Do grito contra os usineiros ao acordo com o açúcar
06/04/2026 | 08h22
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes / Foto: César Ferreira


O ano era 1988. O Brasil finalizava as extensas — e propositalmente graduais — negociações para um novo período democrático, com a promulgação de nova Constituição e a realização de eleições diretas em todo o país. Em Campos dos Goytacazes, iniciava-se um processo que iria determinar a história local, definindo não apenas um novo rumo político, mas também redesenhando as relações sociais da cidade.

Havia naquele período um movimento denominado “Frente Campos”. A mobilização tinha claras ambições políticas, e nascia de um sentimento quase palpável de insatisfação popular com os governos municipais ligados às elites campistas de então, principalmente ao setor sucroalcooleiro.

A tal “frente” era composta por pessoas ligadas ao setor cultural, especialmente do teatro e poesia. Parte da intelectualidade e da imprensa também se organizavam ali. E havia os partidos de esquerda — PDT, PCB, PV e mais tarde o PT. A insatisfação estava nas camadas mais populares, mas também na classe média — composta por comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais —, fazendo o movimento tomar corpo e vislumbrou-se uma candidatura ao executivo municipal.

Entre os personagens, um jovem despontava: Anthony Garotinho. Oratória sofisticada, ambição e ligação partidária efetiva no PDT, avalizada por Leonel Brizola. Em 1986, Garotinho elegeu-se deputado estadual, já sendo uma figura conhecida do rádio na cidade, onde, na emissora Cultura, disputava com outro nome conhecido dos dials, Barbosa Lemos.

O movimento Frente Campos passou a se denominar “Muda Campos”, em março de 1988. Naquele ano, Garotinho conseguiu, pelo PDT, homologar sua candidatura a prefeito de Campos, tendo o médico Adilson Sarmet como vice. Estava formada uma confluência de fatores e forças políticas que possibilitaria romper com velhas oligarquias.

Apesar dos inúmeros candidatos que concorreram às eleições municipais naquele ano, a polarização estava bem delimitada: Garotinho, como representante da classe média, de grupos emergentes na política local, como os jovens e intelectuais, e como já apontado, os “homens e mulheres de cultura”.

Garotinho conseguiu discursar em nome do “povo” e se aliar a setores de mando local, com poder financeiro. O outro lado era composto pelo poder político de Zezé Barbosa, que apoiou Jorge Pereira Pinto. A narrativa eleitoral criou o “inimigo” popular, associando o atraso da cidade com o “poder de usina” e as antigas oligarquias rurais campistas.

O início do garotismo
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT.
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT. / Arquivo
Anthony Garotinho foi eleito prefeito de Campos em 3 de outubro de 1988, com pouco mais de 30% dos votos válidos. Boa parte desses votos foi dada pela imagem construída do “novo” e pela cultura como plataforma política.


Um dos eventos mais traumáticos de Campos — a demolição do cine-teatro Trianon — foi atribuído ao prefeito anterior, derrotado no pleito. O teatro-cinema foi a principal diversão de várias gerações de campistas e a demolição do símbolo Trianon estava engasgada, precisando achar culpados. Zezé Barbosa foi acusado de complacência, e Garotinho conseguiu centralizar nele a ideia de uma “política cultural mais democrática”, tendo como uma das primeiras medidas reativar o Teatro Trianon.

A luta pelo renascimento do Trianon e as críticas à sua demolição já estavam na sociedade campista, mas Garotinho conseguiu capitalizar a pauta, e sua origem no teatro amador e no rádio o ajudou bastante nessa empreitada. E mais: a cultura era vendida como forma de aproximação popular e democratização de acesso.

Neste sentido, junto com uma pluralidade de personagens ligados ao teatro amador, à intelectualidade e à cultura de modo geral, deu-se o significado histórico sociológico da eleição de Garotinho, que ajudou sobremaneira a legitimar seu poder e dar representatividade ao “povo” e à classe média.

E não se limitava ao Trianon. Em conjunto com a ideia brizolista de fortalecimento da educação e da cultura, entre os planos locais estavam reativar o carnaval campista,
promover “grandes bailes para o povo”, democratizar a festa de São Salvador como atração turística, entre outras iniciativas.
Poder, Campos como a anti-capital e os royalties
A cidade que ajudou a eleger Garotinho em 1988 queria romper com a velha Campos. Ou, ao menos, com a imagem dela: a Campos dos usineiros, do mando tradicional, da política envelhecida e dos círculos fechados de poder. Havia ali um bafejo de redemocratização, um impulso de participação e uma crença — talvez sincera, talvez ingênua — de que seria possível reorganizar a cidade a partir de novas energias sociais.

Não por acaso, já no primeiro governo, em 1991, seria instituído o Plano Diretor do município, no contexto mais amplo da redemocratização brasileira e da nova centralidade adquirida pelos municípios após a Constituição de 1988. Uma nova urbanidade também se construía.

A Campos que começava a se redescobrir, com um importante ciclo econômico em decadência — do açúcar — sofre um baque nos anos 1980: o dinheiro fácil. No início do século XXI, Campos entrava em outro ciclo econômico, agora sob o signo do petróleo. E a promessa, desta vez, era maior, pois não se tratava apenas de riqueza agrícola ou comercial, mas de uma renda extraordinária, potencialmente capaz de promover mudanças estruturais e institucionais na cidade e na região. Campos liderou por anos o ranking dos maiores recebedores de royalties do país. Em 2005, sozinha, recebeu R$ 670,1 milhões, o equivalente a 24,19% de todas as rendas petrolíferas municipais distribuídas no Brasil naquele ano.
 
Usina do Limão
Usina do Limão / Arquivo


Entretanto, o poder local optou por sequestrar as rendas petrolíferas, sem se preocupar com projetos consistentes de desenvolvimento regional nem justiça intergeracional. O populismo foi a tônica escolhida, com alguns hiatos na gestão de Arnaldo Vianna e no segundo governo Rosinha Garotinho, onde algumas obras estruturais urbanas foram entregues.

Politicamente os movimentos foram direcionados ao Estado. Constituída como a principal cidade do Norte e Noroeste Fluminense, Campos sempre foi uma vitrine importante e serviu para que os políticos locais buscassem o poder estadual. O próprio Garotinho foi governador do Rio, elegeu sua esposa, Rosinha, e foi candidato à presidência da República, ficando em terceiro lugar.

Campos, por essas características, funcionou como uma espécie de “anti-capital”. Não tinha a importância e contingente populacional para ser capital do Estado, mas buscava sempre aproximação com esse lugar simbólico. Por sua vez, a capital sempre viu o interior com preconceito e distanciamento — sentimento que, em larga medida, se concentrava na maior cidade do interior: Campos.
O açúcar histórico
A prosperidade econômica de Campos não se constituiu historicamente apenas num centro municipal-regional, mas sim em um polo econômico importante ainda no Império, que se desenvolveu continuamente com a concentração das usinas, exercendo, por esse potencial do setor açucareiro, a função de capital.

Com o advento do Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, criado em 1933, essa centralidade foi reforçada, fazendo de Campos um dos principais centros produtores de açúcar do país. A Usina São José, por exemplo, ocupava o quarto lugar dentre as maiores usinas do Brasil.
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz / Arquivo


Mas o mesmo sistema que deu sustentação ao açúcar campista também ajudou a criar dependências. A proteção estatal — as cotas e a regulação do IAA — permitiram a sobrevivência por algum tempo de estruturas que, em muitos casos, envelheceram sem modernização compatível. Quando o setor passou pela desregulamentação e o IAA foi extinto em 1990, o choque foi profundo. O decreto de Collor transferiu as atribuições do instituto e marcou a passagem de um ambiente subvencionado para outro, mais exposto à lógica de mercado.

A literatura acadêmica sobre o Norte Fluminense é relativamente convergente nesse ponto. O declínio das usinas campistas não decorreu de uma causa única, mas de um acúmulo de fragilidades: baixa produtividade agrícola, parque industrial envelhecido, alto endividamento, dificuldade de modernização tecnológica, perda de competitividade diante do Centro-Sul, competição por matéria-prima, capacidade ociosa crescente e desorganização após a desregulamentação dos anos 1990. Enquanto outras regiões ganharam escala, tecnologia e integração logística, boa parte do parque sucroalcooleiro campista perdeu mercado e fechou unidades.
A situação ficou ainda mais contraditória porque a decadência do açúcar coincidiu, em larga medida, com a ascensão das receitas petrolíferas. Porém, em vez de a crise do primeiro ciclo servir como alerta para a necessidade de diversificação econômica e planejamento de longo prazo, a abundância dos royalties acabou amortecendo a urgência da reinvenção.

Isso também aparece em estudos locais: a renda do petróleo não foi convertida, de forma estrutural, em uma nova base econômica capaz de substituir com consistência a velha centralidade sucroalcooleira.
Royalties e a volta do usineiro

Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho.
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho. / Foto: César Ferreira

Na última quinta-feira (2), Campos dos Goytacazes tem um novo prefeito. Após a renuncia do atual, Wladimir Garotinho, para concorrer nas eleições deste ano, quem assume é o vice, Frederico Paes. Ele é engenheiro agrônomo, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) e figura diretamente vinculada ao setor canavieiro da região e ex-diretor do Hospital dos Plantadores de Cana. Sua posse devolve ao centro do poder municipal um nome associado, de modo explícito, ao universo do açúcar.

O garotismo nasceu, em 1988, como linguagem de ruptura contra a cidade do mando tradicional, das oligarquias locais e do “poder de usina”. Décadas depois, entrega a Prefeitura a um homem do açúcar. Não se trata de dizer que Campos voltou intacta ao passado; a história não é tão simples. Mas a imagem é eloquente, e talvez represente uma ruptura que envelheceu.

Por isso a ascensão de Frederico Paes pode ser lida menos como retorno puro e simples do passado e mais como um evento que mostre uma cidade que um dia gritou contra os usineiros, e ainda não conseguiu produzir, em plenitude, uma alternativa duradoura às suas velhas formas de conciliação entre riqueza, poder e sobrenome, e que precisa aprender a se reconciliar.

Talvez este seja o momento para isso, sobretudo diante do julgamento que o STF pautou para 6 de maio sobre duas ações que discutem as regras de distribuição dos royalties do petróleo no país. A depender do resultado, Campos poderá ser chamada, mais uma vez, a repensar sua história, seu presente e, principalmente, seu futuro.
 
MATIAS, Glauber Rabelo. Os donos da cultura: uma análise sociológica sobre o campo das políticas culturais em Campos dos Goytacazes/RJ (1989-2013). Trabalho apresentado no XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, Porto Alegre, 2015.
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Ensaio sobre Campos
03/01/2026 | 09h51
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto, já pronto.
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto, já pronto. / Edmundo Siqueira


Um círculo se formava em frente ao palco. Cadeiras brancas, de plástico, acomodavam organizadores e participantes do festival — discutiam-se os problemas e apontavam-se soluções para as próximas edições. A principal queixa era a falta de público. A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), uma espécie de secretaria de cultura da cidade e organizadora do evento, era cobrada a respeito da qualidade e antecedência da divulgação das mesas, vindas da programação proposta pela curadoria que estaria por conta da sociedade civil.

A mesa subsequente àquela discussão trataria sobre o fechamento da “Ao Livro Verde”, livraria tida como a mais antiga do Brasil enquanto estava em funcionamento em Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro. Debatedores e público presente tentavam encontrar um caminho para que a livraria renascesse e ocupasse novamente o posto da longevidade no país. Embora houvesse propostas factíveis e gente disposta a apoiar a iniciativa, havia no ar um saudosismo irrevelado, quase como se todos ali soubessem que aquele seria um sonho distante, e incapaz de atrair apoio do poder público local.

Os dois acontecimentos se deram na noite de 9 de novembro de 2025, três dias depois da reinauguração do prédio denominado “Palácio da Cultura”, local onde estava sendo realizado o festival. Batizado com o sugestivo nome de FDP!, o Festival Doces Palavras encerrava sua sexta edição naquela noite.

O episódio que narro até aqui possui uma forte relação simbólica com a cidade de Campos, no geral. O próprio Palácio que abrigou o referido festival, representa como o poder público encara os patrimônios materiais que dispõe sob o seu jugo — descaso que não tem apenas relação com o governo da ocasião, mas como uma forma de governar que se perpetua por décadas, quase como um “modelo de Estado campista”. O palácio é uma construção de beleza arquitetônica icônica, pensado sob linhas vanguardistas europeias nos anos 1970, combinadas ao modernismo e ao concretismo brasileiros, e que contou ainda com jardins assinados por Burle Marx. Mesmo incrustado na área mais valorizada da cidade, permaneceu fechado por mais de uma década.

O fechamento do Palácio da Cultura por tanto tempo não expõe apenas o descaso patrimonial. Representa, fielmente, o deserto de ideias e políticas públicas que assola o município. O “modelo de Estado campista” é carente de ações estruturantes. Campos é uma cidade histórica, extremamente representativa do período imperial do Brasil e da produção de cana-de-açúcar. Conta também boa parte do processo escravagista do país. E nenhuma das duas características são exploradas de forma turística, tampouco em educação patrimonial e ações antirracistas.
Inexiste em Campos uma política pública patrimonial como há em cidades como Ouro Preto (MG) e Petrópolis, também no interior do Rio. Embora existam problemas na conservação patrimonial nessas cidades, o ativo construído por mais de um século é explorado e gera divisas. Portanto, Campos ignora seu passado e por isso dá as costas ao futuro que poderia ter.
Interior do Palácio da Cultura, em 2018. Obras haviam começado em 2014 e foram paralisadas em 2016. Seguiu fechado por mais de uma década.
Interior do Palácio da Cultura, em 2018. Obras haviam começado em 2014 e foram paralisadas em 2016. Seguiu fechado por mais de uma década. / Foto: Divulgação/Prefeitura de Campos


A estagnação como projeto

Para além do potencial em patrimônio e história, Campos vem se consolidando como uma cidade de serviços. Pela proximidade com uma zona portuária significativa e sua posição geográfica entre capitais importantes (Rio e Vitória), ser polo universitário e por Campos oferecer a melhor estrutura da região em comércio, shoppings, vida noturna e lazer, a cidade acaba por concentrar moradores imigrantes vindos de outras cidades menores e população flutuante que utiliza constantemente oos serviços oferecidos.

O que à primeira vista pode parecer uma qualidade — e traz benefícios, porém limitados e limitantes —, acarreta estagnação no município em três frentes importantes: a primeira diz respeito à industrialização. Com exceção de algumas iniciativas industriais, principalmente ligadas à cana-de-açúcar, Campos atraiu poucas indústrias e teve tentativas frustradas na criação de zonas industriais circundando a cidade.

A segunda estagnação — talvez a mais danosa quando pensado em um município com a extensão territorial de Campos — está relacionada à concentração de serviços, oportunidades de emprego e educação na área central. A cidade, popularmente chamada de “pedra”, mantém concentrada não apenas a iniciativa privada como os esforços públicos em infraestrutura. Regiões de alto potencial turístico como Imbé e Lago de Cima seguem sem acesso satisfatório, transporte público eficiente e serviços básicos como segurança e esgotamento sanitário precários.

A terceira estagnação está no agronegócio. Tido por mais de um século como a atividade mais importante do município, poderia gerar divisas e empregos com os espólios dos tempos áureos, mas segue com baixa tecnologia aplicada, deficiência de pessoal especializado e inexistência de programas de irrigação com incentivo público.

Segundo o Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (Nuperj), da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o saldo de empregos acumulado em outubro de 2025 (veja aqui) para o Estado do Rio de Janeiro foi de apenas 641, enquanto serviços acumulou um saldo de 65.339 empregos. Na indústria, fortemente puxado por distritos industriais no grande Rio, teve saldo positivo de 13.983.

Os dados apresentados e as avaliações empíricas em relação a Campos são ainda mais estagnantes se pensarmos em indústria fina e tecnologia da informação. Não seria ilógico pensar que uma cidade com quase meio milhão de habitantes conseguisse produzir um ecossistema mínimo de tecnologia e inovação.

Lago de Cima, Campos dos Goytacazes. Local subutilizado em turismo.
Lago de Cima, Campos dos Goytacazes. Local subutilizado em turismo. / Foto: Leonardo Berenger


Quando o entorno avança

Em comparação com vizinhos próximos, o Nuperj informa que em Macaé, com uma população estimada de 264.138 habitantes em 2024, registrou um estoque de 130.321 empregos formais em 2023, sendo o município, além de produtor de petróleo, sede de um conjunto importante de empresas que operam na atividade offshore da indústria petrolífera.

São João da Barra com uma população estimada de 38.708 habitantes em 2024, registrou um estoque de 21.009 empregos formais em 2023. “Uma discussão importante a esse respeito passa pelas teorias de aglomerações produtivas e as correspondentes externalidades (Ribeiro e Hasenclever, 2019), e sendo “consenso na literatura internacional que aglomerações dessa natureza costumam atrair fluxos consistentes de capital e tecnologia, com reflexos ampliados em indicadores como PIB, Renda, emprego, etc”.

Em contrapartida, “os territórios não se constituem de boa capacidade de absorção das externalidades positivas, a sua fuga é inevitável, sendo fixadas somente as externalidades negativas associadas à poluição, pobreza, violência, desemprego e outros problemas da mesma natureza”, conforme matéria publicada no Folha1, em março de 2025 (veja aqui).

Prefeitura Tentacular

Em um município com as características de Campos, é fundamental que o poder público local se articule com outros entes federativos e ofereça à população e aos investidores privados as melhores condições possíveis em infraestrutura e facilidades para expansão habitacional e empresarial.

O que se vê, historicamente, é uma cidade que faz o contrário. As políticas públicas, quando existentes, servem a fins eleitorais ou a interesses de nichos específicos. Estradas vicinais, asfaltamento urbano, anéis rodoviários, pontes, melhorias em educação básica e saúde, programas de segurança pública, ações ambientais e outras ações estruturantes respondem a problemas, mas não demonstram planejamento.

A prefeitura local se mostra, há vários governos, mantendo o “modelo de Estado campista” como um organismo tentacular, que mantém sob seus desígnios boa parte da força de trabalho empregada e um sistema de compadrio — ou um capitalismo de compadres — que cria uma interdependência proposital entre atores públicos e privados.

Politicamente, é um sistema interessante aos objetivos eleitorais estaduais. Não é surpreendente que existam atores locais com força política estadual ou ocupando cargos estratégicos da máquina administrativa do Rio de Janeiro. O próprio modelo político implantado historicamente em Campos favorece que a cidade seja usada como trampolim, e ajuda a explicar muito das ações da prefeitura e a ausência de políticas públicas.

Além das ações propositalmente eleitoreiras, as boas iniciativas da prefeitura esbarram em movimentos contrários da sociedade civil, que se colocam contra intervenções que afetem o meio ambiente ou comunidades tradicionais, por exemplo. Essas oposições da sociedade civil além de rotineiras em democracias consolidadas, servem para que o poder público calibre suas ações e conciliem os interesses distintos, mantendo o interesse público em primeiro plano quando forem inconciliáveis.

Vejamos o caso do Mercado Municipal em Campos, exemplificativo e simbólico nessa questão. Há na região central da cidade uma praça de Mercado com mais de 100 anos, instalada por questões logísticas e econômicas que não mais se justificam. Nos anos 1980, foi construída uma estrutura metálica que iria abrigar temporariamente a feira de peixe e verduras. A estrutura permanece até os dias de hoje. Além dela, outra grande estrutura que abriga um camelódromo esmaga o prédio histórico, tornando-o invisível, além de manter, abaixo das estruturas, condições precárias para feirantes e clientes.
Mercado Municipal de Campos: espremido entre estruturas equivocadas.
Mercado Municipal de Campos: espremido entre estruturas equivocadas. / Foto: Genilson Pessanha


A prefeitura propôs que fosse utilizado uma praça próxima ao Mercado, cerca de 250 metros, localizada nos fundos da rodoviária central da cidade. Além de uma nova feira, estavam contemplados no projeto áreas de convivência e aberturas de restaurantes, e ainda um Banco de Alimentos, que distribuiria alimentos que seriam descartados à população em situação de rua e vulnerabilizados. A iniciativa encontrou resistência principalmente sobre a utilização da praça, que possui árvores e construções, mas também da remoção da feira do local que permanecia há um século (veja matéria sobre os 104 anos do Mercado, aqui).

Embora ambas fossem manifestações justas, a praça encontrava-se em abandono e assim permanece. As condições dos feirantes e clientes mantêm-se da mesma maneira. A prefeitura se retraiu quando encontrou resistência, possivelmente por receio de incomodar o eleitorado e direcionou o orçamento para outras áreas. A iniciativa com potencial transformador da área central e cultural da cidade, ficou anestesiada.

Isso se repete sistematicamente. É possível citar o abandono do sambódromo público, chamado de CEPOP, a falta de aproveitamento da Cidade da Criança, ações meramente maquiadoras na área do cais da Lapa, o Palácio da Cultura por mais de 10 anos fechado, solares em ruína, casarios doados à prefeitura sem utilização e também em ruínas como o Olavo Cardoso.

Modelo de Estado Campista

O problema, portanto, não é a ausência de potencial, mas a persistência de um modelo. O “modelo de Estado campista” não fracassa por ignorância técnica ou falta de diagnósticos — fracassa porque não foi concebido para induzir desenvolvimento, mas para administrar permanências.

Campos não é uma cidade abandonada pelo Estado. É uma cidade administrada para não mudar demais, demonstrando que sua estagnação faz parte de um projeto fisiológico de poder.

Trata-se de um Estado que funciona melhor na exceção do que na regra, que responde a crises pontuais com ações episódicas, mas se esquiva sistematicamente de políticas de longo prazo. Um “Estado Campista” que prefere inaugurações simbólicas a processos contínuos; eventos a estruturas; remendos a reformas; pinturas a revitalizações.

Nesse modelo, a estagnação não é um efeito colateral indesejado — é um componente funcional. A cidade que não diversifica sua economia permanece dependente, e quando não organiza seu território reforça desigualdades. Não investindo em educação patrimonial ou inovação, limita a formação de pensamento crítico e reduz sua capacidade de reivindicação e formulação prática de seu futuro.

O Palácio da Cultura fechado por mais de uma década, a livraria histórica encerrada sem mobilização efetiva do poder público, as regiões de potencial turístico relegadas à precariedade e a ausência de uma política industrial consistente não são episódios desconexos. São manifestações distintas de uma mesma lógica: a de um Estado que governa o presente sem compromisso com o futuro.

Campos segue presa a uma ideia de centralidade que não se converte em liderança regional. Atrai pessoas, mas não fixa projetos. Concentra serviços, mas não multiplica oportunidades. Produz circulação, mas não gera transformação. O resultado é uma cidade que se move sem sair do lugar.

Regionalismo, Cidennf e abandono da ideia de capital do Estado

Campos já pensou em ser a capital do Estado do Rio de Janeiro. Nas mudanças promovidas pela União, que mudou a capital da República para Brasília e criou o Estado da Guanabara, as elites campistas tentaram fazer de Campos dos Goytacazes a capital, iniciativas facilmente comprovadas em periódicos locais dos anos 1960 e 1970, e anteriormente, quando o município era um potente produtor de cana-de-açúcar.

A ideia foi vencida por Niterói, e depois novamente pela cidade do Rio de Janeiro. Porém, parece ter permanecido no imaginário das elites de Campos a vontade de ter centralidade estadual, quando na verdade seria necessário que se criasse uma política voltada à regionalização do Norte e Noroeste Fluminense.

Campos exerce organicamente a liderança dessas regiões, pelas características e motivos aqui elencados e mesmo com as dificuldades também aqui apresentadas. Portanto, voltar-se aos municípios regionais não seria uma fraqueza e sim um direcionamento estratégico mais lógico e mais efetivo economicamente.

Para tanto, já existe o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense (Cidennf), que conta com nove câmaras técnicas setoriais distribuídas em diversas áreas, como saúde, turismo, desenvolvimento regional, cultura e educação. Apesar de constituir-se como um órgão consultivo e deliberativo, o Cidennf se mostra um instrumento potente para produzir o regionalismo necessário para cidades como Campos e seus vizinhos (site do Cidennf aqui).

Promover arranjos regionais se mostra fundamental para a realidade desses municípios, que ao unir esforços e pensar conjuntamente políticas públicas, estabelecem planejamentos de médio e longo prazos, com real poder transformador.

Soluções já dadas

Campos não carece de planos, diagnósticos ou recursos. Carece de decisão política para romper com um modelo que transforma a exceção em regra e a permanência em método. Enquanto o “Estado campista” seguir operando para administrar dependências, toda tentativa de transformação será episódica, toda promessa de futuro será adiada.

O que está em disputa não é apenas o desenvolvimento econômico ou a revitalização urbana, mas a capacidade da cidade de voltar a se pensar como projeto coletivo — e não apenas como território administrado.

A roda de cadeiras de plástico montada diante do palco, discutindo a falta de público, não era apenas uma cena cultural, no Palácio da Cultura reaberto. Era uma metáfora da cidade. Campos segue debatendo seus próprios limites sem decidir se quer ultrapassá-los. Enquanto isso, o palco permanece montado, as luzes acendem, o espetáculo começa — e o futuro, mais uma vez, não entra em cartaz.
 
RIBEIRO, Rodrigo; HASENCLEVER, Lia.
Aglomerações produtivas, desenvolvimento regional e políticas públicas. Revista Brasileira de Inovação, 

NÚCLEO DE PESQUISA ECONÔMICA DO RIO DE JANEIRO (NUPERJ).
Boletim do mercado de trabalho do Estado do Rio de Janeiro: outubro de 2025. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2025.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO (UENF).
Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (NUPERJ). Campos dos Goytacazes, 2025. Disponível em: <https://www.uenf.br>. Acesso em: dez. 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE).
Estimativas da população residente nos municípios brasileiros: 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
Disponível em: <https://www.ibge.gov.br>. Acesso em: jan. 2026.

FOLHA1. Externalidades negativas e desenvolvimento regional no Norte Fluminense. Folha1, Campos dos Goytacazes, mar. 2025.
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Entre fortunas, erros e virtudes, Campos decidiu reeleger o príncipe
07/10/2024 | 08h19
Arte digital criada com IA
Arte digital criada com IA / Edmundo Siqueira


Foi em primeiro turno. Em votos válidos, Wladimir recebeu 69,11%. Uma vitória esmagadora que provou que o prefeito de Campos não teve apenas habilidade política ou o bom uso do sobrenome que carrega. Quem acompanhou o jogo pôde perceber que ele soube trabalhar com dois fatores essenciais da política: a “virtù” e a “fortuna”.

Essa coisa de virtude e fortuna foi explicada na política por Nicolau Maquiavel — que era tudo, menos um ingênuo —, quando escreveu sua obra seminal “O Príncipe”, em meados de 1500. Em suma, o governante precisa de talento para liderar (virtù) e sorte para aproveitar as oportunidades (fortuna).

Wladimir, que não nasceu ontem, soube jogar com os dois. De um lado, ele carregou a política local nas costas, fazendo o que sabe fazer melhor: articulação. De outro, teve a sorte de navegar por um cenário onde seus adversários somados não conseguiram chegar a 10% dos votos, com exceção da Delegada Madeleine, que conseguiu 24,22% dos votos válidos, e mostrou forte consistência em todas as zonas eleitorais.

Em Campos, uma cidade com problemas endêmicos de infraestrutura e serviços públicos deficitários, principalmente em transporte, ele conseguiu o que parecia improvável: alta popularidade, alta taxa de conhecimento e a reversão de uma impopularidade histórica de seu grupo na chamada “pedra”, na zona 98. Isso não é pouco. Maquiavel aplaudiria.

Ele soube usar a máquina pública para agradar o povo com programas sociais, melhorias pontuais e espetacularização do fazer político. E ainda mais importante: Wladimir conhece o cheiro do poder e, como bom estrategista, sabe quando avançar e quando recuar. E demonstrou uma baita habilidade em gestão de crises.

A exceção, que confirma a regra, foi a relação com a Câmara, que não soube manejar e acabou perdendo a presidência em um momento crucial para seu governo, momento onde também recebeu questionamentos agressivos da oposição.
Folha1
A “fortuna”
A sorte (fortuna) sorriu para ele quando seu xará, o presidente da Rússia Vladimir Putin, iniciou contra a Ucrânia, um de seus países vizinhos, uma invasão militar, marcando uma escalada para um conflito que começou em 2014. Entre outros fatores, a guerra elevou o preço do barril de petróleo, e a petrorentista Campos viu seus cofres gordos novamente. Soma-se a isso uma retomada natural da economia no pós-pandemia, e o cenário é bastante favorável.

A sorte foi dele, e ele soube aproveitá-la. Maquiavel dizia que a “virtù” do governante é sua capacidade de se adaptar às circunstâncias. O resultado eleitoral refletiu a sorte e a virtude Wladimir, mas também foi permitida por uma oposição que não soube se organizar. Parecia que todas as forças estavam fora de lugar na campanha. Os números estampados nos bonés muitas vezes eram diferentes da atuação partidária. Havia bipolaridade em uma oposição que deveria estar plenamente sadia. Além da campanha, a “pacificação” de antes, entre o grupo Bacellar e Wladimir favoreceu o prefeito, que fez cara de paisagem e colheu os frutos dela.

Contrariar as estatísticas é o desafio
Wladimir Garotinho navegou com destreza entre a virtù e a fortuna. Ele fez o que precisava, jogou com as cartas que tinha e venceu a partida. Mas o problema de brincar de príncipe é que o castelo, uma hora ou outra, pode começar a ruir. Não será o primeiro, nem o último a ver a “fortuna” mudar de humor.

Campos dos Goytacazes, esse feudo resistente, pode ser generosa com seus líderes, mas é impiedosa quando as promessas não resistem à realidade. Wladimir, esperto como o clã lhe ensinou, sabe que o jogo não acabou. Se Maquiavel estivesse por aqui, talvez dissesse que agora começa o verdadeiro teste: sobreviver à própria sombra.

E aí, meu caro Wladimir, quando a “fortuna” cansar de você, seu verdadeiro feito vai ser contrariar o que lhe favoreceu nessa eleição: as estatísticas. Precisará fazer um segundo governo melhor que o primeiro.
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O pai e a necessidade de holofotes
13/08/2023 | 10h44
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Na mitologia grega, uma dos arquétipos paternos conhecidos é Urano, que nasceu de Géia (algo como uma mãe-terra, geradora de tudo) e passou a ser seu companheiro, tendo com ela os doze titãs, sendo Cronos o último dos 12 titãs do deus Urano.

Urano simboliza o céu, as estrelas. Precisa de luz a todo momento, vivendo e absorvendo a iluminação. Era um tipo de deus que temia o poder de outros deuses, mesmo que eles fossem seus filhos. Após terem os 12 titãs, Géia e Urano tiveram mais seis filhos, e o pai, temendo que seus poderes ficassem grandes demais, prendeu a nova prole no útero da mãe novamente.
Essa prisão materna era especialmente perversa para Géia, que pediu ajuda dos primeiros filhos para libertar da prisão, ela e seus irmãos, do castigo perverso do pai.

O único que aceitou salvar a mãe e seus irmãos foi Cronos. A tirania do pai o afetava, e ele estava cansado de ver Urano como um genitor apenas, alguém que desconhece a função paterna, que estaria ali simplesmente para gerar, e para afirmar sua própria masculinidade. Urano não demonstrava nenhuma culpa ou angústia perante os filhos, os vendo como algo que nasceu para servi-lo, e não ameaçá-lo.

Perante a tirania, Cronos decide agir e castra seu pai, Urano. Assim liberta os seus irmãos da prisão na mãe, e inaugura a era do pai patriarcal, o pai agente da lei. A partir dele, o ego não estaria mais à mercê do mundo, e não lutaria apenas pela sobrevivência; não estaria mais entregue aos impulsos.

O filho Cronos começa a inserir-se no mundo da cultura, dos limites e da construção existencial. Com o simbolismo do ato de violência contra o pai, começa então a se deslocar de uma posição passiva para uma posição mais ativa no mundo.

A simbologia da mitologia grega explicita que não é papel do pai ser tirânico e mercurial. É função primordial do pai direcionar luz para seus filhos, pois a vida irá florescer novamente em sua prole. A lei da natureza determina que há o tempo do pai, e há o tempo do filho, e que eles não podem ser conflitantes e sim complementares.

O exemplo de Cronos também evidencia que contra um pai tirano restam poucas opções, e quando a tirania recai sobre filhos, com a complacência ou submissão da companheira, o resultado pode ser desastroso.

Nos espólios da guerra, territórios antes conquistados podem ser perdidos. E embora a relação entre pais e filhos possam ser por vezes conflituosas, existem limites a serem obedecidos. Quando se busca a luz, a qualquer custo, sombras podem encobrir as próprias vitórias.

E pior: quando há uma disputa visceral pela luz e pelos holofotes, as consequências podem recair sobre os que dependem dos líderes, e fazer com que o Olimpo , antes buscado como ideal, passe a ficar cada vez mais distante.
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As perguntas ainda não respondidas na Câmara de Campos
18/04/2022 | 10h04
Talvez o único consenso que há sobre a trama da novela trágica que se arrasta na Câmara de Vereadores é que ela precisa de um desfecho. Como todo enredo, o encadeamento de eventos que vão compondo as narrativas da trama principal precisa resultar em algo com princípio, meio e fim. E o fim depende de respostas a algumas perguntas.

Para respondê-las, os vereadores precisam se submeter ao estado democrático de direito e a prevalência das leis e regimento. As narrativas importam, mas elas precisam estar amparadas nos normativos quando tratamos de poder público.
A trama começa com a antecipação da eleição para a Mesa Diretora, onde a base governista perdeu, inclusive tendo o resultado declarado pelo candidato à reeleição derrotado, Fábio Ribeiro. Depois da “traição” do vereador Maicon Cruz — que havia acordado voto em Fábio —, e o “não voto” de Nildo Cardoso durante a votação, de forma nominal, a eleição foi anulada.
Em contragolpe, a oposição tenta a retomada da sessão que deu vitória a Marquinhos Bacellar na justiça, mas é negada em duas instâncias. Após paralisação por mais de um mês, as sessões foram retomadas com a abertura de processo para destituição da presidência da Casa. Dobrando a aposta, a situação abre procedimento para a perda de mandato dos 13 vereadores oposicionistas.
Esse fio de acontecimentos coloca a Câmara na situação que hoje se encontra: inoperante e com a imagem manchada. Algumas perguntas ainda parecem sem respostas. Quais sejam:
Câmara de Vereadores: Eleição anulada, pedidos de destituição e cassação, e paralisia legislativa.
Câmara de Vereadores: Eleição anulada, pedidos de destituição e cassação, e paralisia legislativa. / Aldir Sales
 
1 – Os 13 vereadores oposicionistas compõe um bloco parlamentar? A resposta a essa pergunta pode parecer sem importância, mas conferem aos 13 vereadores, que hoje se colocam como oposição, prerrogativas e vantagens legais e regimentais específicas. Eles, os 13, formariam um bloco parlamentar, de fato? Como tal, foi comunicado à Mesa Diretora a sua formação?
2 – Houve obstrução ou falta dos vereadores? As ausências dos vereadores de oposição aconteceram como forma de protesto, onde alegava-se abuso de poder por parte do presidente Fábio Ribeiro, e como forma de pressão para que a eleição da Mesa fosse retomada. Esse movimento pode ser caracterizado como “obstrução”, o que é legítimo das minorias em uma Casa Legislativa. O próprio regimento da Câmara de Campos, na seção sobre perda de mandato, ressalva o movimento para computar as faltas: “se em obstrução declarada por líder partidário ou de bloco parlamentar”.
Portanto, estando o vereador em exercício do seu mandato, em atividades inerentes ao seu cargo, mas não comparecer as votações como forma de obstrução, pode ser considerado um movimento político legítimo. Mas, os 13 representam um bloco parlamentar?
3 – É cassação ou perda de mandato? Uma vez considerada como faltas as ausências dos vereadores, e indeferidas as justificativas, é prerrogativa da Mesa Diretora decretar a perda de mandato, podendo ser de ofício, sem a necessidade de passar pelo plenário ou mesmo tendo o pedido de algum vereador.
Diz a Constituição Federal, no artigo 55:
“Perderá o mandato o Deputado ou Senador (parlamentar municipal pode se equipara aqui): que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada”.
Diz a Lei Orgânica de Campos, no artigo 14, inciso III:
“Perderá o mandato o Vereador: que deixar de comparecer, em cada ano parlamentar, à terça parte das sessões ordinárias da Casa, ou a 05 (cinco) sessões em cada mês, mesmo não subsequentes, salvo por motivo de força maior, licença ou missão por esta autorizada”.
Diz o Regimento da Câmara, no artigo 14:
“Compete à Mesa da Câmara, privativamente, em colegiado: declarar a perda do mandato do Vereador, de ofício ou por provocação de qualquer Vereador, do suplente de Vereador ou de partido político representado na Câmara, nas hipóteses previstas nos incisos III a VI do artigo 14 (acima) da Lei Orgânica do Município, assegurada ampla defesa".
Portanto, uma vez cumpridos os ritos necessários, é facultado à Mesa Diretora determinar a perda de mandato dos vereadores faltantes com justificativas indeferidas. É a lei, não a vontade do presidente. É, em última análise, a prevalência da lei e do regimento. Porém, foi assegurada a ampla defesa? Por qual meio?
Além de responder esses questionamentos, é preciso diferenciar o que se entende por perda de mandato e cassação. Este último ato, cassar um mandato de vereador, ou 13, cabe ao plenário da Casa, não à Mesa. Declarar perda de mandato por faltas nas sessões, sim, é ato próprio da Mesa.
4 – A quantas anda o processo de destituição do presidente da Casa? Foi lida em plenário uma “representação subscrita pela maioria absoluta da Câmara”, pelo vereador Anderson de Matos, um dos signatários, um pedido de destituição da Mesa Diretora da Câmara. Cumprido, ali, estritamente o regimento. Depois foi realizado o sorteio de “três vereadores, entre os desimpedidos, para constituírem a Comissão Processante”.
Novamente o regimento estava sendo cumprido, na íntegra. Mas, o que acontece depois disso? A Comissão Processante teria 48 horas para se reunir. O fez? Depois, três dias para notificar os acusados, o que abre um prazo de 10 dias apresentação da defesa. Tendo “posse ou não da defesa prévia, procederá (a Comissão) às diligências que entender necessárias, emitindo, ao final, seu parecer”. O parecer foi emitido?
O regimento não pode ser cumprido pela metade. Uma vez iniciados os ritos, eles devem ser finalizados. Assim como essa novela, os atos dos vereadores quando amparados por dispositivos legais devem ter desfecho. Assim como a cassação dos 13, a destituição deve ser decidida em plenário, após o parecer da Comissão.
Arquivo Público
Casa de Leis deve obedecer a elas
– Demonstrando inabilidade para o diálogo, os 25 vereadores precisam, ao menos, respeitar os ordenamentos — internos e externos. Cabe a um Parlamento elaborar novas determinações legais ou alterar as leis vigentes. E para isso configura-se em um colegiado, que possui outros órgãos internos com capacidade decisória. São sempre decisões coletivas, e devem ser sempre pensadas na coletividade.

Não aceitar a derrota no voto e usar todas as brechas possíveis para tentar reverter o resultado é uma atitude que demonstra uso excessivo do poder conferido. Mas obedece aos ditames regimentais e utiliza interpretações possíveis de leis estabelecidas. Cassar 13 vereadores não cabe à Mesa, cabe ao plenário. Correr com votações depois dos possíveis suplentes tomarem posse, não é moral, embora, cumprido os ritos, legal. Mas cabe judicialização, neste caso.  
Faltar às sessões é um ato de renúncia do parlamentar. Demonstra descumprimento de suas funções mais básicas e, de acordo com o Regimento, construído coletivamente, enseja perda de mandato. Porém não aconteceu isoladamente, fazia parte de um movimento de obstrução legítimo aos parlamentares. Não seriam faltas, e sim jogo duro parlamentar, mas dentro da democracia. Mas deixar inoperante um poder, fundamental em uma cidade que possui mais 137 mil pessoas em extrema pobreza, não é moral, embora possa ser considerado um movimento legítimo.
Quando o diálogo — em uma casa que precisa dele como instrumento — se mostra impossível, a lei deve imperar. E ela deve impor o desfecho desse enredo trágico.
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Os bustos envergonhados no corredor da Câmara de Vereadores
17/04/2022 | 10h43
Reprodução.
13 de maio de 2015. O corredor cultural da Câmara era inaugurado pelo então presidente reeleito da Casa, Edson Batista (com muitos serviços prestados na cultura). O busto de José do Patrocínio — campista símbolo da luta abolicionista — constituiu o espaço, que depois receberia Benta Pereira, Nilo Peçanha, Capitão Kirk, pai e filho Lamego, Feydit e uma representação dos Sete Capitães.
Hoje, meados de abril de 2022, os vultos campistas, que estão posicionados de forma a olhar para o Parlamento, se envergonham do momento que a Casa atravessa.
Ainda mais difícil do que saber qual personagem homenageado no corredor cultural da Câmara é mais relevante na história de Campos, é conseguir definir qual dos lados — situação ou oposição — tem mais responsabilidade pela guerra que se tornou a Casa de Leis. Talvez seja mais justo dizer que estão errados os dois — ou os 25 vereadores.
Aliás, quando grupos de poder se digladiam por cargos que podem ser decididos nos próximos oito meses, e paralisam por completo os trabalhos do legislativo por isso, dificilmente seria obra de um grupo só. Além do poder local, interesses regionais se mostram determinantes na luta mesquinha do poder pelo poder, sem interesse público algum.
Ainda mais grave, políticos que não representam cargos públicos municipais, não foram eleitos pelo poder representativo pelos campistas, ditam as regras e influenciam no “esticar da corda” na Câmara. Os patriarcas dos grupos Bacellar e Garotinho frequentemente manifestam publicamente suas opiniões e por vezes se fazem presente nas sessões. Além do ex-secretário de estado, Rodrigo Bacellar e Caio Vianna, secretário de Tecnologia, Ciência e Inovação de Niterói.
Benta Pereira estaria envergonhada da Câmara que ela teve que criar com muita luta, de forma revolucionária contra os desmandos do Império. Capitão Kirk, campista e primeiro aviador militar do Exército Brasileiro, igualmente ruborescido, assustado com a falta de honra de alguns.
Os bustos envergonhados têm em comum a coletividade de suas lutas. Ou, pelo menos, a institucionalidade de suas batalhas. Aqueles personagens que hoje olham para a Câmara em estátuas de bronze, lutavam por algo maior que eles, algo que representasse um símbolo, uma instituição, um ideal. Tomemos como exemplo José do Patrocínio, o Tigre da Abolição, filho de uma escrava alforriada e de um padre, dedicou sua vida para salvar as pessoas que no Brasil ainda viviam sob a perversidade da escravidão.
Qual a solução para a atual guerra na Câmara? Qualquer caminho que coloque o interesse público como norte. E que honre os bustos que olham para Câmara envergonhados.
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Bolsonaro veio fazer campanha em Campos com adesão de Clarissa e Garotinho
05/02/2022 | 05h23
Presidente da República é recebido em Campos - Wladimir, Tassiana e Frederico usam máscaras. Clarissa e Bolsonaro, não.
Presidente da República é recebido em Campos - Wladimir, Tassiana e Frederico usam máscaras. Clarissa e Bolsonaro, não. / Letycia Rocha
A visita do presidente Jair Bolsonaro à região, na última segunda (31), foi oficial. Tratou de investimentos, principalmente relacionados ao Porto do Açu, em sua maioria oriundo de dinheiro privado. Mas também fez campanha.
Em São João da Barra — acompanhado pelo clã Garotinho, Anthony, Rosinha, e os filhos do casal, Clarissa, deputada federal (Pros), e Wladimir (PSD), prefeito de Campos — Bolsonaro tratou de atacar o PT e a “esquerdalha”, palavra utilizada pelo presidente.
"Estamos numa guerra. Se aquele bando, aquela quadrilha, voltar, não vai ser apenas a Petrobras que vai ser arrasada. Vão roubar a nossa liberdade" — disse o presidente. Bolsonaro atua no conflito, único “lugar político” que sabe. Ao tratar a disputa como uma “guerra” trata a oposição como seus inimigos; não como adversários. E, contra inimigos, a disputa passa a ser em terreno distinto do democrático.
E volta a falar em “roubo de liberdade”. A liberdade no país foi frontalmente ameaçada por Bolsonaro como “nunca antes na história deste país”. No último 7 de setembro, apoiado por manifestantes, o presidente ameaçou a democracia brasileira de golpe. Não conseguiu, mas não por falta de vontade. A liberdade individual esbarra na lei, na saúde pública, e na legislação eleitoral. Apesar da claque bolsonarista não entender, a liberdade não é uma licença para cometer crimes.
""Estamos numa guerra. Se aquele bando, aquela quadrilha, voltar, não vai ser apenas a Petrobras que vai ser arrasada. Vão roubar a nossa liberdade" — disse o presidente. Bolsonaro atua no conflito, único “lugar político” que sabe." ()
Continuando, em falas que podem ser claramente tipificadas como campanha eleitoral antecipada e uso irregular de recursos públicos para financiar campanha, Bolsonaro disse, em Itaboraí, referindo-se a Lula: “o cara que quase quebrou o país de vez, que destinou um prejuízo de quase um trilhão de reais da Petrobras, quer voltar à cena do crime”.

Além de campanha desavergonhada, cita fatos que não guardam relação com a realidade. Apesar de o governo Dilma ter levado a uma recessão histórica, o governo Lula conferiu ao país o selo de bom pagador das agências internacionais de risco, pela primeira vez na história. Condição que perdeu nunca mais recuperou. Portanto, não esteve “quase quebrando o país”. Os prejuízos da Petrobras foram inúmeros, inclusive no governo atual, mas possuem causas bem mais complexas que um número não explicado de 1 trilhão.
Em Campos, o ministro da Cidadania, João Roma agradeceu ao presidente Bolsonaro pelo “maior programa social da história do país”. Fazia referência ao ‘Bolsa Família’, criado por Lula, transformado hoje em ‘Auxílio Brasil’. Fazendo justiça, vale lembrar que a origem se dá no governo Fernando Henrique, com Ruth Cardoso, então primeira dama, que trabalhou na unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país.
Além de Roma, a comitiva na região foi formada pelos ministros Ciro Nogueira (Casa Civil), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) e Bento Albuquerque (Minas e Energia).

A esquerda comunista imaginária
Em São João da Barra, durante a fala presidencial, o som falhou, e foi rebatido por Bolsonaro: “essa sonoplastia é de esquerda”.
Aos aplausos — e gritinhos — da plateia, sempre que se referia à oposição, Bolsonaro usou o termo “esquerdalha” para se referir ao campo progressista. Depois, fazendo uma comparação com o “verde e amarelo” do seu governo, relacionou os “vermelhos” ao “terrorismo, violência, corrupção e inoperância”.
Bolsonaro convenceu os seus apoiadores mais radicalizados que existe uma “ameaça comunista” no Brasil. Além de ser um completo despautério — não há grupos comunistas relevantes no país, tampouco que se identificam com a esquerda radical —, é mais uma forma de tratar os opositores como criminosos e inimigos. E de levar a campanha para a “guerra”.
O PT, apesar de possuir alas radicais, nunca atuou em seus governos como partido de extrema-esquerda. Pelo contrário. Colhendo os frutos podres dessa escolha, governou com o centro, com os liberais e o grande capital. De extremo, só temos o Bolsonaro na disputa eleitoral.

Os Garotinhos
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Anthony Garotinho aproveitou a vinda do presidente como mais uma tentativa de voltar à cena política. Enfrentando diversos problemas na Justiça, que conferem incerteza sobre a possibilidade de candidatura futura, Garotinho vem conversando com o “União Brasil”, partido formado da fusão PSL-DEM, assim como Clarissa.

Demonstrando muita animação em ter trazido o presidente a Campos, Clarissa parece ser a mais alinhada ao bolsonarismo do clã Garotinho. Não raro aparece em fotos sorridentes com a ministra Damares Alves e com o deputado Hélio Lopes. Ambos bolsoaristas radicais muito ligados às pautas de costumes. Clarissa também vem votando com o Governo Federal no Congresso, inclusive em pautas polêmicas, como a PEC dos Precatórios.
Acompanhado de Clarissa, o presidente Bolsonaro foi recebido no aeroporto Bartolomeu Lisandro na última segunda, pelo prefeito Wladimir (Foto: Supcom)
Acompanhado de Clarissa, o presidente Bolsonaro foi recebido no aeroporto Bartolomeu Lisandro na última segunda, pelo prefeito Wladimir (Foto: Supcom)
No caso de Clarissa, se considerarmos todas as pesquisas recentes, o alinhamento ao bolsoarismo pode diminuir ainda mais sua capilaridade eleitoral, em queda há algum tempo.
Wladimir parece ser o que mais rejeita a aliança. Contrariando o presidente, o prefeito de Campos atua na pandemia de maneira responsável, ouvindo especialistas e a ciência. Com maturidade, costuma colocar os interesses de Campos acima de questões ideológicas. Conversa com todos, inclusive adversários históricos do clã de seu pai. Wladimir se mostra um prefeito disposto a superar entraves ideológicos para realizar um governo marcante na cidade, e cacifá-lo (ou algum outro nome do grupo) à reeleição (ou outros voos políticos). Apesar das dificuldades, Campos é uma cidade de relevância nacional, e um bom governo aqui credencia.
Se continuar nessa linha, dificilmente Wladimir estará apoiando deliberadamente Bolsonaro em 2022. A depender dos arranjos partidários e de seu grupo, poderá ser obrigado a compor, mas não dá sinais de que radicalizará, utilizando termos como “esquerdalha” e afins.
Em ano de eleição, arroubos retóricos são comuns, e qualquer evento passa a ser ato político. Faz parte da democracia. Mas a lei existe para ser cumprida e garantir o funcionamento das instituições democráticas. Descumprir lei eleitoral e fazer discurso de ódio não pode ser tolerado. Quem passivamente acompanha, e ainda aplaude, se iguala.

 
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As várias questões que envolvem a "lei das sacolas" em Campos
23/12/2021 | 03h26
Desde a última terça-feira (21), os campistas não precisam mais pagar pelas sacolas em suas compras. Com a publicação da lei municipal 9.120, os estabelecimentos comerciais de Campos “ficam expressamente proibidos” de cobrarem por utilização de sacolas “para a embalagem e transporte de produtos adquiridos no varejo”. A cobrança era permitida por outra lei (8473/19), essa estadual, de autoria do deputado Carlos Minc, que já trazia a justificativa em seu artigo primeiro: “proteção do meio ambiente fluminense”.
Diminuir a quantidade de plástico em circulação é consenso; pelo menos entre os minimamente responsáveis com as questões ambientais. Porém, repassar ao consumidor o custo das sacolas plásticas é um caminho viável?
Responder afirmativamente essa questão pode ser uma visão reducionista do problema. O que parece colocar em lados opostos os supermercados, que defendem seus interesses econômicos, e os que defendem os direitos da população e a preservação ambiental, deve ser encarado com responsabilidade.
Nessa equação, não restam dúvidas: o lado mais frágil é o consumidor. As famílias vêm pagando um preço alto pela inflação, pela queda do ritmo da economia e pelo desemprego. Penalizar os consumidores com mais uma cobrança, tendo que arcar com embalagens para transportar suas compras, afeta diretamente o orçamento de muita gente. Para atuar nessa trincheira, na defesa dos mais vulneráveis, o Procon é um órgão fundamental.
Como será a aplicação da lei municipal?
Em Campos, a competente advogada e secretária executiva do Procon, Priscilla Nunes, falou sobre o assunto, e já alerta: “O decreto determinando qual órgão fiscalizador, para fiscalizar o cumprimento da lei, foi publicado hoje e a fiscalização já está nas ruas, com denúncias dos estabelecimentos que não estão cumprindo a lei”. Sobre um possível prazo de adaptação dos comércios, ela explica que a “lei já está em vigor e o cumprimento é imediato”.
— O cidadão pode se proteger fazendo a denúncia diretamente no Procon, que é o órgão responsável para fiscalizar o cumprimento da lei. Ela (a lei) é pública e notória, já está em todos os canais de comunicação, e de conhecimento de toda polpação. Vamos fazer cumprir nosso papel de fiscalização. — disse Priscilla, perguntada se o Procon faria ações de conscientização .
Sobre a questão ambiental, com os possíveis impactos negativos que a volta da distribuição gratuita das sacolas pode trazer, a secretária informou que o Procon “está muito preocupado com a questão ambiental”, mas que não teria “equipe e competência técnica para avaliar”. Para suprir essa necessidade, já está buscando parcerias para “atuar nessa avaliação técnica das sacolas plásticas”.
Direitos e deveres de consumidores e empresários
Segundo pesquisa da Associação Paulista de Supermercados (Apas), a cobrança das sacolas descartáveis reduziu em 84,4% a circulação por ano, significando que 27 mil toneladas de plástico deixaram de ser descartados. Por outro lado, a distribuição gratuita das sacolas auxilia o acondicionamento do lixo doméstico, hábito comum entre os brasileiros, principalmente na população mais vulnerável. Passa a ser uma questão de saúde pública, o descarte indevido de lixo nas ruas. Além disso, cobrança é diferente de educação ambiental.
Talvez a solução para equacionar as teses válidas de defesa do consumidor e de proteção do meio ambiente, esteja na compreensão de todos envolvidos que é necessário cuidado e responsabilidade nos resíduos — entre eles os plásticos pós-consumo — e sobre a necessidade de reciclagem. Fiscalização e ações de educação ambiental devem andar juntas.
“Tivemos diversas fases. Primeiro tivemos a vitória da troca de sacolas plásticas por biodegradáveis. Logo depois, a cobrança das sacolas que acabou onerando os consumidores. Acredito que essa lei municipal veio para proteger as pessoas vulneráveis, que são os consumidores. Agora, no meu entender, cabe a cada um se conscientizar para ter o consumo responsável dessas sacolas”, resumiu Priscilla.
Sempre que a sociedade precisa de uma lei impositiva e onerosa para educar sobre a proteção do elemento principal para a existência humana, é dado um recibo de irresponsabilidade, de todos. Para que Campos consiga manter essa proteção aos consumidores, a preocupação ambiental deve ter sido aprendida.
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Prefeitura fecha parceria para recuperação do patrimônio histórico em Campos - Arquivo será o primeiro
04/08/2021 | 09h10
O patrimônio histórico de Campos recebeu na noite desta quarta-feira (4) uma excelente notícia. Em postagem nas suas redes sociais, o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) anunciou a assinatura de Termo de Cooperação com a Sociedade Artística Brasileira (Sabra) para recuperação do patrimônio histórico do município. A Sabra é uma associação civil com sede em Betim (MG), com atuação em todo território nacional. Nesta parceria, ficará responsável pela captação de recursos. O convênio, que será realizado através da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), terá, segundo a prefeitura, como primeira ação a recuperação do Solar do Colégio, onde está instalado o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, em Tocos, na Baixada Campista.
O Arquivo de Campos possui um acervo histórico de valor inestimável. Considerado "guardião da memória de Campos", o equipamento está entre os cinco melhores arquivos públicos do país e se transformou em referência para a região, uma vez que traz sob sua tutela documentos essenciais para a compreensão da formação de todo Norte Fluminense. Além de guarda, manutenção e restauro de documentação histórica, o Arquivo atua para oferecer acessibilidade à pesquisadores e população em geral, e ainda tem a função Constitucional de tratar os documentos produzidos na atualidade pelo município (veja mais: O Solar e o Arquivo - simbiose que há 20 anos salva a história de toda uma região
Reprodução
 Campos possui vasto potencial para o turismo cultural e, para superar a crise vivida no município, estamos buscando parcerias para viabilizar melhorias para nosso município. Nossa história, que é tão rica e está presente em nossos prédios históricos, merece ser valorizada. Vamos assinar um acordo de cooperação técnica com a Sabra para revitalização dos prédios históricos de Campos, buscando valorizar a memória e o patrimônio cultural. Estamos otimistas no êxito dessa parceria —, declarou Wladimir através de matéria da Supcom (veja aqui).
A notícia representa um alívio para quem se preocupa com a cultura e a preservação do patrimônio histórico em Campos, principalmente em tempos de perdas como as ocorridas com os incêndios do Museu Nacional, no Rio de Janeiro em 2018, e da Cinemateca em São Paulo, há poucos dias. Além do Arquivo, o Termo de Cooperação pretende autuar na recuperação do Mercado Municipal e o Museu Olavo Cardoso.
 
 
 
 
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Reunião do Comcultura aprova Carta Aberta, "Abraço", Comissões e pede Audiência Pública
02/07/2021 | 11h19
A reunião extraordinária do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), finalizada às 22:10h desta sexta (02) — que teve pico de 53 participantes, entre conselheiros e ouvintes — deliberou sobre a proposta do prefeito Wladimir Garotinho (PSD) de entregar a administração do Parque Alberto Sampaio à Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), passando a chamá-la de “Praça da Bíblia”. O espaço público abriga um anfiteatro que foi batizado, desde 2017, com o nome do diretor teatral, poeta e carnavalesco Antônio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi (confira aqui), morto em 2015, o que levou a muitas manifestações da classe artística e cultural do município (confira aqui), e motivou a reunião do Comcultura.
Após a abertura e falas iniciais — unânimes em defender a memória do diretor teatral —, franqueadas aos ouvintes, iniciou-se a discussão dos pontos para aprovação dos conselheiros (veja proposta do governo aqui). Entre os mais polêmicos, foi decidido, com 18 votos favoráveis, pela criação de duas comissões para acompanhamento das discussões, uma no Legislativo e outra no Executivo municipal (para a efetivação da cessão e da renomeação do espaço público, é necessário aprovação na Câmara de Vereadores). Além das comissões, foi aprovada a confecção de uma Carta Aberta e a realização de manifestações em rede social, pelo Conselho. Na Carta deverão conter um pedido para que o governo apresente o projeto de uso e que a gestão passe a ser feita pela FCJOL e pelo Comcultura. As comissões deverão ser formadas, com eleição de seus representantes, em nova reunião do Conselho, marcada para a próxima terça-feira (6).
Foram aprovadas pelos Conselheiros, também, a realização de “manifestações de carinho” pelo anfiteatro que leva o nome de Kapi. Entre elas um “abraço”, com artistas e agentes culturais contornando o local, além de uma exposição que relembre as peças teatrais e poemas do artista, exposta no anfiteatro. A conselheira Aline Portilho, titular da Câmara de Instituições de Ensino Superior, indagou sobre a existência de “plano de ação” e do termo de cessão: “Como fica essa relação com a FCJOL, caso o espaço seja realmente cedido e mude de nome? Existe termo de cessão? Está claramente esclarecido (o uso do espaço)? Haverá audiência pública?” questionou a conselheira.
A comissão que acompanhará o assunto no Legislativo deverá solicitar a realização de Audiência Pública para discutir o assunto com mais profundidade, e auxiliar na decisão dos vereadores. A conselheira Iara Souza, suplente na Câmara de Teatro, lembrou que podem existir diversos “conflitos de interesses” no uso do espaço — pela associação de evangélicos e dos artistas. O titular da mesma Câmara, Fabrício Simões, lembrou que a Constituição Federal veda o que ele chamou de “privatização do espaço público”.
Auxiliadora Freitas, presidente do Comcultura e da FCJOL (veja mais aqui sobre sua posição), e Katia Macabu diretora executiva das Artes e Culturas, presentes na reunião, defenderam a democratização do uso dos espaços públicos, mas também a necessidade de revitalização, e alegaram que não foram consultadas pelo governo. Ressaltaram a importância de preservar a memória de Kapi e de defender os espaços culturais em Campos.
A ouvinte Nilza Gabby, professora da UENF, defendeu uma praça para todos: “A praça deve ser dos espíritas, dos agnósticos, dos holísticos, dos universalistas, dos mormons, dos ateus...A praça é de todos. Não dos evangélicos. Quem administra e conserva é a gestão pública. Quero estar apoiando o Governo, mas isso não”. Simonne Teixeira, também professora da UENF, reafirma a necessidade de audiência pública: “penso que qualquer decisão sobre a praça deve acolher as reivindicações aqui apresentadas e, neste sentido, apoio a necessidade de uma audiência pública”.
 
 
 
 
 
 
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

edmundosiqueira@hotmail.com