Folha Letras - Registros da Festa de Santo Amaro
11/02/2026 07:48 - Atualizado em 11/02/2026 07:48
Rodrigo Silveira

Sylvia Paes* 

O ano inicia e toda a Baixada Campista se envolve com os preparativos da Festa de Santo Amaro. O santo de devoção tem igreja, uma localidade e uma festa que não dura apenas o dia 15 de janeiro, mas inicia com uma cavalgada de devotos e churrasco oferecido pelos festeiros uns dez dias antes da festa oficial.

A festa é marcada por celebrações religiosas e atividades profanas: o novenário, festa de laço, cavalgada, churrasco, caminhada, levantamento do mastro, cavalhada, as celebrações religiosas (missas, batizados, casamento), além de shows, bingo, leilões.

Ainda pela madrugada começam a chegar os romeiros, que, saídos de vários pontos, caminham pela estrada principal até Santo Amaro, pagando promessas. Durante o percurso, recebem dos fiéis água, café e lanches, além do incentivo para concluírem o percurso.

A primeira solenidade é a missa do festeiro. A ela se seguem casamentos e batizados, pagamento de promessas, que se faz com esmolas, velas e ex-votos, conservados na igreja.


A Festa

A festa oficialmente se inicia com o levantamento do mastro, que ostenta o quadro de Santo Amaro pintado a óleo em uma extremidade, cercado de luzes, e permanece o ano inteiro defronte à igreja.

No dia anterior à festa, por volta das dezoito horas, os festeiros se reúnem na casa de um escolhido para a cerimônia do levantamento do mastro. Logo depois da missa, o festeiro recebe a todos com bolos, sucos, café e iguarias locais. Por volta das vinte horas, o padre chega e a banda de música, também responsável por puxar a cavalhada, inicia os dobrados e fogos ressoam na planície, chamando para a caminhada da cerimônia entre a casa do festeiro e a Igreja de Santo Amaro.

O mastro segue carregado pelo festeiro à frente, seguido pelos demais, sempre homens. Ele é feito em madeira de lei maciça, bastante pesado e pintado nas cores branca e azul. Em uma das extremidades, a “gaiola” mostra a imagem do santo iluminada e enfeitada.

Os passos são compassados e fervorosos. A conversa em voz baixa fala de milagres do santo. Há choro comovido de quem recebeu graças e orações do terço nas mãos e lábios de beatas. Algumas residências ostentam bandeiras, faixas e banners que marcam as bênçãos recebidas e agradecimentos.

Em uma das casas há um enfermo. A procissão para. O padre faz orações acompanhadas pelos fiéis. Outra casa lamenta seus mortos. Igualmente todos param, oram e seguem contritos.

Quando o mastro chega à frente da igreja, a praça já está lotada de barraquinhas, andantes recém-chegados e devotos. Ele então é bento e colocado em pedestal especial junto ao cruzeiro.

Caminhos de Fé

Quando o sol vai caindo no horizonte e o dia revelando uma brisa suave para a noite, são muitos os caminhantes e ciclistas que tomam a RJ-216 em direção à Igreja de Santo Amaro, localidade de mesmo nome. Se houve um momento no qual apenas seus devotos praticavam essa caminhada como pagamento de promessas, hoje se tornou um caminho turístico que vem recebendo apoio logístico de instituições como Sebrae e CDL.

Durante a caminhada, moradores da região oferecem frutas, água e até mesmo café da manhã aos piedosos. Somente no início do século vinte e um é que a prefeitura, através das secretarias de Turismo e Saúde, providenciou socorro imediato com circulação de ambulâncias, além de orientações aos caminhantes.

Igreja de Santo Amaro (Santo Amaro)

Construída pelos monges beneditinos, a Igreja de Santo Amaro está localizada no coração da Baixada Campista, no distrito de Santo Amaro de Campos, em frente à praça de mesmo nome. A praça é ampla e arborizada, assim como amplas são as ruas que a contornam. No entorno, antigos sobrados e um coreto complementam o ambiente.

A obra para erguer a igreja foi iniciada em 1735 e concluída em 1790, em terras de Sebastião Rabello. O templo de alvenaria tem nave central e coro.

A fachada colonial foi descaracterizada pelo acréscimo de duas torres acrescentadas em 1945 e pelas sucessivas reformas que sofreu. As ondulações da fachada e as aberturas da porta, janelas e óculo também sofreram alterações.

Hoje é o centro da festa em louvor a Santo Amaro, realizada no mês de janeiro, quando acontecem casamentos, batizados, procissão, pagamentos de promessas e a famosa cavalhada, encenação de batalhas medievais entre mouros e cristãos.

Santo Mauro também é conhecido e festejado como Santo Amaro. Ele nasceu na cidade de Roma, filho único de um senador, no ano de 512. Amaro se tornou o discípulo predileto de São Bento. Sobre Amaro, os registros mostram que era um homem virtuoso, modelo de obediência, humildade e caridade. O culto de Santo Amaro é muito vigoroso em todo o mundo, principalmente na Europa e na França.


A Cavalhada

A cavalhada é uma manifestação da nossa cultura popular imaterial, recebida e transmitida como herança ibérica.

A cavalhada ou “argolinha” recorda os torneios equestres medievais. Em Portugal, teve feição cívico-religiosa, envolvendo temas do período da Reconquista, e ficou sendo conhecido como “A Batalha de Carlos Magno e os 12 Pares da França”, um verdadeiro épico, cantado em trova como forma de incentivar a população cristã contra os exércitos islâmicos, que, apesar da derrota na batalha de Carlos Magno, não abandonaram as investidas.

Incorporada ao folclore, durante séculos, a história de Carlos Magno era atração nas vozes dos trovadores e, somente em idos do século XIII em Portugal, é que a rainha cristã Isabel resolveu instituí-la como uma festividade, aos modos de uma representação dramática, quase como um jogo de xadrez, a fim de incentivar a instituição cristã e o repúdio aos mouros.

Introduzidas no Brasil à época da colônia pelos cavaleiros e fidalgos que chegavam com os donatários, foram registradas desde o século XVII, a partir do Nordeste, e espalharam-se pelo resto do país, sob autorização da Coroa, pelos jesuítas com o objetivo de catequizar os gentios e escravos africanos, mostrando nisto o poder da fé cristã.

Há registros de que, no século XIX, a cavalhada foi apresentada na Praça do Santíssimo Salvador e no pátio da Fazenda do Colégio – Arquivo Municipal.


*Acadêmica e atual secretária da Academia Campista de Letras

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