A melhor forma de destruir a democracia: relativizá-la em tempos de defendê-la
04/04/2026 | 09h03
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto.
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto. / Gemini


A democracia é um conceito abstrato. E não apenas isso, trata-se de um acordo, um pacto feito na sociedade que decide adotá-la como modelo, que mesmo depois de pactuado, exige ser constantemente lembrado. Mas a democracia não se sustenta sozinha. Precisa ser constantemente lembrada, reafirmada e defendida. Seria justamente sua abstração um motivo para desistir dela?

A justiça é, do mesmo modo, um conceito abstrato. Não se pode “tocar” a justiça, ela não se materializa no cotidiano e tampouco está no imaginário da sociedade enquanto conceito filosófico. Porém, ela é fundamental para a vida coletiva e muitas vezes suprime liberdades individuais em nome do bem comum. Deve ser entendido como justo alimentar quem tem fome, custear a saúde pública e oferecer educação a todos, assim como punir severamente quem mata ou atua no tráfico de drogas.

A própria Constituição de um país é um compêndio de ideias abstratas. “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”; “ninguém será submetido a tortura”; ou “é livre a manifestação do pensamento”, são conceitos que garantem as materialidades envolvidas nas abstrações legais.

Em termos simples: governo, dinheiro, tribunal, mandato, propriedade e fronteira não são “ilusões”; são fatos institucionais, sustentados por regras constitutivas e aceitação social. Eles não existem como uma pedra existe, mas existem socialmente de modo objetivo o bastante para prender, taxar, casar, condenar, legitimar e governar.

No livro dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem, é explicado que a derrocada democrática na era moderna ocorre de forma gradual, lenta e legal. Portanto, é uma forma de destruir o ordenamento usando as próprias previsões legais. Promove-se a erosão gradual das regras escritas da sociedade —e das não escritas.

Democracia jamais será um valor absoluto — nem pretende ser

Há conceitos que possuem universalidade e partem de uma premissa que devem ser respeitados sob quaisquer circunstâncias. Como o direito à vida, por exemplo. Entretanto, mesmo um direito tão fundamental pode ser relativizado, por exemplo, em tempos de guerra ou em situações de legítima defesa.

A reflexão sobre absolutismos e dogmas sempre será perpassada pelas religiões. Hegel (1770-1831) —filósofo germânico, autor de “Fenomenologia do Espírito” — ensina que a verdade religiosa não é algo separado da razão ou da filosofia, mas sim uma etapa essencial no desenvolvimento do que ele chama de “geist” (espírito). A compreensão de Deus e da realidade se dá através de "representações" (imagens, símbolos e histórias) que buscam uma verdade absoluta, um dogma.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos. / Fonte: Hellenic Organization of Cultural Resources Development


Outros pensadores entendem que há uma distinção clara entre a verdade religiosa e a verdade filosófica, sendo a primeira no campo da fé e da revelação, e a segunda no campo do trabalho da razão. A filosofia se dá em um processo de descoberta e questionamento, enquanto a religião se baseia na aceitação de dogmas.

Portanto, a democracia — que não se pretende absolutista tampouco religiosa — não deve trabalhar com verdades imutáveis; mesmo porque, essa forma de pactuação social é recente no tempo histórico e ainda pouco testada em comparação a modelos anteriores. Ao contrário: a democracia se sustenta em um ordenamento social e legal que deve se adaptar com o tempo, observar os valores éticos e culturais de seu tempo e propor soluções para os conflitos que são contemporâneos a ela.

A democracia deve ser defendida — não por ser absoluta, mas necessária

As relativizações e fraquezas da democracia não podem servir de desculpa para seu abandono. A fragilidade do modelo não se mostra como um atalho para apoiar sua morte gradual, mas, ao contrário, deve ser entendida como uma característica que a difere de modelos absolutistas.

É justamente por isso que a abstração não enfraquece a democracia; ela revela sua natureza civilizatória. Democracia não é um objeto, mas um arranjo normativo exigente. A tradição contemporânea a descreve menos como simples vontade da maioria e mais como um método de decisão coletiva que pressupõe alguma forma de igualdade política entre os participantes. Em outras palavras, democracia não é apenas contar votos; é reconhecer que o poder precisa passar por regras, freios, justificação pública e aceitação do dissenso.

A melhor forma de destruir a democracia, portanto, não é necessariamente negá-la em praça pública. É algo mais sofisticado e mais covarde: relativizá-la enquanto se diz defendê-la. É conservar sua casca retórica e demolir, por dentro, os princípios que lhe dão sentido. Porque a democracia raramente morre apenas quando lhe arrancam o nome. Muitas vezes, ela começa a morrer quando já não se acredita que certas abstrações mereçam ser levadas a sério.
 
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Assim falou Zematustra
21/08/2025 | 09h14
Friedrich Nietzsche
Friedrich Nietzsche / Reprodução

Em Minas Gerais, no Palácio Tiradentes, o governador Zematustra se preparava para uma entrevista que daria no outro dia. Às turras com papéis e vídeos de Whatsapp, não conseguia se concentrar e sentiu que precisaria de ajuda. Mandou chamar Salomé, a assessora que considerava a mais inteligente da equipe.

Em alguns minutos, Salomé adentra nos aposentos do governador.

— Salomé, por favor, me ajuda nesse trem aqui, pelo amor de Deus.
— Claro, governador. O que o senhor precisa?
— Eu vou me lançar a presidente amanhã.
— Nossa, governador, que passo importante! Mas…o senhor se sente preparado?

Zemtustra olhou a assessora por cima dos óculos:

— Uai, você não me acha preparado?
— Claro que acho — Salomé não consegue esconder o desconforto — mas precisamos treinar para as perguntas difíceis.
— Então começa, menina. Pergunta o que quiser, que eu me saio bem demais da conta.
— O que o senhor teria a dizer sobre Adélia Prado?
— A funcionária da rádio? Esse assunto de novo, Salomé? Cansa não?
— Pelo visto o senhor continua sem saber quem é.
— Claro que sei quem é a Adélia! Estava brincando com ocê,. Grande escritora!
— Ufa! — a assessora fica menos tensa, pela primeira vez desde que começou a conversa.

Zematustra continuou rapidamente:

— Autora de A Hora da Estrela. Poetisa de primeira. Viu? A gente comete algumas gafes mas se corrige, menina.
— Não governador, por favor — a expressão tensa volta ao rosto de Salomé — essa obra é de Clarice Lispector.
— Ah, as duas são mineiras, ninguém vai perceber.
— Clarice é ucraniana, governador.

Reprodução
Zematustra coça a testa, desvia o olhar e muda de assunto.


— Política, vamos falar de política.
— Ótimo. O que o senhor pensa da ditadura militar de 64?
— Cê tá muito esquerdinha. Esse assunto já passou.
— Eu sou liberal convicta, governador. Tá, mas e sobre o Brics?

Zematustra faz uma pausa e mexe nos papéis sobre a mesa. Acha uma anotação, e com uma expressão de desdém responde:

— Olha aqui, veja bem, são países que não são cristãos como nós. Como pode o Brasil se aliar a isso?
— Mas a questão religiosa não é o cerne do bloco, governador. Por favor, isso não tem sentido.
— Diga por você, Salomé. A Rússia comunista, então não tem nem religião aquele povo…
— Em sua maioria são cristão ortodoxos. Senhor.
— Pois sim. E a Índia? Que tipo de religião eles têm por lá? Vai saber.
— São hindus, senhor. Em sua maioria.
— São uns indolentes mesmo.
— Pelo amor de Deus, governador. O bloco não é uma missa, é uma aliança econômica.
— Ah, agora você fala de Deus?
— Deus está morto, governador.

O chefe do executivo mineiro se espanta e afasta a cadeira da mesa violentamente.

— Você perdeu completamente o juízo, menina? Como fala uma asneira dessa?
— Desculpe, senhor. Mas achei que o senhor entenderia. Seu nome não é em homenagem a Nietzsche?
— O menino da contabilidade? O que está insinuando agora Salomé? Está passando de todos os limites.

Salomé põe as mãos na testa, e depois cobre a boca com uma delas com os olhos arregalados. Zematustra fica sem entender. A assessora lembra das outras declarações recentes: que os pobres deviam comer banana com casca para economizar, que moradores de rua deviam ser “guinchados” como carros estacionados em local proibido. O currículo estava completo

— É bem pior do que pensei, governador. Não é possível o senhor se lançar candidato à presidência — diz Salomé tentando se recompor.
— Você fala que Deus está morto e diz que eu sou pior que pensou? O que você é, uma comunista, Salomé?
— Deus está morto é um aforismo, senhor. E já disse que sou liberal.
— Liberal até demais! E que agora virou um aforismo mesmo, você está fora! Demitida!
— Ah, Graças a Deus!

Salomé sai pela porta, aliviada. Zematustra volta aos papéis de WhatsApp e repete em voz baixa, como se fosse lema de governo:
— Frankenstein cristão…gostei disso.

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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

edmundosiqueira@hotmail.com