Do grito contra os usineiros ao acordo com o açúcar
Edmundo Siqueira 06/04/2026 20:45 - Atualizado em 06/04/2026 20:59
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes / Foto: César Ferreira


O ano era 1988. O Brasil finalizava as extensas — e propositalmente graduais — negociações para um novo período democrático, com a promulgação de nova Constituição e a realização de eleições diretas em todo o país. Em Campos dos Goytacazes, iniciava-se um processo que iria determinar a história local, definindo não apenas um novo rumo político, mas também redesenhando as relações sociais da cidade.

Havia naquele período um movimento denominado “Frente Campos”. A mobilização tinha claras ambições políticas, e nascia de um sentimento quase palpável de insatisfação popular com os governos municipais ligados às elites campistas de então, principalmente ao setor sucroalcooleiro.

A tal “frente” era composta por pessoas ligadas ao setor cultural, especialmente do teatro e poesia. Parte da intelectualidade e da imprensa também se organizavam ali. E havia os partidos de esquerda — PDT, PCB, PV e mais tarde o PT. A insatisfação estava nas camadas mais populares, mas também na classe média — composta por comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais —, fazendo o movimento tomar corpo e vislumbrou-se uma candidatura ao executivo municipal.

Entre os personagens, um jovem despontava: Anthony Garotinho. Oratória sofisticada, ambição e ligação partidária efetiva no PDT, avalizada por Leonel Brizola. Em 1986, Garotinho elegeu-se deputado estadual, já sendo uma figura conhecida do rádio na cidade, onde, na emissora Cultura, disputava com outro nome conhecido dos dials, Barbosa Lemos.

O movimento Frente Campos passou a se denominar “Muda Campos”, em março de 1988. Naquele ano, Garotinho conseguiu, pelo PDT, homologar sua candidatura a prefeito de Campos, tendo o médico Adilson Sarmet como vice. Estava formada uma confluência de fatores e forças políticas que possibilitaria romper com velhas oligarquias.

Apesar dos inúmeros candidatos que concorreram às eleições municipais naquele ano, a polarização estava bem delimitada: Garotinho, como representante da classe média, de grupos emergentes na política local, como os jovens e intelectuais, e como já apontado, os “homens e mulheres de cultura”.

Garotinho conseguiu discursar em nome do “povo” e se aliar a setores de mando local, com poder financeiro. O outro lado era composto pelo poder político de Zezé Barbosa, que apoiou Jorge Pereira Pinto. A narrativa eleitoral criou o “inimigo” popular, associando o atraso da cidade com o “poder de usina” e as antigas oligarquias rurais campistas.

O início do garotismo
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT.
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT. / Arquivo
Anthony Garotinho foi eleito prefeito de Campos em 3 de outubro de 1988, com pouco mais de 30% dos votos válidos. Boa parte desses votos foi dada pela imagem construída do “novo” e pela cultura como plataforma política.


Um dos eventos mais traumáticos de Campos — a demolição do cine-teatro Trianon — foi atribuído ao prefeito anterior, derrotado no pleito. O teatro-cinema foi a principal diversão de várias gerações de campistas e a demolição do símbolo Trianon estava engasgada, precisando achar culpados. Zezé Barbosa foi acusado de complacência, e Garotinho conseguiu centralizar nele a ideia de uma “política cultural mais democrática”, tendo como uma das primeiras medidas reativar o Teatro Trianon.

A luta pelo renascimento do Trianon e as críticas à sua demolição já estavam na sociedade campista, mas Garotinho conseguiu capitalizar a pauta, e sua origem no teatro amador e no rádio o ajudou bastante nessa empreitada. E mais: a cultura era vendida como forma de aproximação popular e democratização de acesso.

Neste sentido, junto com uma pluralidade de personagens ligados ao teatro amador, à intelectualidade e à cultura de modo geral, deu-se o significado histórico sociológico da eleição de Garotinho, que ajudou sobremaneira a legitimar seu poder e dar representatividade ao “povo” e à classe média.

E não se limitava ao Trianon. Em conjunto com a ideia brizolista de fortalecimento da educação e da cultura, entre os planos locais estavam reativar o carnaval campista,
promover “grandes bailes para o povo”, democratizar a festa de São Salvador como atração turística, entre outras iniciativas.
Poder, Campos como a anti-capital e os royalties
A cidade que ajudou a eleger Garotinho em 1988 queria romper com a velha Campos. Ou, ao menos, com a imagem dela: a Campos dos usineiros, do mando tradicional, da política envelhecida e dos círculos fechados de poder. Havia ali um bafejo de redemocratização, um impulso de participação e uma crença — talvez sincera, talvez ingênua — de que seria possível reorganizar a cidade a partir de novas energias sociais.

Não por acaso, já no primeiro governo, em 1991, seria instituído o Plano Diretor do município, no contexto mais amplo da redemocratização brasileira e da nova centralidade adquirida pelos municípios após a Constituição de 1988. Uma nova urbanidade também se construía.

A Campos que começava a se redescobrir, com um importante ciclo econômico em decadência — do açúcar — sofre um baque nos anos 1980: o dinheiro fácil. No início do século XXI, Campos entrava em outro ciclo econômico, agora sob o signo do petróleo. E a promessa, desta vez, era maior, pois não se tratava apenas de riqueza agrícola ou comercial, mas de uma renda extraordinária, potencialmente capaz de promover mudanças estruturais e institucionais na cidade e na região. Campos liderou por anos o ranking dos maiores recebedores de royalties do país. Em 2005, sozinha, recebeu R$ 670,1 milhões, o equivalente a 24,19% de todas as rendas petrolíferas municipais distribuídas no Brasil naquele ano.
 
Usina do Limão
Usina do Limão / Arquivo


Entretanto, o poder local optou por sequestrar as rendas petrolíferas, sem se preocupar com projetos consistentes de desenvolvimento regional nem justiça intergeracional. O populismo foi a tônica escolhida, com alguns hiatos na gestão de Arnaldo Vianna e no segundo governo Rosinha Garotinho, onde algumas obras estruturais urbanas foram entregues.

Politicamente os movimentos foram direcionados ao Estado. Constituída como a principal cidade do Norte e Noroeste Fluminense, Campos sempre foi uma vitrine importante e serviu para que os políticos locais buscassem o poder estadual. O próprio Garotinho foi governador do Rio, elegeu sua esposa, Rosinha, e foi candidato à presidência da República, ficando em terceiro lugar.

Campos, por essas características, funcionou como uma espécie de “anti-capital”. Não tinha a importância e contingente populacional para ser capital do Estado, mas buscava sempre aproximação com esse lugar simbólico. Por sua vez, a capital sempre viu o interior com preconceito e distanciamento — sentimento que, em larga medida, se concentrava na maior cidade do interior: Campos.
O açúcar histórico
A prosperidade econômica de Campos não se constituiu historicamente apenas num centro municipal-regional, mas sim em um polo econômico importante ainda no Império, que se desenvolveu continuamente com a concentração das usinas, exercendo, por esse potencial do setor açucareiro, a função de capital.

Com o advento do Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, criado em 1933, essa centralidade foi reforçada, fazendo de Campos um dos principais centros produtores de açúcar do país. A Usina São José, por exemplo, ocupava o quarto lugar dentre as maiores usinas do Brasil.
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz / Arquivo


Mas o mesmo sistema que deu sustentação ao açúcar campista também ajudou a criar dependências. A proteção estatal — as cotas e a regulação do IAA — permitiram a sobrevivência por algum tempo de estruturas que, em muitos casos, envelheceram sem modernização compatível. Quando o setor passou pela desregulamentação e o IAA foi extinto em 1990, o choque foi profundo. O decreto de Collor transferiu as atribuições do instituto e marcou a passagem de um ambiente subvencionado para outro, mais exposto à lógica de mercado.

A literatura acadêmica sobre o Norte Fluminense é relativamente convergente nesse ponto. O declínio das usinas campistas não decorreu de uma causa única, mas de um acúmulo de fragilidades: baixa produtividade agrícola, parque industrial envelhecido, alto endividamento, dificuldade de modernização tecnológica, perda de competitividade diante do Centro-Sul, competição por matéria-prima, capacidade ociosa crescente e desorganização após a desregulamentação dos anos 1990. Enquanto outras regiões ganharam escala, tecnologia e integração logística, boa parte do parque sucroalcooleiro campista perdeu mercado e fechou unidades.
A situação ficou ainda mais contraditória porque a decadência do açúcar coincidiu, em larga medida, com a ascensão das receitas petrolíferas. Porém, em vez de a crise do primeiro ciclo servir como alerta para a necessidade de diversificação econômica e planejamento de longo prazo, a abundância dos royalties acabou amortecendo a urgência da reinvenção.

Isso também aparece em estudos locais: a renda do petróleo não foi convertida, de forma estrutural, em uma nova base econômica capaz de substituir com consistência a velha centralidade sucroalcooleira.
Royalties e a volta do usineiro

Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho.
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho. / Foto: César Ferreira

Na última quinta-feira (2), Campos dos Goytacazes tem um novo prefeito. Após a renuncia do atual, Wladimir Garotinho, para concorrer nas eleições deste ano, quem assume é o vice, Frederico Paes. Ele é engenheiro agrônomo, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) e figura diretamente vinculada ao setor canavieiro da região e ex-diretor do Hospital dos Plantadores de Cana. Sua posse devolve ao centro do poder municipal um nome associado, de modo explícito, ao universo do açúcar.

O garotismo nasceu, em 1988, como linguagem de ruptura contra a cidade do mando tradicional, das oligarquias locais e do “poder de usina”. Décadas depois, entrega a Prefeitura a um homem do açúcar. Não se trata de dizer que Campos voltou intacta ao passado; a história não é tão simples. Mas a imagem é eloquente, e talvez represente uma ruptura que envelheceu.

Por isso a ascensão de Frederico Paes pode ser lida menos como retorno puro e simples do passado e mais como um evento que mostre uma cidade que um dia gritou contra os usineiros, e ainda não conseguiu produzir, em plenitude, uma alternativa duradoura às suas velhas formas de conciliação entre riqueza, poder e sobrenome, e que precisa aprender a se reconciliar.

Talvez este seja o momento para isso, sobretudo diante do julgamento que o STF pautou para 6 de maio sobre duas ações que discutem as regras de distribuição dos royalties do petróleo no país. A depender do resultado, Campos poderá ser chamada, mais uma vez, a repensar sua história, seu presente e, principalmente, seu futuro.
 
MATIAS, Glauber Rabelo. Os donos da cultura: uma análise sociológica sobre o campo das políticas culturais em Campos dos Goytacazes/RJ (1989-2013). Trabalho apresentado no XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, Porto Alegre, 2015.

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