Logo depois de vender seriedade, gargalhou. O barulho da risada gorgolejante rompeu a sobriedade com que o público formava suas ficções mentais, mas deixava no ar a dúvida de quem era a figura a gargalhar. As roupas expressavam que quem as vestia tinha algum tipo de preocupação estética, assim como os cabelos - milimetricamente penteados - fio a fio divididos no alto do cocuruto. Via-se triângulo retângulo, mas queria mesmo era ser escaleno. Então a risada desleixada repartia a formalidade em uma imagem dúbia e, ainda assim, categórica. Porque, antes de si, a imagem era uma convenção do outro, uma espécie de contrato a partir do qual se cria uma série de expectativas de ações desaforadas, que se encontram fora de quem é, mas dentro da imagem estampada, vendida como pôster a ornamentar o rol dos julgamentos mentais. Então silenciou a gargalhada, retirou de cena o sorriso, e todos ao redor voltaram a crer que se tratava de uma figura respeitável, que o riso - tão próximo da primitividade simiesca - era algo pontual no emergir das ideias. Só então continuou, olhos sérios, vidrados nos ouvidos atentos, e resolveu quebrar a quarta parede tijolo por tijolo levantada entre quem era e quem pensava ser. Em frente ao espelho, notou que construía sua própria imagem diante do outro que havia em si.