Rio, São Paulo e Minas no espelho do Brasil
William Passos
Entre seus feitos estão o fertilizante artificial e o espelho — ou, mais precisamente, a aplicação de uma fina camada de prata líquida sobre o vidro para criar a imagem refletida.
A imagem que o espelho cria é virtual e invertida, produzida a partir de um elemento real. No Brasil, o espelho, que já foi usado como moeda de troca na colonização, tem refletido uma sociedade polarizada, violenta e desconfiada. Mas qual é, afinal, a imagem refletida do Brasil de hoje? Como o brasileiro se vê — e, mais importante, quais são os elementos reais que produzem essa imagem no espelho?
Essas são algumas das perguntas a que se propõe a responder o mais novo livro do cientista político Felipe Nunes, intitulado “Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros”, lançado pela Globo Livros, em novembro de 2025. Em entrevista concedida ao Folha1 nos primeiros dias de 2026, Nunes — diretor e fundador da conceituada Quaest Pesquisa — falou sobre o conservadorismo no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, as eleições deste ano e os pontos em que o Brasil mais se reconhece — e mais se desconhece.
Para ampliar essa leitura, este texto dialoga também com o geógrafo William Passos, especialista em estatística e pesquisador formado pelo IBGE. Em uma escrita a quatro mãos — uma, analítica; outra, territorial — tentamos esmiuçar o que os números dizem sobre um ano decisivo para o Brasil e, em especial, sobre como o eleitorado do Rio de Janeiro se posiciona diante do conservadorismo, da insegurança e da política.
São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais compartilham o rótulo, mas vivem conservadorismos diferentes. Em São Paulo, a ordem está associada à previsibilidade e ao desempenho institucional. No Rio de Janeiro, à proteção e à sobrevivência. E em Minas, à conciliação e à estabilidade. Essas diferenças ajudam a explicar não apenas escolhas eleitorais, mas também modelos distintos de capitalismo, desenvolvimento e relação com o poder público.
Por esses elementos, o conservadorismo paulista tende a enxergar o Estado com ambivalência, na medida em que, por um lado, aceita o Estado quando este entrega serviços públicos essenciais, como saúde, educação, infraestrutura e segurança, mas, por outro lado, o rejeita quando o Estado ganha a forma de burocracia, corporativismo ou “privilégio”. Ainda a este respeito, Nunes lembra que, no conservadorismo dominante em São Paulo, a moralidade aparece, porém, frequentemente colada ao discurso de responsabilidade e disciplina.
Por outro lado, no estado do Rio de Janeiro, o que prevalece é um conservadorismo de segurança, no qual há uma forte demanda por proteção, o que é explicado, na visão de Nunes, pela insegurança cotidiana, com atributos — violência armada, crime organizado, territórios capturados, entre outros — que empurram o conservadorismo para o eixo da proteção. Esse cenário é explicado pela contingência da garantia do direito a não morrer.
Por sua vez, no espelho de Minas Gerais, que no seu íntimo reflete o Brasil, o que se impõe, na avaliação de Nunes, é o conservadorismo de conciliação/pragmatismo, que, mais “temperado”, valoriza família, tradição e ordem, mas costuma ser menos performático e mais pragmático. Outro achado importante da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” é o forte peso, no conservadorismo mineiro, do que Nunes chama de redes locais, municipalismo e “política do possível”. Espinha dorsal deste singular conservadorismo, a política do possível tende a punir radicalismos percebidos como ameaça à estabilidade, o que explica o fato do conservadorismo mineiro frequentemente se traduzir em moderação e “cautela” — o eleitor mineiro demanda segurança e entregas, mas desde que não haja rupturas.
Perguntado sobre como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico, Nunes revela que os valores dominantes, por si só, não determinam o desenvolvimento, mas influenciam o tipo de coalizão política e o “clima institucional” que cada estado brasileiro constrói — e isso, por sua vez, se reflete na dinâmica do investimento, da produtividade, da informalidade e da capacidade estatal.
Nesse cenário, Nunes enxerga o conservadorismo de São Paulo como pró-previsibilidade, o que, por sua vez, favorece um capitalismo mais orientado à produtividade, competição, governança e à formação de cadeias complexas — indústria, serviços avançados e finanças. Este modelo de conservadorismo, por sua vez, pressiona por políticas públicas mais “gerenciais” — metas, controle, entrega e regulação mais estável —, ao mesmo tempo que tende a premiar governos com boa reputação de administração e infraestrutura.
Por outro lado, no caso do estado do Rio de Janeiro, o eixo proteção/segurança encarece o capitalismo. Isso acontece em função do aumento do custo de transação, além dos custos do risco, da informalidade e das “economias de coerção”. Assim, em função desta estrutura, a economia acaba por ficar mais sensível aos ciclos da renda extrativa/rentista — óleo, royalties e grandes contratos — e, ao mesmo tempo, menos sustentada por um ambiente amplo de pequenos e médios negócios protegidos por instituições fortes. Portanto, a promessa de “retomada” do controle territorial acaba por virar uma agenda econômica indireta, na medida em que, sem ordem territorial, a economia não floresce.
Finalmente, no caso de Minas Gerais, o pragmatismo e a busca por estabilidade tendem a produzir um capitalismo mais incremental, na visão de Nunes, isto é, diversificado — mineração, agro, indústria e serviços — e com forte peso da interiorização e da formação de cadeias regionais. Isso acontece porque a preferência por conciliação facilita a formação de arranjos de investimento e de infraestrutura quando há coordenação. Por outro lado, o capitalismo incremental mineiro acaba produzindo um efeito colateral importante, que é o gradualismo excessivo quando há a necessidade da realização de reformas, o que é explicado pelo predomínio da lógica menos “ruptura” e mais “ajuste”, baliza fundamental para a garantia da previsibilidade política e dos pactos locais firmados.
O espelho real e o distorcido
No fim, o que “Brasil no espelho” revela não é apenas a diversidade dos conservadorismos regionais, mas a dificuldade histórica do país em reconhecer a própria imagem sem distorcê-la. São Paulo se vê como engrenagem e o Rio, como um estado onde não se aplicam as mesmas leis dos “outros”, e Minas, como fiadora da estabilidade possível. Cada qual se reconhece — e se protege — a partir de sua própria experiência com o Estado, a economia e o medo.
Como no espelho de Liebig, a imagem que se forma não é falsa, mas invertida: parte de um elemento real, porém reorganizada por camadas de expectativa, insegurança e memória coletiva. O desafio político de 2026, mais do que escolher entre direita e esquerda, será compreender que o Brasil não cabe em um único reflexo.
Talvez o maior risco esteja justamente em insistir em buscar respostas uniformes para sociedades que se organizam a partir de medos distintos. Enquanto isso, o espelho segue posto. Não para nos dizer quem deveríamos ser — mas para revelar, com desconforto, quem de fato somos quando ninguém está olhando.