Folha Letras - Um "capitão" das arábias
29/04/2026 07:38 - Atualizado em 29/04/2026 07:38
Ex-vereador Manoel Pereira Gonçalves
Ex-vereador Manoel Pereira Gonçalves / Divulgação
Herbson freitas *
O inesquecível vereador Manoel Pereira Gonçalves, também “capitão” como era chamado por ser “senhor” de terras na região, foi um batalhador pela solução do problema da água em Santo Amaro.
Uma tarde ele estava muito exaltado, brandindo a bengala com raiva no Boulevard Francisco de Paula Carneiro, quando foi abordado por Dirceu Lima, figura das mais conhecidas da terra, que, com ar de bobo, pergunta: - “Capitão, qual é a população de Santo Amaro?.
Antigamente a população era pequena e o Capitão Gonçalves não entendendo e meio desconfiado não diz nada. E Durval prossegue: - “Olha, Capitão, o senhor me desculpe, mas não fica mais barato transferir o povo de Santo Amaro de lá para outro lugar?”.
- “Mané Gonçalves” – para os gozadores – ficou vermelho, engoliu dois ou três palavrões em seco e saiu imediatamente, espancando o ar com a bengala... (Ele usava a dita cuja todos os dias).
Médico Adão Pereira Nunes
Médico Adão Pereira Nunes / Divulgação
E sobre o saudoso e ilustre vereador existem inúmeras histórias curiosas. O querido e inesquecível médico Adão Pereira Nunes, em carta enviada do exílio ao amigo, também saudoso Latour Neves da Silva Arueira (jornalista e poeta da AIC/APLA), quando da morte do fazendeiro, político, ex-vereador e capitão do interior Manoel Gonçalves, mandou dizer em carta as seguintes preciosidades – das muitas – sacadas pelo capitão, “um dos homens mais típicos de nossa terra, “muchuango” do Caboio, com todas as manhas e virtudes dos legítimos filhos da Baixada Campista”.
Na referida carta, conta o doutor Adão que não era “feito de barro e nem de barro bom e batuta...” como dizia certa injusta trova popular, feita para o ex-governador Togo Póvoa de Barros, que o “capitão” Manoel Gonçalves era claro e franco. Prova é que quando o presidente Getúlio Dornelles Vargas visitou Campos, o Chefe da Nação perguntou ao capitão sua opinião sobre o seu governo e, este, respondeu, na “bucha”: - “Doutor Getúlio, “vosmecê” é bom caçador, a cachorrada é que não presta...”
Sobre o capitão existem muitas... O doutor Adão conta outra na referida carta ao jornalista que em certa ocasião, como vereador, a nossa “patente” aparteou um colega que se ufanava de andar montado na lei: - “Colega, não monte em “animá” que o senhor não conhece...”
O doutor, entre outras coisas, conclui dizendo que “se o frio e o terremoto não me matarem no Chile, voltarei a Campos e irei a Santo Amaro, terra de Manoel Gonçalves. Tenho lá grandes amigos, vivos e mortos. Levarei abraços para uns, flores para outros.” Não sei se foi.
Uma belíssima carta do doutor Adão Pereira Nunes, médico humanitário e uma das criaturas das mais agradáveis que tive o prazer de conhecer, prossegue escrevendo...
Sobre “Mané Gonçalves” existem muitas muito boas. Não para aqui. Quando assumiu a Câmara, numa das primeiras sessões, estranhou a não realização das mesmas. E perguntou ao presidente o motivo da não realização das sessões. O presidente da época respondeu dizendo que era falta de “quórum”. O capitão disse estranhando que desconhecia a eleição do referido “vereador”. “Quem é o vereador “quórum”?”.
O capitão morava na Rua 13 de Maio em frente à Igreja de São Francisco, e, certo dia, fazendo a curva para entrar em casa, teve seu carro abalroado pelo carro de alto-falantes do publicitário Jubal Guimarães. “China”, motorista de Jubal, reclamou que o capitão não havia colocado o braço esquerdo para fora, avisando que ia curvar o carro. O capitão respondeu de imediato: - “se você não viu o carro como é que você ia ver meu braço?” Conversa vai, conversa vem, ficou o dito pelo dito...
Finalmente tem mais uma boa e verdadeira. Certa vez criticou certo prefeito ingrato que ele ajudou a galgar o poder em pleito renhidíssimo. – “Esse prefeito é como vaca brava. O bicho se atola, um puxa pela orelha, outro pelo rabo, com esforço e lama esparramada, se livra do “animá”. A primeira coisa que faz o alcaide depois da vaca ser “sarva” é investir contra seus salvadores”. Uma verdade verdadeira. Essa prática, infelizmente, é velha e lamentavelmente constante.
Na belíssima missiva do doutor Adão Pereira Nunes, que realmente era um homem amigo, de talento e de grande sensibilidade, a homenagem ao “capitão” Manoel Pereira Gonçalves, através da carta-recordação enviada a Latour Arueira, é mais do que merecida.
E tem mais uma que não pode ser esquecida. Período de estiagem e o “capitão”, homem do campo, estava “p” da vida com a situação. De repente, um amigo pergunta ao nosso “militar”: - “Capitão” vai chover hoje?” E o “capitão”, “p da vida,” respondeu com rispidez: - “Não sou do “Serviço de Chuvas. Vá ligar pra São Pedro!...”
Em resumo, sério, Manoel Pereira Gonçalves foi vereador por dois mandatos e a chamada “Baixada da Égua” muito deve a ele. Na terceira tentativa como candidato a vereador, estava no Fórum, na apuração (era cédula e o Fórum era um dos lugares de contagem de votos) e chegando à conclusão de que não se elegeria, pois os votos eram mínimos do seu reduto eleitoral (os votos eram contados e anunciados), abruptamente desceu as escadarias do antigo Palácio da Justiça, quando ouviu o mesário gritar: - “Manoel Gonçalves... um voto”. E o “capitão” “morrendo” de raiva, gritou em resposta: “Dá pra mãe...”
“Sodade”, Mané!
** Acadêmico e ex-presidente da Academia Campista de Letras.

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