*Felipe Fernandes
19/02/2026 07:42 - Atualizado em 19/02/2026 07:41
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Filme: Bugonia - O cinema do cineasta grego Yorgos Lanthimos tem uma identidade marcante. Ele cria situações desconfortáveis que parecem seguir regras próprias. O absurdo vai além da estética, serve para revelar o quão estranhas podem ser as normas sociais quando levadas ao extremo. Seus filmes funcionam como alegorias, muitas vezes atreladas a instituições sociais, como a família, ou a outros temas, como relacionamentos, poder, controle social e patriarcado. Ele exagera regras sociais para mostrar o quanto elas podem ser opressivas, arbitrárias e, muitas vezes, sem sentido, em uma provocação do cotidiano, em situações que transitam entre a realidade e o bizarro.
Em seu novo filme, Bugonia, o diretor tem como alvo as teorias da conspiração, a paranoia contemporânea e a desconfiança nas instituições, tudo isso relacionado à desinformação, à desigualdade social e a uma radicalização de crenças que fortalece a polarização e a construção de narrativas cada vez mais absurdas e desconectadas da realidade. O longa é um remake de uma comédia sci-fi sul-coreana de 2003, que atualiza muitos de seus temas e prova como toda essa loucura que hoje encontramos no mundo real (principalmente na internet) é resultado de uma sociedade cada vez mais fragmentada.
O filme parte de dois personagens marginalizados que, liderados por um conspiracionista, resolvem sequestrar a CEO de uma grande empresa, pois acreditam que ela seja uma alienígena, membra de uma raça que quer dominar a Terra. Esse tipo de delírio não chega a ser novidade, principalmente em uma sociedade tão aficionada por alienígenas quanto a estadunidense.
Um dos principais acertos do longa está na abordagem de Lanthimos, que não trata a dupla de sequestradores como caricaturas nem os encara com desdém. São dois homens excluídos, produtos de uma sociedade que os ignora, com traumas e vidas difíceis. Nesse sentido, a proposta do diretor de trabalhar essa história próxima de um realismo reconhecível e opressivo funciona para tornar mais aceitável todo o discurso dos dois e também para humanizar personagens disfuncionais, estranhos em sua essência.
Toda aquela ideia parece dar algum sentido a tudo o que eles vivem. Como se, ao serem excluídos, conseguissem enxergar além da superfície e essa descoberta se tornasse uma válvula de escape para toda a frustração. Lanthimos não trata a conspiração como piada, mas como estrutura psicológica e política. A escolha de uma CEO não é ao acaso, já que ela representa o extremo oposto da sociedade em que vivem, como representante de uma classe social totalmente alheia e não pertencente à realidade daquelas pessoas. Ela já é percebida como algo não humano.
Outra escolha interessante é que o filme funciona como uma fake news. Nesse sentido, o espectador ocupa uma posição muito próxima à dos personagens, sem nenhum tipo de prova, por mais absurdo que tudo pareça. Conforme a narrativa progride, tudo se torna mais confuso, a dúvida cresce e, dentro dessa situação, o filme nunca escolhe um lado moral, não há catarse, lição de moral ou redenção. Ele brinca com as percepções dentro da própria história e, como em um universo ficcional que funciona como reflexo da nossa realidade, a conspiração pode ganhar outros contornos.
O filme traz o humor ácido do diretor, que provoca desconforto e reflexão. A cena do sequestro tem um certo tom jocoso, que contrasta com as ações dos personagens. Tudo acontece de forma desajeitada, bastante amadora, em uma ação violenta. É engraçado porque é amador, mas esse mesmo amadorismo torna a situação crível. O filme reforça o humor em momentos que não deveriam ser engraçados, escancarando o ridículo daqueles personagens e da situação.
Bugonia é uma crítica social desconfortável e bastante atual. Dialoga com a paranoia contemporânea e a desinformação, em um tempo em que o absurdo perdeu a vergonha e se exibe em nossas vidas e em nossas telas. Nesse jogo de crenças, em que todos parecem impor o que acreditam à força, o filme não busca respostas: apenas faz humor, provoca reflexão e prova o quão ridículo pode ser o ser humano.