O contador de traças
Ronaldo Junior 31/01/2026 18:34 - Atualizado em 31/01/2026 18:34
Imagem gerada por inteligência artificial.
No próprio quarto, entre livros e objetos que preservava como se dependesse da integridade física dos seus bens para viver, mal havia o que contar fora das páginas.
As estantes, ladeadas, pesadas, repletas de exemplares com as lombadas reluzentes, eram expostas como flâmulas de uma vida inteira dedicada ao lado de dentro.
Difícil era que abrisse a janela para tomar um vento externo. Dependia de outras pessoas - de quem não exatamente gostava - para realizar as mais corriqueiras tarefas de rua. Mercado, banco, farmácia, tudo era feito por vizinhos gentis ou por entregadores mal remunerados.
Sentia constantemente que algo lhe faltava, mas nunca quis se perguntar o que era. Levava muito a sério a máxima de que era uma ilha, não precisando da companhia de ninguém para estar bem - mas sempre precisava.
Certo dia, resolveu começar a contar uma história. Olhou-se no espelho, a palidez reluzia sob a meia luz do quarto, e começou a narrar sobre uma banalidade qualquer que lera nas redes sociais. Era com entusiasmo que narrava os absurdos da vida de uma subcelebridade, mas percebeu que só tinha a si para ouvir a história.
Começou, então, a se movimentar pelo quarto, olhando ao redor, como se os livros fossem sua plateia, sendo as estantes as cadeiras, e o quarto, uma exclusiva sala de espetáculos.
Os livros, fechados, não tinham nada a dizer de volta. Sobre a vida, tendem apenas a simular para quem nunca teve a oportunidade de viver. Então falava, altissonante, como quem se apresenta para o breu de pessoas num teatro, com o foco luminoso apenas sobre si.
Foi quando, ao olhar um exemplar mais acima do nível de seus olhos, notou algo nele. Uma pequena traça pendurada no alto da lombada, quase chegando ao teto do quarto.
Além de retratar a falta de cuidado com seus bens, aquela presença queria dizer que seu isolamento fora comprometido. Rapidamente, largou de lado a história que narrava e passou a retirar os exemplares do alto da estante, conferindo suas páginas e a presença de insetos nunca antes percebidos.
Para seu espanto, não era apenas uma traça, mas várias pequenas roedoras de papel, que se espalhavam por entre os livros menos manuseados e consumiam o conhecimento das páginas como se violassem seu sagrado direito de tê-lo para si.
O problema alcançou tamanha dimensão que precisou, já na madrugada, revirar todos os livros, deixando o quarto absolutamente impróprio para sua permanência.
Pela manhã, a batalha estava vencida pelos insetos, pois eram incontáveis os danos - de minúsculos comidinhos em uma página até buracos que atravessavam de um exemplar a outro - e não havia mais o que fazer senão conviver com aquelas presenças ali, pois não jogaria fora os livros acumulados durante uma vida inteira.
Levantou-se - os olhos inchados pela falta de sono - e retomou a história que contava para si no espelho, mas agora para um público seleto e bem alimentado de celulose.
Percebia que as histórias não causavam qualquer reação nos minúsculos bichos, mas não ligou, pois já não estava só. E até via conforto nisso.
Dias depois, conseguiu sair brevemente de casa pela primeira vez após muito tempo, indo à calçada para receber um pacote trazido pelo entregador. Era um Kindle, que não servia de alimento para as traças. Agora, teria livros intactos e amigos para compartilhar as histórias, mesmo sem sair do quarto.
*Ronaldo Junior nasceu em março de 1996 no Rio de Janeiro/RJ. É professor, escritor e atual presidente da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve mensalmente no blog Extravio.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Ronaldo Junior

    rhbj@outlook.com

    Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.