Segundo registros biográficos, interessou-se ainda jovem pela literatura revolucionária russa e comprava livros às escondidas, com o dinheiro de pequenos serviços, já que os pais desaprovavam aquele tipo de leitura. Em 1903, desembarcou em Nova York por Ellis Island, a “ilha da esperança” que, para milhões de imigrantes, parecia prometer liberdade, trabalho e futuro.
Mas a realidade que Clara Lemlich encontrou não foi exatamente de esperança. Empregada na indústria têxtil nova-iorquina, deparou-se com longas horas de trabalho, baixos salários, insegurança e humilhação cotidiana. Clara logo envolveu-se na luta sindical e se destaca como uma líder improvável e temida. Em 22 de novembro de 1909, discursou no salão da Cooper Union e interrompeu as formalidades cautelosas da instituição e chamou as pessoas para a ação.
A luta liderada por Clara Lemlich não é, isoladamente, o que explica o 8 de março como dia internacional de luta feminina. Porém, traz os elementos que o constituem, a genealogia desse dia, um ambiente de sufrágio, socialismo e luta operária feminina. Como todos os movimentos que transformam a história, não possui uma origem única e simples.
Pouco mais de um ano depois, uma das fábricas da Triangle Waist Company sofreu um incêndio devastador, causando a morte de 146 trabalhadores do setor do vestuário — 123 mulheres e meninas e 23 homens —, a maioria imigrantes italianos ou judeus, com idades entre 14 e 23 anos. A fábrica já simbolizava o tipo de exploração que a greve de 1909 havia denunciado, e a tragédia expôs com brutalidade aquilo que o discurso elegante das elites preferia não ver. Embora impactante, o incêndio não criou o 8 de março, como tantas vezes se repete de forma errada, mas se incorporou à memória histórica das lutas femininas e operárias que cercam a data.
8 de março nasce da fuligem e não das rosas
Clara Lemlich, portanto, ajuda a contar uma parte decisiva dessa história, mas não a esgota. No ano seguinte à sua greve, em 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, uma outra Clara, a Zetkin, propôs a criação de um dia internacional de mobilização das mulheres.
As lutas das Claras e de tantas outras mulheres tratava-se de organizar politicamente a luta feminina em torno do sufrágio, do trabalho digno e da igualdade de direitos. O que estava em jogo não era a delicadeza da mulher, mas sua cidadania.
O 8 de março, como se vê, não nasceu da gentileza — nasceu do conflito. Não brotou de uma floricultura, mas da modificadora energia desprendida quando há o choque de injustiças com coragem.
A data ganharia seu marco definitivo alguns anos depois, em 1917, quando mulheres trabalhadoras de Petrogrado — então capital do mesmo Império Russo de Clara Lemlich — saíram às ruas contra a fome, a guerra e a miséria. O gesto, que muitos homens da política consideraram inoportuno, ajudou a precipitar a Revolução Russa.
A manifestação em Petrogrado ocorreu em 23 de fevereiro no calendário juliano usado na Rússia, o que corresponde a 8 de março no calendário gregoriano, usado na maioria dos países. Dias depois da mobilização feminina, o czar abdicou. Não é pouca coisa. Uma data hoje transformada em arranjo floral foi ajudada a nascer por mulheres que abalaram um império. Em 1921, o 8 de março foi oficializado como referência para a comemoração.
A história do 8 de março é áspera demais para caber nas homenagens floridas do presente, mesmo entre frases bem-intencionadas e declarações verdadeiras de amor. Até por estarem mantidas muitas das condições que levaram aos levantes femininos, como salário desigual, o assédio naturalizado, a sobrecarga invisível, a violência doméstica, o feminicídio, a desautorização cotidiana, a exaustão de existir sob permanente cobrança.
O Dia Internacional da Mulher não foi criado para enfeitar o mundo com rosas, mas para lembrar que muitas delas vieram com espinhos, que muitas vezes são o que restou a quem quase sempre precisou florescer em terreno hostil. Se hoje distribuem rosas no 8 de março, convém não esquecer as mãos que sangraram para que elas pudessem ser entregues.
O verdadeiro 8 de março não nasceu em vitrines. Nasceu na fuligem, na greve, na marcha, no panfleto, na fábrica, no sindicato e na rua. Nasceu quando mulheres decidiram que não aceitariam mais o lugar estreito que lhes haviam reservado. O dia das mulheres continua sendo o da luta. As flores podem ficar. Mas que ninguém ouse arrancar os espinhos da memória.