Do grito contra os usineiros ao acordo com o açúcar
Por Edmundo Siqueira 11/04/2026 13:32 - Atualizado em 11/04/2026 13:32
O ano era 1988. O Brasil saía, lenta e cuidadosamente, da longa noite autoritária, com nova Constituição e eleições diretas. Em Campos dos Goytacazes, também se abria um novo ciclo. Não apenas político, mas social, simbólico e urbano.

Naquele momento, surgia a chamada Frente Campos. Havia ali ambição eleitoral e um sentimento difuso, mas forte, de fadiga com os governos associados às velhas elites campistas, especialmente as ligadas ao setor sucroalcooleiro. Ao redor desse movimento se reuniam nomes da cultura, sobretudo do teatro e da poesia, parte da intelectualidade, da imprensa e partidos de esquerda como PDT, PCB, PV e, depois, o PT. A insatisfação vinha das camadas populares, mas também da classe média de comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais.

Foi desse caldo que emergiu Anthony Garotinho. Ligado ao PDT de Leonel Brizola, já eleito deputado estadual em 1986, conhecido do rádio local, ele soube ocupar um espaço que era político, mas também narrativo. A Frente Campos virou Muda Campos, e a candidatura de Garotinho à prefeitura, com Adilson Sarmet de vice, passou a encarnar a promessa de ruptura com velhas oligarquias.

A eleição de 1988 construiu um antagonismo claro. De um lado, Garotinho, apresentado como nome do novo, da classe média emergente, dos jovens, dos intelectuais, dos “homens e mulheres de cultura”, mas também capaz de falar em nome do povo e de costurar alianças com setores de mando local. Do outro, o campo político ligado a Zezé Barbosa, que apoiava Jorge Pereira Pinto. A disputa criou um inimigo nítido: o “poder de usina”, associado ao atraso, ao mando tradicional e às antigas oligarquias rurais campistas.

Garotinho venceu. E venceu, em boa medida, porque fez da cultura uma plataforma política. Um dos traumas urbanos e afetivos de Campos — a demolição do cine-teatro Trianon — foi convertido em símbolo de uma cidade maltratada por seus velhos dirigentes. A pauta do Trianon já estava nas ruas e na memória campista, mas Garotinho soube capitalizá-la. Sua origem no teatro amador e no rádio ajudou. A cultura era apresentada não como ornamento, mas como forma de aproximação popular, democratização do acesso e legitimação simbólica de um novo poder.

A cidade que pretendia romper com a velha ordem açucareira entraria, pouco depois, em outro ciclo de abundância: o do petróleo. Já no primeiro governo Garotinho, em 1991, foi instituído o Plano Diretor, no contexto da redemocratização e do fortalecimento dos municípios após a Constituição de 1988. Havia, ao menos em tese, a possibilidade de uma nova urbanidade. Mas Campos sofreu um desvio de rota. Quando ainda via definhar seu longo ciclo econômico ligado ao açúcar, foi seduzida por outro tipo de riqueza: o dinheiro fácil dos royalties.

No início do século XXI, a promessa era ainda maior. Não mais apenas riqueza agrícola ou comercial, mas renda extraordinária, capaz de financiar transformações estruturais e institucionais. Campos tornou-se, por anos, uma das maiores recebedoras de royalties do país. Em 2005, sozinha, recebeu R$ 670,1 milhões, quase um quarto de todas as rendas petrolíferas municipais distribuídas no Brasil naquele ano.

Mas a abundância não gerou, na mesma medida, projeto de cidade. A renda petrolífera foi muitas vezes capturada politicamente, sem a necessária conversão em desenvolvimento regional consistente, justiça intergeracional e diversificação econômica. Falou em transformação duradoura. Campos funcionou, nesse período, como uma espécie de anti-capital. Não tinha o peso institucional ou populacional para ser capital do Estado, mas cultivava permanentemente essa ambição simbólica. Era a maior cidade do interior fluminense, vitrine regional, trampolim para projetos estaduais. O próprio Garotinho foi governador, elegeu Rosinha e tentou a Presidência. Campos se tornou palco e plataforma. Quase nunca projeto coletivo de longo prazo.

Nos anos 1990, principalmente pela extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), o setor sucroalcooleiro foi lançado a um ambiente mais exposto à lógica de mercado, o choque foi profundo. A decadência das usinas campistas não teve causa única: veio da baixa produtividade agrícola, do parque industrial envelhecido, do endividamento, da dificuldade de modernização tecnológica, da perda de competitividade para o Centro-Sul, da competição por matéria-prima e da desorganização após a desregulamentação.

Enquanto outras regiões ganharam escala, tecnologia e logística, Campos perdeu mercado e fechou unidades. E a coincidência histórica foi cruel: a decadência do açúcar ocorreu ao mesmo tempo em que os royalties do petróleo ofereciam um colchão de abundância que adiou a urgência da reinvenção econômica.

O usineiro de volta

É aqui que a chegada de Frederico Paes à prefeitura ganha força simbólica. Frederico não é apenas o vice que assumiu no lugar de Wladimir Garotinho, que renunciou ao cargo de prefeito para com correr ao Congresso Nacional. É engenheiro agrônomo, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) e portanto nome diretamente ligado ao setor agroindustrial canavieiro da região. Sua posse devolve ao centro do poder municipal um representante explícito do universo do açúcar.

A ironia é quase literária. O garotismo nasceu, em 1988, como linguagem de ruptura contra a cidade do mando tradicional, das oligarquias locais e do “poder de usina”. Décadas depois, já não como rebeldia, mas como sistema, termina entregando a prefeitura a um homem do açúcar.

Não se trata de dizer que Campos voltou intacta ao passado. A história nunca é tão simples. Mas a imagem é eloquente: a ruptura envelheceu, acomodou-se e fez acordo com símbolos que antes ajudavam a mobilizar o antagonismo popular.

Talvez este seja o momento de a cidade olhar para isso sem ilusões, sobretudo diante do julgamento que o STF pautou para 6 de maio sobre as regras de distribuição dos royalties do petróleo. Se o resultado mexer novamente com a fortuna campista, Campos poderá ser chamada, mais uma vez, a repensar sua história, seu presente e, principalmente, seu futuro.

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