Arthur Soffiati - Ocidentalização do mundo
* Arthur Soffiati 18/04/2026 08:13 - Atualizado em 18/04/2026 08:13
A cultura ocidental formou-se na Europa Ocidental sobre as ruínas da cultura greco-romana. Os que veem a história como um fluxo continuo enxergam continuidade onde há ruptura. O mundo ocidental não é prolongamento do mundo greco-romano, embora tenha herdado dele muitos traços. A língua latina, que se desdobrou em tantas outras e influenciou as línguas anglo-saxônicas, é um deles. A ligação maior foi feita pelo Cristianismo, que cresceu no fim do Império Romano e se tornou a religião predominante no mundo ocidental em sua forma católica apostólica romana, mas nunca obteve hegemonia completa.
No mundo ocidental, constituiu-se uma economia diferente das demais existentes em todo o mundo. Ela transformou os bens de uso em bens de troca. Originou-se, assim, a economia de mercado. Essa economia impulsionou as Cruzadas e a expansão marítima da Europa Ocidental. Tendendo a transformar tudo em mercadoria, a economia de mercado não se molda a qualquer parte do mundo, mas molda o mundo a sua imagem e semelhança. Quem encontra belas palavras de navegantes ao retornarem às suas pátrias, pode não encontrar as verdadeiras razões da expansão marítima. A carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal relatando a “descoberta” do Brasil fala das possíveis riquezas do país e sublinha que o maior bem que Portugal podia levar aos nativos era o Cristianismo. O olhar pragmático dos europeus enxergava as riquezas, assim como as palavras superficiais dos quatro astronautas que voltaram da face oculta da Lua na Artemis II não retratam o interesse dos Estados Unidos pelas riquezas existentes no nosso único satélite.
Em todo o mundo, a economia de mercado suplantou as outras economias mundiais e moldou as diversas paisagens até onde possível. No Brasil, o alvo primeiro foi a Mata Atlântica, tanto para obtenção do pau-brasil quanto para o plantio de cana e a criação de gado. Em busca de um conceito para esse processo de expansão da cultura ocidental e das mudanças efetuadas pela Europa em outras terras, os historiadores e outros cientistas sociais vêm usado o termo “globalização”. O processo poderia ter sido conduzido pelo Japão, pela China, pela Índia, pelos mongóis, pelos astecas, pelos incas, mas foi conduzido pela Europa Ocidental. Daí, nasceu a crença na superioridade do Ocidente. Tanto pelos os ocidentais quanto pelos povos dominados.
Para o bem e/ou para o mal, as paisagens naturais e culturais foram moldadas em algum grau pelo ocidente. Permanecem traços do passado pré-europeu, mas são fortes as marcas europeias na Oceania, na Ásia, na África e na América. O historiador Alfred Crosby denomina neo-Europas aqueles países fora da Europa em que a cultura europeia foi mais profunda pelo processo de ocidentalização, como Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai, Estados Unidos e Canadá. Mas não foi possível aos europeus zerar as paisagens naturais e culturais para instalar novas Europas.
Assim, o mundo todo hoje é povoado por Europas mestiças. Algumas delas suplantaram a cultura dominante, como Estados Unidos, Rússia e China, e passaram a se comportar como Europas fora da Europa no desenvolvimento da economia de mercado e da dominação.
Quando nos debruçamos sobre as paisagens naturais, percebemos que o espírito ocidental, aí também, buscou plasmá-las ao seu estilo. As matas foram derrubadas. A primeira riqueza obtida foram a lenha e a madeira. Depois, as terras desnudas passaram a ser cultivadas por plantas existentes em cada continente ou transplantadas de outros. A cana não é brasileira, assim como a batata inglesa é americana tanto quanto o milho e o tomate.
Também os rios foram moldados à imagem do ocidente, com grandes pontes, navegação de grande porte, urbanização de margens, erosão, assoreamento e poluição. Além disso, muitos rios foram canalizados, barrados, transpostos. Lagoas foram drenadas. Enfim, a natureza foi ocidentalizada.
O grande território que denomino de ecorregião de São Tomé foi formado pelo ocidente, mas conservou traços nativos, embora ocidentalizados. A ecorregião é formada pelo Norte-Noroeste Fluminense, Sul Capixaba e parte da Zona da Mata Mineira. A primeira tentativa de colonização europeia, no século XVI, está voltada para a Europa, com a Vila da Rainha e o Porto da Limeira. No século XVII, a chegada dos sesmeiros conhecidos como Sete Capitães, dos Jesuítas e dos Beneditinos inicia a instalação de uma Europa mestiça. A abertura da Vala do Furado em 1688 visa ampliar as áreas rurais. A abertura de canais de navegação e de ferrovias, assim como a instalação de engenhos seguida de usinas, de drenagem, de colonização do Noroeste Fluminense devem ser vistos como processos de ocidentalização.
Para finalizar, os novos empreendimentos ligados à exploração de petróleo no mar integraram mais ainda a ecorregião no mundo ocidental, numa economia-mundo. Em breve, será a Lua.


*Professor, historiador, escritor, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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