*Felipe Fernandes
18/03/2026 07:51 - Atualizado em 18/03/2026 07:51
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Filme: A noiva! - Criada em 1935, A Noiva de Frankenstein surge como continuação cinematográfica do sucesso Frankenstein, de 1931. O filme utiliza um dos acontecimentos do clássico de Mary Shelley para seguir com a trágica história da criatura, apresentando uma personagem com pouquíssimo tempo de tela, mas que deixou sua marca pelo visual marcante e pelas diversas questões envolvendo sua criação.
Passado quase um século, a atriz, roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal resgata a personagem e busca subverter tudo o que conhecemos sobre ela, ao adicionar temas bastante atuais em uma releitura estilizada, que mistura diversas referências na tentativa de dar à personagem o destaque que ela nunca teve.
O filme abre com Mary Shelley em uma espécie de limbo e, a partir dele, ela passa a narrar a verdadeira história da Noiva, que, em tese, sempre foi a história que ela quis contar em sua obra literária. A trama se passa na Chicago dos anos 30, curiosamente o mesmo período em que os filmes da Universal foram lançados, mas principalmente um momento que reforça a mistura de estética gótica com noir que o filme explora ao longo da narrativa.
Repleto de homenagens (principalmente às mulheres), o filme parte de uma premissa muito parecida com a produção de 1935. No entanto, ao contrário daquele, em que acompanhamos a busca do monstro de Frankenstein por uma noiva, aqui vemos as consequências do nascimento da nova criatura, que, sem memórias anteriores à sua morte, aceita em um primeiro momento a condição que lhe é imposta. Aos poucos, porém, ela retoma sua personalidade por meio de suas atitudes e resgata sua verdadeira natureza.
O filme trabalha a rebeldia por meio de uma estética alternativa e de personagens que desafiam o papel que a sociedade tenta impor a eles. Para isso, mistura diferentes gêneros, horror, comédia e musical, culminando em um filme policial que parece um pastiche de Bonnie and Clyde. Alguns dos melhores momentos acontecem justamente quando o filme se permite ser mais fantasioso.
Frankenstein (que aqui ganha o nome de seu criador) é apresentado como um homem solitário, com um lado mais humano, melancólico e complexo. Em sua solidão, ele desenvolve um apreço pelo cinema, interagindo com os filmes e imaginando-se naquele mundo de espetáculo onde tudo parece ser belo e perfeito. Nesse sentido, é interessante como ele cria e narra para a Noiva um falso passado que eles nunca tiveram, construindo a narrativa de uma vida que sempre desejou, mas que, devido à sua aparência, nunca pôde viver.
A cena do musical pode parecer estranha em um primeiro momento, mas a bela coreografia (impossível não lembrar de Thriller) e a direção de Gyllenhaal fazem dela o ponto alto da narrativa. É justamente nesse momento que ocorre o ponto de ruptura. Até ali, Frankenstein era o protagonista do filme; a partir daí, a história se torna mais violenta e a Noiva assume o centro da narrativa.
A Noiva passa a ser uma mulher que não se lembra de seu passado, mas está disposta a escrever sua própria história. Nem mesmo a morte foi capaz de destruir sua personalidade, e ela segue em busca de sua identidade, de seus desejos e de sua liberdade.
A jornada do casal pelos Estados Unidos, deixando um rastro de violência em uma sociedade que não apenas não os respeita, mas também abusa da mulher, acaba criando uma espécie de fascínio entre outras mulheres (principalmente as marginalizadas) que iniciam uma espécie de revolução armada feminina. Trata-se de uma subtrama mal construída, que tenta estabelecer uma crítica social, mas acaba se tornando confusa e frágil em um longa já repleto de elementos. Com isso, desperdiça a oportunidade de explorar de forma mais profunda as reais consequências de uma personagem tão deslocada dentro do período histórico em que a trama se passa.
A Noiva! é, portanto, uma releitura moderna e ousada do mito criado por Mary Shelley em Frankenstein. Em vez de repetir a história tradicional do monstro e sua companheira, o filme transforma a narrativa em algo mais político, estilizado e centrado na autonomia feminina. Utiliza a clássica história de monstros para falar sobre identidade, liberdade e sobre quem tem o direito de decidir o próprio destino. O resultado é um filme estiloso, provocador e um tanto bagunçado, que por vezes se perde na mistura de tantos elementos, mas que tenta dar um novo significado ao mito de Frankenstein ao mudar o foco para a versão feminina do personagem.