* Arthur Soffiati
11/03/2026 08:15 - Atualizado em 11/03/2026 08:15
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O ótimo filme de ficção “Jurassik park” (1993), misturando drama com pitadas cômicas, foi seguido de mais cinco filmes meio desastrados. Filmes que pareciam arrancar roteiros estapafúrdios em busca do sucesso do primeiro. Agora, Steve Spielberg, presente como diretor dos dois primeiros e produtor em todos os seis filmes, lança, como produtor executivo, “Os dinossauros”, um documentário com quatro episódios sobre a era Mesozoica, em que os dinossauros se destacaram. Terão mesmo dominando completamente? Os quatro episódios constituem a primeira temporada, mas, tendo sido abordados o Triássico, o Jurássico e o Cretáceo, os três períodos do Mesozoico, haverá mais o que contar?
São 165 milhões de anos tratados com a mais aprimorada tecnologia. A pesquisa foi intensiva e o material mereceu a melhor computação gráfica. Examinada cientificamente, a era coloca o tiranossauro rex em seu devido lugar. Ele só aparece no fim do Mesozoico e não trava mais a célebre luta com o estegossauro (que já estava extinto) ou com o tríceratops. Ele era astuto, como várias outras espécies, e atacava de surpresa, sem lutas titânicas. O mais interessante é que, no contexto geral de dinossauros, o tiranossauro é mais uma espécie.
O primeiro episódio começa após a crise do Permo-Triássico, a mais destruidora da história da Terra. Cerca de 90% das espécies foram extintas. Os répteis antigos desapareceram, mas algumas espécies sobreviveram. Elas darão origem aos dinossauros. Caberia um tratamento dessa crise, ainda que mínimo.
No todo, o que chama a atenção não são as espécies, seu sucesso em se acasalar ou não, sua alimentação omnívora, herbívora ou carnívora. O que mais se destaca para o observador atento são os cenários. Aquilo que vemos como pano de fundo dos animais, como acontece ainda hoje, inclusive para humanos. Na história da Terra, o cenário é, na verdade, o principal personagem. Ele não está parado. Transforma-se de forma avassaladora. Aquecimento e resfriamento do planeta, chuvas intensas que duram um milhão de anos, gases tóxicos desprendidos do subsolo, avanço e recuo dos mares, fratura e afastamento dos continentes. Um animal tem medo e sente dor. Mas o cenário, tornado ator, é insensível. Ele destrói e cria novos ambientes, ensejando a extinção e a constituição de espécies.
Outro aspecto a ser observado é a concepção de história. Comumente, fala-se que um evento mudou completamente o rumo da história como se já conhecêssemos seu percurso. Em relação ao nosso sistema solar, à Terra e a todas as formas de vida, podemos afirmar que existe um princípio e um fim. Não sabemos o que acontece no meio. O que acontecer integrará a história, e não a mudará. Parece também que o enfoque da série está muito centrado no hemisfério norte, como a valorizar o papel dos Estados Unidos, que só se constituirá milhões de anos depois. A maior espécie de dino foi o argentinossauro, encontrado no atual território da Argentina. Ele não merece a mínima referência no documentário.
Por fim, o asteroide que colide com a Terra e sela o fim dos grandes dinossauros. A vida continuou, apesar do baque. O documentário mostra que as aves são os dinossauros do nosso tempo, mas, em momento algum, esclarece a diferença entre dinossauros e outros répteis. O brontossauro e o tiranossauro rex foram dinossauros, mas o pterossauro e o mosassauro não. Continuamos aguardando essa diferenciação e espera-se que um próximo documentário enfoque o Paleozoico, a era em que os organismos pluricelulares se desenvolveram e que teve o mais trágico final da história da Terra.