*Felipe Fernandes
07/01/2026 07:45 - Atualizado em 07/01/2026 07:45
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Filme: Sonhos de trem - Existe uma sensação de tragédia inerente ao protagonista Robert Grainier, personagem central de uma biografia ficcional que acompanha a jornada de um homem comum em busca de algo que nem ele próprio parece compreender. Através dele, observamos também as transformações de um país em franca expansão, num processo de modernização que consome tudo à sua frente. Baseado no livro de Denis Johnson e roteirizado pela dupla Clint Bentley e Greg Kwedar (responsáveis pelo musical prisional Sing Sing, porém, aqui é Bentley quem assume a direção), o filme se constrói como uma jornada profundamente intimista e melancólica de um lenhador que vive imerso na natureza, em um trabalho pesado e perigoso, enquanto desenvolve uma visão muito particular do mundo ao seu redor.
Preso entre a distância imposta pelo trabalho e o desejo de estar mais presente junto à família que construiu, Grainier carrega uma tristeza que parece constitutiva de sua própria existência. Mesmo nos momentos de alegria ao lado da filha, há sempre um peso latente, sensação que reforça a importância dos instantes singelos e torna essas breves felicidades ainda mais genuínas. É um homem simples, endurecido pelo trabalho e pela vida difícil, evocando o anti-herói introspectivo dos westerns revisionistas, mais interessado na luta interna do que em conflitos externos.
O filme lança um olhar grandioso sobre a natureza. As imagens de árvores centenárias — ao mesmo tempo imponentes e frágeis diante da ganância humana, constroem uma contradição temática particularmente interessante. Nesse aspecto, o longa remete ao western: ainda que substitua desertos e fazendas por florestas e ferrovias, o cenário dialoga diretamente com a paisagem mito-histórica estadunidense típica do gênero.
A fotografia do brasileiro Adolpho Veloso (um dos favoritos a uma indicação ao Oscar) é primordial para a construção dessa atmosfera de beleza e melancolia. Seu trabalho retrata a grandiosidade da paisagem natural ao mesmo tempo em que privilegia a luz natural, buscando reproduzir com fidelidade a iluminação da época. O resultado é um aspecto quase documental, com planos contemplativos, muitos deles visualmente inspirados, explorando ângulos pouco usuais e construindo uma narrativa sensorial poderosa.
A câmera privilegia imagens amplas da natureza, florestas, céu e paisagens vastas, que frequentemente reduzem o personagem à escala do mundo, evidenciando a grandiosidade do ambiente e a fragilidade humana. A escolha por uma razão de aspecto mais vertical (3:2) reforça a imponência das árvores e a sensação de verticalidade constante.
Em determinado diálogo, uma personagem ressalta a importância de tudo o que existe na floresta: cada elemento tem seu valor, seja a árvore em pé ou a árvore morta. Dentro desse processo de modernização, de um progresso que diminui o homem e destrói a natureza em sua expansão, esse olhar atento para o micro em meio ao macro se destaca como um dos aspectos mais instigantes do filme.
Grainier é um homem em compasso de espera, envelhecendo enquanto a vida segue ao seu redor. Lidando com lembranças, luto, medos, solidão e sentimentos densos, ele se vê aprisionado em um tempo de mudanças. As imagens e a trilha sonora potencializam essa melancolia, compondo o retrato de um homem que tenta se conectar com algo que faça sentido ou que lhe ofereça uma nova perspectiva de existência.Fe