Dora Paula Paes
31/01/2026 10:10 - Atualizado em 31/01/2026 10:10
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“Quando me perguntam como o Isaac, meu filho com autismo nível 2 de suporte e dislexia, conquistou uma vaga na Uenf, a primeira coisa que digo é: não existe receita de bolo. Cada autista é único e cada história tem seu próprio tempo”. A declaração é dasua mãe, Roberta Alves, professora, psicopedagoga e arteterapeuta. O jovem de 20 anos cursa Biologia em uma das maiores universidades do país, em Campos.
Mãe muito jovem, Roberta conta que começou uma busca desesperada por respostas há 20 anos. “Minha trajetória nunca foi marcada pela desistência, mas pela sede de conhecimento. Naquela época, o cenário clínico era escasso e a Lei Berenice Piana nem existia. Por isso, mergulhei nos estudos e nas pesquisas sobre autismo e inclusão. Essa busca me transformou: hoje sou professora, psicopedagoga e arteterapeuta, atuando diretamente com crianças e jovens no espectro. Eu não apenas acompanhei a inclusão; eu me tornei parte ativa dela”, revela.
No caminho, segundo ela, encontrou muitos “anjos” que nos ajudaram. Isaac foi o primeiro aluno com laudo na escola onde estudou por anos. “Ali, implementamos currículo adaptado, mediação e trocas constantes com professores. Ele teve mestres incríveis e uma mediadora no Ensino Médio que se tornou uma grande amiga da família. Sempre foquei nas potencialidades dele, nunca nos rótulos. A arte, o teatro, que esteve presente em minha vida desde cedo, e o desenho foi a ferramenta que permitiu que ele florescesse. Ele desenhou antes de falar; o desenho é o coração do meu filho batendo fora do peito”, completa.
Roberta com o filho e o marido
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A chegada à universidade pública teve uma peça-chave: o padrasto do Isaac, Enrico Arantes. Roberta diz que ele foi o mentor que o preparou durante um ano para o Enem, garantindo que os direitos de ledore transcritor fossem respeitados já na inscrição e salienta: “Hoje, meu esposo é o maior suporte dele na fase acadêmica. Curiosamente, meu esposo é biólogo formado pela Uenf e, atualmente, o Isaac cursa Licenciatura em Biologia na mesma instituição.”
Com a mediadora Ruthe Silva
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O ciclo se completou de forma honrosa em 2025, quando ela fui aprovada no processo seletivo da PROAC/Uenf para atuar como uma das professoras do curso “TEA com Ciência”. O projeto, voltado para licenciandos da Uenf, educadores e famílias, leva o conhecimento científico e a experiência prática para quem está na linha de frente da educação. “Ensinar aos futuros professores da universidade onde meu filho estuda prova que a inclusão real transforma não apenas uma vida, mas toda a comunidade”, concluiu.
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Às mães atípicas, como ela, Roberta deixa uma mensagem: “A luta continua... Nossos filhos podem e devem ocupar os espaços que quiserem. A decisão sobre sua permanência ou não (nas escolas) deve ser regida por suas próprias vontades e escolhas, e jamais ditada pelo preconceito ou pela exclusão.”
Um passo por vez - Dentro das metodologias, um primeiro caminho para mães atípicas é a realização da “Carta de Apresentação” da criança às escolas. A neuropsicopedagoga, Odila Mansur, destaca que é importante que a escola conheça toda a realidade da criança. “Existe um modelo simples e eficiente, que funciona bem e pode ser de grande auxílio”, diz ela que deixou o modelo à disposição de pais em sua rede social.