Folha Letras - Perdão para Benta Pereira
25/02/2026 07:58 - Atualizado em 25/02/2026 07:58
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Herbson Freitas (*)

Por que destruir as coisas belas da vida? Por que quebrar o encanto dessa poesia inofensiva, dessa poesia que dorme nas coisas velhas, nos fatos históricos, nas sutis modificações impostas pelo tempo de acontecimentos de nossa vida? Por que roubar a beleza que certos erros criaram? Por que virar o passado pelo avesso, pesquisando misérias, anotando baixezas, se tudo passou? Por que recordar verdades e mentiras, mentiras e verdades, se a própria vida do homem e das coisas não foi devidamente esclarecida, não foram devidamente postas em bases sólidas? Por que pisar a memória das almas que já se foram? Por que devassar as vastidões negras de seu caráter? Por que, se em tudo há beleza e poesia? Por que negar a indômita coragem de Mariana de Souza Barreto, pouco divulgada pelos campistas? Por que negar a importância e o significado dos nossos monumentos e bustos? Por que corromper a lenda do Ururau que era o terror dos nossos pescadores nas noites de lua cheia? Por que, se a poesia está em todas as coisas? Sim, porque a poesia, a verdadeira poesia, a doce poesia de que falam Goethe, Milton ou Cristo, este incontestavelmente o maior poeta de todos os tempos, existe sob todas as formas, sob todos os aspectos. Sem dúvida, a poesia existe tanto no belo como também nas coisas sórdidas e trágicas. E também naquilo que não admiramos.

Desse modo, por que evitar a magia que envolve os nomes das coisas, os nomes que dão vida aos lugares, às cidades, às ruas (mesmo esburacadas e de prédios escorados...), às terras cobertas de canaviais ondulantes? Por que arrancar a riqueza dessas palavras, desses títulos românticos que os anos criaram? Por que cortar ao meio, cavoucando, esburacando o que está feito, nessa tão falada “terra de Benta Pereira”? Por que, se já é tão pouco o que temos em poesia folclórica? Portanto, caros leitores (e intelectuais) a briga acabou. As terras de Benta Pereira não pertencem mais a ela. E sendo assim, ela não perseguirá mais ninguém. Ela não mandará atacar os homens do governo. Ela não jogará os seus escravos em defesa de seus interesses. Mesmo porque os tempos são outros. Não tem mais escravos e os homens do governo não andam fazendo o que faziam antigamente: tomando medidas drásticas ao ponto de mandar soldados e oficiais da Câmara para o combate. E depois, caros fabricantes de controvérsias, mesmo que Benta Pereira tenha sido má, perversa, desonesta – dizem –, nós o povo desta terra a perdoamos. Porque felizmente, apesar de certos destruidores de poesia, nós os campistas sabemos perdoar, sabemos relevar as faltas dos nossos semelhantes, os serviços prestados, particularmente de quem entrou para a História. E Benta Pereira está perdoada!

E falando sobre poesia, e a poesia das ruas “tapete” de “Gente que tem nome de rua”, de Waldir Pinto de Carvalho, além dos monumentos e bustos devidamente abandonados e não cuidados? E a poesia da reforma do Panteão (ou Pantheon) dos Heróis Campistas, como se encontra? Também é poético saber que José Carlos do Patrocínio foi sepultado ali e vai ficar eternamente entre nós – infelizmente - num túmulo-castigo pelo muito que fez pela Pátria, sem poesia, onde – dizem- o abandono impera. Merecia coisa melhor! E ainda falam do passado, mas que passado se aqui nem tudo tem poesia, quando devia ter, mas, infelizmente...

“Canto que meu canto é tudo”, disse certo poeta. E é por isso que não paro. E nesse cantar, surge a lembrança do “Nosso Almirante” Luiz Filipe de Saldanha da Gama que foi salvo por um triz: não foi trasladado para Campos, por decisão de descendentes dele e da Marinha Brasileira. Se o Almirante fosse trasladado era mais um a ficar mofando na ideia (Panteão) que é boa; mas, infelizmente, não vingou como devia: também morreram e foram “pro buraco”: o abolicionista Luiz Carlos de Lacerda e o ex-prefeito de Campos João Barcelos Martins, Todos no PHC, muita gente não sabe, mas no mesmo sofrimento, sem poesia... “Plus rien pour aujourd’hui” - (“Nada mais por hoje”).

Acadêmico ex-presidente da ACL.

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