Thaís Torres, Fernanda Pereira, Camilla Silva e Daniela Bogado
20/02/2026 14:39 - Atualizado em 20/02/2026 14:39
Lagoa de Imboacica, em Macaé e alagamento em Campos dos Goytacazes.
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Fernanda Pereira
Campos e Macaé têm algo em comum: são cidades moldadas pela água, mas que insistem em tratá-la como obstáculo. Rios canalizados, lagoas aterradas, áreas de várzea ocupadas, parques impermeabilizados, arborização insuficiente. Décadas de decisões equivocadas criaram uma lógica urbana que virou rotina: basta uma chuva forte para que o caos se anuncie. Para isso mudar é preciso modificar a forma como enxergamos os espaços livres. Eles não são “sobras” da urbanização. São infraestrutura. São instrumentos de gestão ambiental. São espaços capazes de melhorar a qualidade de vida.
O Sistema de Espaços Livres, que abrange áreas não edificadas considerando solo, água, luz e ar, exerce papel fundamental na configuração e no funcionamento das cidades. Além de servirem ao lazer e à convivência, esses espaços estruturam a paisagem e contribuem para a sustentabilidade ambiental. Nesse conjunto, os corpos hídricos (rios, canais e lagoas) destacam-se por sua relevância histórica, cultural e ecológica. Quando integrados ao planejamento urbano, ajudam a regular o clima, fortalecer a segurança hídrica e reduzir impactos da urbanização desordenada. Assim, a articulação entre espaços livres e gestão das águas é estratégica para cidades mais resilientes e sustentáveis.
Em Campos dos Goytacazes, município com extensa malha hídrica e marcado por contrastes socioespaciais, os espaços livres públicos (praças, parques, ruas, rios e lagoas) são essenciais e podem atuar na mitigação de problemas de drenagem. A adoção de Soluções baseadas na Natureza (SbN) pode transformar esses espaços em Infraestrutura Verde capaz de reduzir alagamentos e ampliar a resiliência urbana. Entre os exemplos de SbN estão os jardins de chuva (depressões no terreno plantadas com vegetação nativa que absorvem e filtram a água da chuva que escoa de áreas como telhados, calçadas e ruas), os pavimentos permeáveis (estruturas, feitas de materiais porosos, construídas para a infiltração da água da chuva no solo, em vez de escoar pela superfície) e os corredores verdes (faixas de vegetação que ligam áreas naturais, como parques e fragmentos de mata, conectando habitats).
Um exemplo em Campos é o Parque Alberto Sampaio, área central movimentada próxima ao Canal Campos-Macaé e ao Mercado Municipal, no entorno da antiga Lagoa do Furtado. Embora represente importante espaço público, a área sofre recorrentes alagamentos devido à baixa topografia, drenagem insuficiente e crescente impermeabilização. Sua requalificação, associada à implantação de técnicas de Infraestrutura Verde, poderia criar um espaço multifuncional, conciliando lazer, conservação ambiental e gestão hídrica. Isso fortaleceria a resiliência urbana e poderia servir de modelo para outras áreas críticas da cidade.
De forma semelhante, Macaé, que também enfrenta graves problemas de drenagem urbana, apresenta um sistema expressivo de espaços livres associados a corpos hídricos que cumprem funções ambientais e socioculturais importantes. A Lagoa de Imboassica, os manguezais, canais e áreas costeiras evidenciam a necessidade de integrar água e cidade no planejamento.
Um caso ilustrativo é o entorno do Beco das Artes, próximo à Lagoa de Imboassica. O espaço, inicialmente apropriado pela população para contemplação e convivência, recebeu fachadas cenográficas inspiradas no estilo colonial, tornando-se ponto de visitação. Posteriormente, a inserção de mobiliários urbanos reforçou seu uso cotidiano. Apesar das melhorias, o local ainda possui grande potencial para receber as SbN, dada sua proximidade com o corpo hídrico e sua capacidade de integrar funções paisagísticas, ambientais e sociais. Atualmente, o Beco das Artes também abriga eventos musicais ao longo do ano, demonstrando como a qualificação de espaços livres junto à água amplia a multifuncionalidade e fortalece a relação entre ambiente natural, cultura e vida urbana.
As realidades de Campos e Macaé evidenciam o potencial do Sistema de Espaços Livres ligado a sistemas hídricos para desempenhar funções estruturantes (como minimizar alagamentos), valorizar a paisagem e oferecer espaços públicos que respondam às múltiplas dimensões do cotidiano urbano. Essa perspectiva reforça a centralidade da água na configuração das cidades e sua importância para o planejamento sustentável.
Thaís Torres é doutora em Modelagem e Tecnologia para Meio Ambiente Aplicadas em Recursos Hídricos (AmbHidro IFF), arquiteta e urbanista, coordenadora de projetos do IFF.
Fernanda Pereira é doutoranda no AmbHidro IFF, professora na Unesa, pesquisadora do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles e do Ateliê de Pesquisas da Paisagem (APPA).
Camilla Silva é doutoranda no AmbHidro IFF, professora do IFF e pesquisadora do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles e do Ateliê de Pesquisas da Paisagem (APPA).
Daniela Bogado é doutora em Sociologia Política, professora do IFF, pesquisadora do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles e do Ateliê de Pesquisas da Paisagem (APPA).