Felipe Fernandes - Entre a metalinguagem e a paródia
*Felipe Fernandes 04/03/2026 07:36 - Atualizado em 04/03/2026 07:36
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Filme: Pânico 7 - Lançado em 1996, Pânico foi um filme responsável por revitalizar o gênero slasher, apresentando um longa violento, repleto de metalinguagem e com um certo humor sombrio, que brinca com as convenções do gênero, estabelecendo o Ghostface como uma das figuras mais conhecidas do cinema de terror do final do século XX. O filme gerou uma trilogia e, posteriormente, ganhou outras continuações, buscando renovação por meio da construção de uma nova geração de personagens e fãs.

A produção do novo longa passou por polêmicas após a demissão da nova protagonista Melissa Barrera, devido ao seu posicionamento em defesa da Palestina. Essa demissão foi seguida pela saída de outra estrela, Jenna Ortega, em apoio à amiga. Toda essa confusão mudou o planejamento, e o criador da franquia, Kevin Williamson (que aqui assume a direção pela primeira vez) decidiu retornar ao núcleo antigo para tentar dar prosseguimento à franquia. Eis que chega aos cinemas o sétimo filme, que traz o retorno da final girl principal, Sidney Prescott, como protagonista, precisando proteger sua família e, principalmente, sua filha adolescente.

A franquia Pânico sempre trouxe a metalinguagem como um de seus elementos mais interessantes. Além das menções aos clássicos e às convenções do gênero, desde o segundo filme a história do assassino mascarado passou a ser reverenciada dentro do próprio universo ficcional, tornando-se uma franquia de sucesso. A cena de abertura do novo filme mostra um casal visitando a casa onde ocorre o clímax do filme de 1996 (ou uma reprodução dela), que se tornou um “templo” para os fãs, permitindo que eles revisitem o local do crime e sintam um pouco dos acontecimentos.

Como era de se esperar, tudo desanda, o casal é assassinado, a casa pega fogo e o novo assassino demonstra não ter apreço pelo legado dos anteriores. As regras antigas não valem mais. Uma promessa que nunca é realizada de fato.

O filme foca bastante na nostalgia, resgatando assassinos dos longas anteriores e trazendo novas tecnologias para a trama, mas nada disso causa impacto relevante na narrativa. O peso dramático recai sobre Sidney, que precisa proteger sua família, especialmente a filha adolescente, com quem não consegue se comunicar, na tentativa de mantê-la à margem de toda dor e perda que ela vivenciou ao longo dos anos.

Sidney é uma subcelebridade, reverenciada por sua força e coragem, constantemente lembrada dos assassinatos. Sua filha, Tatum, não sabe como conviver com essa sombra materna, enfrentando expectativas que não correspondem ao que ela é. O núcleo adolescente, formado por personagens estereotipados, como o namorado, a melhor amiga e o nerd cinéfilo fã de filmes de terror, existe praticamente para serem mortos pelo novo assassino, enquanto tentam descobrir sua identidade.

Este é o segundo filme do criador Kevin Williamson como diretor, e a falta de experiência é perceptível. Algumas cenas são confusas em termos de mise-en-scène, algo crucial nesse tipo de filme, já que a compreensão do espaço é essencial para a construção da tensão. As mortes são pouco criativas, o ritmo é irregular e o desfecho é constrangedor, um problema agravado pelo roteiro, que também leva sua assinatura.

A ideia de que a violência dos primeiros filmes continua afetando novas gerações é um dos pilares recentes da saga. A franquia sempre comentou sobre a cultura do espetáculo em crimes violentos, seja pelo sensacionalismo da imprensa, pelos fãs que buscam replicar os crimes ou pela busca de fama através deles. No entanto, Pânico 7 não inova em nenhum desses aspectos. A motivação dos crimes é rasa e não agrega nada relevante à história ou à franquia. A metalinguagem aqui, fica no limite da paródia.

Se no passado, a franquia se destacou por questionar a violência como espetáculo e como o consumo de histórias violentas alimenta um ciclo de medo e ódio, o novo filme falha em aprofundar o comentário sobre violência e legado, tornando-se uma passagem de bastão preguiçosa em vez de uma evolução significativa da franquia. Sem a condução de Wes Craven e com Kevin Williamson claramente perdido, talvez seja hora de aposentar o Ghostface e dar um descanso para Sidney.

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