Arthur Soffiati - Campeonatos estaduais
* Arthur Soffiati 31/01/2026 13:53 - Atualizado em 31/01/2026 13:52


Minha vida de torcedor por um time nunca foi marcada pela convicção e pelo fanatismo. Tornei-me botafoguense por influência do meu avô e do meu pai, que torciam por este time, também sem muito ardor. Meu interesse maior pelo futebol durou cerca de uma década. Voltei do Paraná para o Rio de Janeiro em 1956. Em 1957, fomos morar em Padre Miguel. Vivi nesse bairro suburbano até 1966, com um ano em Niterói.
Meu encontro com o futebol ocorreu no subúrbio. Já em 1956, fui escolhido para ser goleiro de um joguinho de recreio. No subúrbio, passei a jogar nas peladas como meio-campo. Integrei mesmo um time de várzea denominado Aimoré Futebol Club. Jogávamos aos domingos. Cada jogador contribuía em dinheiro para alugar o campinho e ficava responsável por lavar a camisa suada.
Foi então que me tornei torcedor do Botafogo. Valia a pena torcer por um time que contava com Nilton Santos, Quarentinha, Didi, Garrincha, Amarildo e outros menores. O campeonato estadual me bastava, a menos que fosse jogo do Brasil contra um selecionado estrangeiro. Nem sei se havia campeonatos nacionais e sul-americanos. Deveria haver, mas não me interessavam. E o estadual, na década de 1960, era um campeonato restrito aos times do estado da Guanabara, antigo Distrito Federal.
Meus três tios maternos discutiam em defesa dos seus times, mas não havia briga como hoje. Um era vascaíno. Outro torcia pelo fluminense. O terceiro se dizia botafoguense. Meu tio vascaíno tinha cadeiras cativas no Maracanã. Algumas vezes ele me levou para acompanhá-lo nos jogos do Vasco. Tudo era muito tranquilo, se compararmos com as confusões de hoje. As pessoas torciam pelos seus times, mas não provocavam badernas nem praticavam violência.
Em Padre Miguel, eu tinha companheiros de rua, mas apenas um amigo. Ele torcia pelo Olaria. Eu o acompanhei algumas vezes aos jogos do seu time. Geralmente, o Olaria perdia para os grandes. Vencia e empatava com os times de seu porte: Madureira, Canto do Rio, Portuguesa, Bonsucesso. O América era um pouco mais forte.
De Padre Miguel, chegava-se a Bangu e a Realengo em 15 minutos de lotação. Frequentei o campo do Bangu ou Moça Bonita algumas vezes. Tenho a glória de dizer que vi Zózimo jogar. Era um craque completo. Elegante no jogar, ela sabia o que fazer com a bola. Se vivesse hoje, estaria mudando de time a cada ano ou semestre. Ele jogou no Bangu durante 14 anos e foi convocado para a seleção do Brasil. Na copa do mundo de 1962, foi titular absoluto, trazendo a taça para o Brasil. O Bangu foi campeão da copa carioca de 1933 e 1966. Eu calculava que o time ganhava de 33 em 33 anos. Por isso, de brincadeira, previ que seria campeão em 1999.
O estádio do Campo Grande ficava mais distante. Nunca estive lá, embora frequentasse o bairro com certa frequência. Mais no final que durante o ano. Morei também em Niterói em 1965. Fiquei na casa de primos. O casal tinha três filhos. O marido da minha prima era muito simpático e afável. Não parecia torcer por nenhum time. De vez em quando me convidava para desfile de miss estado do Rio e se divertia muito. Com ele, estive algumas vezes no estádio do Canto do Rio, também um time que participava do campeonato carioca. Tratava-se de um clube pobre. Portanto, seu elenco era fraco.
A partir de 1970, meu interesse por futebol foi diminuído. Eu só me mobilizava durante os campeonatos mundiais. Eu acompanhara as vitórias do Brasil em 1958, 1962 e 1970. De longe, eu recebia notícias dos jogos do Botafogo. Até mesmo via um pouco dos seus jogos. Mas esse tempo passou. Assim como em outros aspectos da vida, não me interesso mais por futebol. Os times se tornaram empresas. A cada campeonato, os times trocam de jogadores e de treinadores. Não sei qual é a escalação de cada clube e quem é seu técnico. Sei que esse troca-troca não permite aos clubes conseguir entrosamento das equipes. Esse futebol empresarial não mais me interessa. Como um idoso, lembro do futebol dos velhos tempos.
*Professor, escritor, historiador, ambientalista e membro da Academia Campista de Letras

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