Campos ainda tem sete orelhões que devem ser retirados das ruas
Júlia Alves 24/01/2026 08:22 - Atualizado em 24/01/2026 08:22
Orelhões em Campos
Orelhões em Campos / Júlia Alves
Com o avanço das tecnologias, os telefones públicos passaram a desaparecer gradualmente das ruas do Brasil. Esse equipamento, popularmente conhecido como orelhão, já foi uma das principais formas de comunicação no país e agora está cada vez mais raro nas cidades. Há cerca de 38 mil telefones públicos espalhados pelo Brasil. Em Campos, ainda existem sete deles, pertencentes à empresa brasileira de telecomunicações Oi. Já em São Francisco de Itabapoana (SFI) há seis orelhões e em São João da Barra (SJB) apenas um, todos pertencentes também à Oi. Os dados são da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). 
A agência informou que a retirada dessas estruturas será feita de forma gradual e seguindo o cronograma da empresa considerando a disponibilidade tanto financeira como operacional. As retiradas dos orelhões em todo o país acontecem após o encerramento da concessão do serviço de telefonia fixa à cinco empresas responsáveis pelos equipamentos em dezembro do ano passado, são elas: Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica. Por isso, as empresas de telefonia fixa não têm mais a obrigação de manter os equipamentos.
A Anatel disse ainda que não existe uma obrigação da retirada dos orelhões das ruas, mas a agência avaliou a solicitação às prestadoras para apresentar um plano de retirada desses terminais. Além disso, os usuários também podem solicitar a retirada desses equipamentos nas centrais de atendimento das empresas. Foi o que fez o proprietário de uma lanchonete no centro de Campos, o Salvador José. Há 46 anos, o empreendimento funciona na área mais movimentada da cidade, à época dos orelhões, houve o pedido para instalar um equipamento dentro do comércio, o que ajudava a atrair clientes.
“Esse telefone nós pedimos, eles vieram e colocaram. Deve ter mais ou menos uns 38 anos. Era muito bom, ajudava a atrair os clientes que vinham fazer uma ligação e aproveitavam para lanchar. Muita gente usava e nós não deixávamos ninguém fazer bagunça nele. Na época, como não tinha celular, os orelhões ajudavam muito. Era excelente. Todo mundo chegava, comprava a ficha ou o cartão e usava. Hoje acabou tudo, tiraram vários, não sei para onde foi, o pessoal acho que carregou também. No calçadão tinha muitos, hoje não tem mais nenhum. Já tem uns 15 anos que ele não está funcionando. Nós já pedimos para retirar, eles ainda não vieram, então enquanto isso, a gente deixa ali como recordação para quem passa, a criançada nova que não chegou a conhecer. Aí os parentes chegam e mostram que esse aí é o orelhão e dizem que hoje não tem mais isso”, contou Salvador.
Orelhões em Campos
Orelhões em Campos / Júlia Alves
Já o policial militar aposentado de 72 anos, Antônio Ângelo, e a dona de casa de 62 anos, Telma Helena, falaram sobre as experiências e a importância dos telefones públicos para a comunicação na época.
“Usei muito no meu dia a dia para bater papo com amigos, parentes e usava também em caso de emergência médica. Os orelhões fizeram parte da minha vida e tinham certa importância. O funcionamento dele era simples. Você adquiria uma ficha, a princípio, nas bancas de jornal, e usava por uns breves minutos. Ia adicionando fichas para falar por mais minutos, depois em vários segmentos do comércio, mas tarde foi sendo substituídas por cartões que tinham a vantagem de você usar por mais tempo, com vários valores, conforme os minutos que poderiam ser usados. Com o advento dos celulares, os orelhões não fazem falta, pois eles eram colocados em locais fixos e nem sempre funcionavam de forma satisfatória. Acho normal com a modernidade das comunicações e com a facilidade de todos poderem ter um aparelho móvel, os orelhões perderam a sua utilidade”, comentou Antônio.
"Usei muitas vezes para me comunicar com parentes e amigos, pois não tinha telefone em casa. Era muito importante e lembro que no começo era usado com fichas e depois passou a ser de cartão com vários valores ou então fazer ligações a cobrar. Me lembro muito bem que as últimas vezes que usei era para falar com meu marido, pois eu estava no Rio de Janeiro e ele trabalhava aqui em Campos. Apesar das coisas terem evoluído, acredito que em casos de emergência na rua como um celular descarregado ou sem crédito, eles ajudariam muito para nos comunicarmos. Se hoje em dia não está tendo serventia, acredito que seja melhor retirar para que não sejam depredados. Mas, também acho que seria legal manter alguns como forma de preservação de algo que já foi muito importante na história”, disse Telma.
 
Orelhões em Campos
Orelhões em Campos / Júlia Alves
Já as irmãs Brenda e Sthela Rangel, de 16 anos, comentaram que, apesar de não terem usado um orelhão, sabem como o equipamento funcionava e, acreditam que alguns deveriam ser mantidos para preservar a memória de uma época em que esse equipamento era uma das principais formas de comunicação.
“Nunca usei um orelhão, mas sei como funcionava. Como todo mundo agora tem celular, os orelhões acabaram perdendo a utilidade. Mas ainda assim acho importante ter alguns nas ruas porque foi algo marcante e até mesmo para que as próximas gerações saibam que isso existiu e tenham esse exemplo de como era a comunicação antes. Porque apesar de nunca ter usado, eu cresci também com essa memória do que é um orelhão, vendo eles pelas ruas”, completou Brenda.
“Não cheguei a usar mas sei que funcionava como um telefone público para realizar chamadas, através do uso de cartões. Os orelhões tinham muita importância antigamente para que as pessoas pudessem se comunicar. Se ainda funcionasse seria útil para fazer ligações em caso de alguma emergência. Mesmo não funcionando seria interessante deixar alguns pela cidade como um símbolo histórico”, comentou Sthela.
Mesmo em desuso, o orelhão voltou segue como símbolo cultural do Brasil. O equipamento aparece em uma das fotos de destaque do filme brasileiro "O Agente Secreto", vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar 2026. Na imagem, o ator Wagner Moura está dentro da cabine oval segurando o telefone e representando seu personagem Marcelo no longa.
Filme O Agente Secreto é estrelado por Wagner Moura
Filme O Agente Secreto é estrelado por Wagner Moura / Foto: Victor Jucá/Divulgação

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