Dora Paula Paes
04/03/2026 07:37 - Atualizado em 04/03/2026 07:37
Rodrigo Silveira
Um pilar da Ponte Barcelos Martins ou “Ponte de Pau” como era chamada, patrimônio histórico de Campos, de 152 anos, cedeu, no último sábado (28), devido à cheia do Rio Paraíba do Sul. Tombada pelo seu valor arquitetônico, histórico e cultural, no momento, quantro historiadores acompanham com preocupação a situação; segundo eles, porque a cidade não tem bons exemplos de preservação.
“Essa notícia me deixou muito preocupada. Óbvio que o que está em primeiro lugar é a segurança das pessoas, mas eu vi vários campistas dizendo ‘tomara que caia’”, disse Rafaela Machado em um vídeo na rede social.
Ela aproveitou e deu uma aula. Localizada na área central, a historiadora trouxe detalhes da implementação da ponte, que foi a primeira a ligar uma margem a outra do Rio Paraíba do Sul e, assim, possibilitarmaior acessibilidade, em tempos remotos, quando a travessia acontecia de barco. Após sua construção, foi instituído um pedágio para atravessar a “Ponte Municipal”. “Ela é pura história. Foi construída em 1873 e estáprestes a completar 153 anos”, explica.
Porém, só foi em 1958, que o então prefeito de Campos, Barcelos Martins, fez a troca do piso. Trocou a madeira por concreto. Para homenageá-lo, em 1964, a Ponte recebeu o nome dele. “Tombada pelo Coppam em 2013 e, agora, em 2026, resta torcer para que ela continue firme e forte para poder contar a história da nossa cidade”, completa Rafaela.
Também com elevado senso de preocupação, o historiador Arthur Soffiati, fala da vulnerabilidade da ponte, que segundo ele, precisa de uma maior atenção do poder público.
“Revela o descaso das autoridades. Essa secular ponte deveria ser alvo de atenção constante. É mais um caso de abandono durante a maior parte do tempo e assunto para a Defesa Civil em momentos críticos, momentos em que as enchentes do rio a ameaça. Ela é um patrimônio cultural para ser usada e não apenas olhada até que lhe advenha o desmoronamento. Pelo andar da carruagem, ela seguirá o destino de outros bens que já não existem mais”,expressa Soffiati.
Sylvia Paes, também historiadora e militante em prol do patrimônio de Campos, conta que a Ponte Barcelos Martins, como outros patrimônios ameaçados na cidade, também deu avisos do que poderia ocorrer ao longo dos anos.
“Toda cheia do Paraíba, há uma ameaça a essa ponte, não é a primeira vez que é interditada, não foi recuperada totalmente. A questão é estrutural, uma coisa mais complexa do que uma maquiagem e não deixar passar carro. O mesmo que ocorreu com o Museu Olavo Cardoso, o prédio também deu vários avisos, gritou por socorro e continua gritando, abandonado”, disse Sylvia.
Sylvia também espera pelo protagonismo do Ministério Público Estadual (MPE). “Houve uma época que o Ministério Público estava mais propenso a colaborar com as questões do patrimônio público, do patrimônio que é público. Desta vez,parece que estão entendendo erroneamente. Estão entendendo que o patrimônio é da prefeitura quando não é. E a prefeitura faz o que quer. A gente precisa ter mais consciência disso”, pontua.
Rodrigo Silveira
A historiadora Graziela Escocard vai além. Na sua análise, a Ponte Barcelos Martins não é apenas uma estrutura de ferro que atravessa o Paraíba do Sul. "Ela simboliza a transição de Campos para a modernidade urbana no século XIX. Sua construção marcou a integração física e econômica das margens da cidade, consolidando fluxos comerciais, sociais e culturais que redefiniram o espaço urbano campista", reforça.
Desde 2013, a ponte Barcelos Martins é tombada pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Coppam). A presidente do Conselho, Fernanda Campos, se manifestou. Segundo ela, o Coppam acompanha de perto as medidas adotadas pelos órgãos de segurança do município, e da Defesa Civil, quanto ao incidente ocorrido. “A gravidade do comprometimento estrutural e meios de recuperação só poderão ser avaliados e definidos após o Rio Paraíba do Sul retornar à sua cota corrente. Até lá, continuaremos a seguir de perto o andamento das determinações”, explica.
A Folha aguarda o posicionamento do Ministério Público se pretende acompanhar o caso da recuperação da ponte.