eventos, das ruas de Campos aos cenários nacionais, do cotidiano modesto aos holofotes. Como comunicadora social, produz conteúdo sobre estilo de vida, beleza física e moral, cultura, viagens, reflexões e conselhos. “Primo pela leveza, verdade e sensibilidade”, salienta.
Érica também planeja lançar um livro com sua biografia. O desejo é transformar sua trajetória em registro histórico e em modelo individual de superação a partir da comunicação.
No seu processo de evolução pessoal, a então líder juvenil na Diocese de Campos, fala com tranquilidade de algumas pautas que abraçou, inclusive, o ativismo político. Conservadora, levantou bandeiras em pautas como pró-vida, do movimento de Impeachment da então presidente Dilma Roussef, pelo Movimento Monárquico e até pelo Movimento Pró-Armas. “Eu não sou uma coisa só. Sou o conjunto de tudo que vivi”, explica.
Ao defender algumas batalhas, ela relata ter enfrentado violação de direitos humanos. “Poderia ter me levado à morte, mas escolhi reagir com dignidade. Luta que moldou a mulher que sou hoje: mais consciente, mais forte e mais sensível às dores humanas”, prega.
“Não posso esquecer jamais de onde vim, e o que passei, e o pior, os precedentes que foram abertos a partir do Inquérito 4.828 do STF, os quais julgo terem total relação com as prisões de generais e do ex-presidente Bolsonaro, recentemente. Infelizmente ao longo do caminho, encontrei muitas portas fechadas e não acredito numa reparação por meio do sistema judiciário, mas por projeto de lei, porque a prisão foi de fato política. Uma grande decepção foi a falta de apoio dos que eu tanto defendi. E, pior que isso, o total desprezo”, confessa.
Agora, Érica busca reconstruir sua identidade estética e comunicacional: “Eu sempre entendi que a imagem chega antes do discurso, que o corpo fala, e a primeira impressão perdura mais tempo. Tudo é comunicação”, disse. Para encontrar esse novo caminho, ela buscou ajuda profissional e até consultoria de imagem.
“Foi necessário evidenciar minhas melhores características e transmitir mais elegância e segurança, afinal eu tinha sofrido uma avalanche de difamação e ataques públicos nos jornais, redes e até nas ruas, com pessoas me apontando e gritando meu nome e insultos contra mim”, lembra, ressaltando a tentativa de se equilibrar sua vida com leveza, lifestyle e posicionamento nas redes sociais, espaço que encontrou para mostrar sua nova faceta.
“Acredito que uma mulher pública pode ser leve e profunda. Pode-se falar de moda, gastronomia, viagens e ao mesmo tempo discutir polarização política, competências profissionais, dignidade e religião. Eu gosto dessa mistura porque ela me torna humana. Mostrar minha rotina, minha experiência e meu lifestyle não diminui a minha voz, pelo contrário, aproxima as pessoas. E, quando necessário, eu me posiciono com sobriedade. Esse equilíbrio é fundamental para mim”, revela.
Mesmo mais fortalecida, falar da prisão mexe em seu ponto sensível. Quando questionada por que foi presa, ela reflete: “Eu até hoje não sei. Às vezes parece que tudo não passou de um pesadelo, todavia foi bem real e cruel. Em nenhum momento foi dito no inquérito qual era o suposto ato antidemocrático, algo que nem é tipificado em nosso ordenamento jurídico. Meu mandado de prisão não teve fundamentação, não foi expedido por uma autoridade competente e, por isso, não deveria ter sido cumprido. Nos autos do inquérito só constava a apreensão do meu celular”.
Sua prisão aconteceu no dia 16 de junho de 2020 e só foi liberada em julho de 2021: “Foram dias sombrios e torturantes. Passei um período na carceragem da Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal, em condições degradantes e depois fui conduzida para a Penitenciária Feminina do Distrito Federal (conhecida como Colmeia), onde decaí à completa situação de indigência, inclusive impedida de ter contato com advogados, algemada diversas vezes com as mãos para trás, trancafiada em uma solitária e ameaçada de morte, envenenamento, espancamento e estupro pelas outras presas, até mesmo proibida de rezar Ave-Maria”, relata.
Em 24 de junho de 2020, sua prisão temporária foi convertida em domiciliar em Brasília, mesmo com residência fixa em Campos. Sobre mão estendida, ela diz que só teve uma: “Passaram-se meses, e desesperada, aceitei a ajuda do então deputado Federal, Wladimir Garotinho, único político que me estendeu a mão, enquanto os do meu lado político me desprezavam. Assim, troquei de defesa e táticas, desvinculando-me totalmente do então grupo ‘300 do Brasil’ e da narrativa sensacionalista de inúmeros influenciadores e páginas de direita, que lucraram muitas monetizações às custas do meu padecimento e ataques institucionais ao STF”, admite.