Do grito contra os usineiros ao acordo com o açúcar
06/04/2026 | 08h22
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes / Foto: César Ferreira


O ano era 1988. O Brasil finalizava as extensas — e propositalmente graduais — negociações para um novo período democrático, com a promulgação de nova Constituição e a realização de eleições diretas em todo o país. Em Campos dos Goytacazes, iniciava-se um processo que iria determinar a história local, definindo não apenas um novo rumo político, mas também redesenhando as relações sociais da cidade.

Havia naquele período um movimento denominado “Frente Campos”. A mobilização tinha claras ambições políticas, e nascia de um sentimento quase palpável de insatisfação popular com os governos municipais ligados às elites campistas de então, principalmente ao setor sucroalcooleiro.

A tal “frente” era composta por pessoas ligadas ao setor cultural, especialmente do teatro e poesia. Parte da intelectualidade e da imprensa também se organizavam ali. E havia os partidos de esquerda — PDT, PCB, PV e mais tarde o PT. A insatisfação estava nas camadas mais populares, mas também na classe média — composta por comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais —, fazendo o movimento tomar corpo e vislumbrou-se uma candidatura ao executivo municipal.

Entre os personagens, um jovem despontava: Anthony Garotinho. Oratória sofisticada, ambição e ligação partidária efetiva no PDT, avalizada por Leonel Brizola. Em 1986, Garotinho elegeu-se deputado estadual, já sendo uma figura conhecida do rádio na cidade, onde, na emissora Cultura, disputava com outro nome conhecido dos dials, Barbosa Lemos.

O movimento Frente Campos passou a se denominar “Muda Campos”, em março de 1988. Naquele ano, Garotinho conseguiu, pelo PDT, homologar sua candidatura a prefeito de Campos, tendo o médico Adilson Sarmet como vice. Estava formada uma confluência de fatores e forças políticas que possibilitaria romper com velhas oligarquias.

Apesar dos inúmeros candidatos que concorreram às eleições municipais naquele ano, a polarização estava bem delimitada: Garotinho, como representante da classe média, de grupos emergentes na política local, como os jovens e intelectuais, e como já apontado, os “homens e mulheres de cultura”.

Garotinho conseguiu discursar em nome do “povo” e se aliar a setores de mando local, com poder financeiro. O outro lado era composto pelo poder político de Zezé Barbosa, que apoiou Jorge Pereira Pinto. A narrativa eleitoral criou o “inimigo” popular, associando o atraso da cidade com o “poder de usina” e as antigas oligarquias rurais campistas.

O início do garotismo
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT.
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT. / Arquivo
Anthony Garotinho foi eleito prefeito de Campos em 3 de outubro de 1988, com pouco mais de 30% dos votos válidos. Boa parte desses votos foi dada pela imagem construída do “novo” e pela cultura como plataforma política.


Um dos eventos mais traumáticos de Campos — a demolição do cine-teatro Trianon — foi atribuído ao prefeito anterior, derrotado no pleito. O teatro-cinema foi a principal diversão de várias gerações de campistas e a demolição do símbolo Trianon estava engasgada, precisando achar culpados. Zezé Barbosa foi acusado de complacência, e Garotinho conseguiu centralizar nele a ideia de uma “política cultural mais democrática”, tendo como uma das primeiras medidas reativar o Teatro Trianon.

A luta pelo renascimento do Trianon e as críticas à sua demolição já estavam na sociedade campista, mas Garotinho conseguiu capitalizar a pauta, e sua origem no teatro amador e no rádio o ajudou bastante nessa empreitada. E mais: a cultura era vendida como forma de aproximação popular e democratização de acesso.

Neste sentido, junto com uma pluralidade de personagens ligados ao teatro amador, à intelectualidade e à cultura de modo geral, deu-se o significado histórico sociológico da eleição de Garotinho, que ajudou sobremaneira a legitimar seu poder e dar representatividade ao “povo” e à classe média.

E não se limitava ao Trianon. Em conjunto com a ideia brizolista de fortalecimento da educação e da cultura, entre os planos locais estavam reativar o carnaval campista,
promover “grandes bailes para o povo”, democratizar a festa de São Salvador como atração turística, entre outras iniciativas.
Poder, Campos como a anti-capital e os royalties
A cidade que ajudou a eleger Garotinho em 1988 queria romper com a velha Campos. Ou, ao menos, com a imagem dela: a Campos dos usineiros, do mando tradicional, da política envelhecida e dos círculos fechados de poder. Havia ali um bafejo de redemocratização, um impulso de participação e uma crença — talvez sincera, talvez ingênua — de que seria possível reorganizar a cidade a partir de novas energias sociais.

Não por acaso, já no primeiro governo, em 1991, seria instituído o Plano Diretor do município, no contexto mais amplo da redemocratização brasileira e da nova centralidade adquirida pelos municípios após a Constituição de 1988. Uma nova urbanidade também se construía.

A Campos que começava a se redescobrir, com um importante ciclo econômico em decadência — do açúcar — sofre um baque nos anos 1980: o dinheiro fácil. No início do século XXI, Campos entrava em outro ciclo econômico, agora sob o signo do petróleo. E a promessa, desta vez, era maior, pois não se tratava apenas de riqueza agrícola ou comercial, mas de uma renda extraordinária, potencialmente capaz de promover mudanças estruturais e institucionais na cidade e na região. Campos liderou por anos o ranking dos maiores recebedores de royalties do país. Em 2005, sozinha, recebeu R$ 670,1 milhões, o equivalente a 24,19% de todas as rendas petrolíferas municipais distribuídas no Brasil naquele ano.
 
Usina do Limão
Usina do Limão / Arquivo


Entretanto, o poder local optou por sequestrar as rendas petrolíferas, sem se preocupar com projetos consistentes de desenvolvimento regional nem justiça intergeracional. O populismo foi a tônica escolhida, com alguns hiatos na gestão de Arnaldo Vianna e no segundo governo Rosinha Garotinho, onde algumas obras estruturais urbanas foram entregues.

Politicamente os movimentos foram direcionados ao Estado. Constituída como a principal cidade do Norte e Noroeste Fluminense, Campos sempre foi uma vitrine importante e serviu para que os políticos locais buscassem o poder estadual. O próprio Garotinho foi governador do Rio, elegeu sua esposa, Rosinha, e foi candidato à presidência da República, ficando em terceiro lugar.

Campos, por essas características, funcionou como uma espécie de “anti-capital”. Não tinha a importância e contingente populacional para ser capital do Estado, mas buscava sempre aproximação com esse lugar simbólico. Por sua vez, a capital sempre viu o interior com preconceito e distanciamento — sentimento que, em larga medida, se concentrava na maior cidade do interior: Campos.
O açúcar histórico
A prosperidade econômica de Campos não se constituiu historicamente apenas num centro municipal-regional, mas sim em um polo econômico importante ainda no Império, que se desenvolveu continuamente com a concentração das usinas, exercendo, por esse potencial do setor açucareiro, a função de capital.

Com o advento do Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, criado em 1933, essa centralidade foi reforçada, fazendo de Campos um dos principais centros produtores de açúcar do país. A Usina São José, por exemplo, ocupava o quarto lugar dentre as maiores usinas do Brasil.
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz / Arquivo


Mas o mesmo sistema que deu sustentação ao açúcar campista também ajudou a criar dependências. A proteção estatal — as cotas e a regulação do IAA — permitiram a sobrevivência por algum tempo de estruturas que, em muitos casos, envelheceram sem modernização compatível. Quando o setor passou pela desregulamentação e o IAA foi extinto em 1990, o choque foi profundo. O decreto de Collor transferiu as atribuições do instituto e marcou a passagem de um ambiente subvencionado para outro, mais exposto à lógica de mercado.

A literatura acadêmica sobre o Norte Fluminense é relativamente convergente nesse ponto. O declínio das usinas campistas não decorreu de uma causa única, mas de um acúmulo de fragilidades: baixa produtividade agrícola, parque industrial envelhecido, alto endividamento, dificuldade de modernização tecnológica, perda de competitividade diante do Centro-Sul, competição por matéria-prima, capacidade ociosa crescente e desorganização após a desregulamentação dos anos 1990. Enquanto outras regiões ganharam escala, tecnologia e integração logística, boa parte do parque sucroalcooleiro campista perdeu mercado e fechou unidades.
A situação ficou ainda mais contraditória porque a decadência do açúcar coincidiu, em larga medida, com a ascensão das receitas petrolíferas. Porém, em vez de a crise do primeiro ciclo servir como alerta para a necessidade de diversificação econômica e planejamento de longo prazo, a abundância dos royalties acabou amortecendo a urgência da reinvenção.

Isso também aparece em estudos locais: a renda do petróleo não foi convertida, de forma estrutural, em uma nova base econômica capaz de substituir com consistência a velha centralidade sucroalcooleira.
Royalties e a volta do usineiro

Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho.
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho. / Foto: César Ferreira

Na última quinta-feira (2), Campos dos Goytacazes tem um novo prefeito. Após a renuncia do atual, Wladimir Garotinho, para concorrer nas eleições deste ano, quem assume é o vice, Frederico Paes. Ele é engenheiro agrônomo, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) e figura diretamente vinculada ao setor canavieiro da região e ex-diretor do Hospital dos Plantadores de Cana. Sua posse devolve ao centro do poder municipal um nome associado, de modo explícito, ao universo do açúcar.

O garotismo nasceu, em 1988, como linguagem de ruptura contra a cidade do mando tradicional, das oligarquias locais e do “poder de usina”. Décadas depois, entrega a Prefeitura a um homem do açúcar. Não se trata de dizer que Campos voltou intacta ao passado; a história não é tão simples. Mas a imagem é eloquente, e talvez represente uma ruptura que envelheceu.

Por isso a ascensão de Frederico Paes pode ser lida menos como retorno puro e simples do passado e mais como um evento que mostre uma cidade que um dia gritou contra os usineiros, e ainda não conseguiu produzir, em plenitude, uma alternativa duradoura às suas velhas formas de conciliação entre riqueza, poder e sobrenome, e que precisa aprender a se reconciliar.

Talvez este seja o momento para isso, sobretudo diante do julgamento que o STF pautou para 6 de maio sobre duas ações que discutem as regras de distribuição dos royalties do petróleo no país. A depender do resultado, Campos poderá ser chamada, mais uma vez, a repensar sua história, seu presente e, principalmente, seu futuro.
 
MATIAS, Glauber Rabelo. Os donos da cultura: uma análise sociológica sobre o campo das políticas culturais em Campos dos Goytacazes/RJ (1989-2013). Trabalho apresentado no XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, Porto Alegre, 2015.
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Da cana ao Guanabara: a vocação política de Campos sempre com olhos para a capital
25/05/2025 | 06h22
Reprodução
Campos dos Goytacazes foi uma vila importante do Império, e depois, em 1835, uma cidade importante para a província do Rio de Janeiro. A importância econômica e política era tamanha que houve chances reais de Campos ser a capital — a “civilização do açúcar”, como definiu Alberto Lamego, era uma terra próspera e lutava por reconhecimento regional e nacional.

Mas os ventos políticos sopraram para outro lado. O mesmo Decreto que criou a província do Rio de Janeiro, deu nascimento à cidade de Campos dos Goytacazes, mas transferiu a capital para Niterói (o Rio era a capital do Brasil). Campos, que já havia pertencido ao Espírito Santo, perdeu a disputa pela centralidade da província fluminense por vários fatores, mas a ausência de representação na Assembleia não estava entre eles.

Até a República (1889), os representantes de Campos eram maioria no legislativo provincial. O Brasil que nascia a partir do fim do Império passou por transformações econômicas, sociais e políticas significativas e Campos foi perdendo espaço para outras regiões do Estado, como o Vale do Paraíba (pela produção de Café) e pelo entorno urbanizado do Rio de Janeiro, que se mantinha como capital do país.
E Campos?
Niterói se manteve como a capital do Estado até a fusão do Estado da Guanabara com o Rio de Janeiro, em 1975 — A cidade-estado da Guanabara surgiu como solução política após a transferência da capital para Brasília, ainda sob o governo Juscelino Kubitschek, para manter o Rio de Janeiro como território autônomo. E Campos?

Em todos os movimentos que o Estado do Rio de Janeiro passou na combalida história brasileira, desde 1808, quando a chegada da Família Real lusitana desembarcou em terras fluminenses, Campos foi figura de proa. Já era uma vila economicamente importante, tinha condições geográficas interessantes e construía sua urbanidade. A questão parece ser que Campos sempre esteve no papel de fornecedora da capital. Fornecia açúcar, água, recursos humanos e servia de entreposto. Servia para suprir, mas não para comandar.
Marc Ferrez. Ilha de Boa Viagem, c. 1880, Niterói, Rio de Janeiro / Acervo IMS

Diferente de outros estados, como São Paulo, o interior do Rio não passou por um processo de industrialização robusto. As usinas campistas pararam no tempo, e as cidades menores do norte e noroeste fluminenses não se desenvolveram para formar zonas industriais e comerciais importantes. Os olhos do Rio sempre estiveram voltados para a capital e seu entorno imediato.

Politicamente pelo menos, Campos, apesar de ter perdido a chance de ser capital do Estado, nunca deixou de tentar reassumir algum protagonismo político. Essa ambição se reconfigurou ao longo do tempo: deixou de ser uma disputa territorial e tornou-se uma busca por influência no tabuleiro do poder fluminense. No final dos anos 1990, o então deputado federal Anthony Garotinho venceu a disputa pelo Palácio Guanabara e levou com ele a esperança de que Campos, enfim, ocupasse um centro de decisões. O governo Garotinho, com todas as suas polêmicas, tentou conferir alguma relevância ao interior, mas acabou se rendendo à capital e ao enorme colégio eleitoral da baixada.

Agora, mais de duas décadas depois, a cidade assiste ao possível avanço de outro nome de seu território rumo ao governo estadual. Rodrigo Bacellar, atual presidente da Alerj e figura de articulação hábil, aparece como candidato natural ao Palácio Guanabara. A história se repete, mas em outro tempo. Bacellar representa uma nova geração, mais pragmática e menos simbólica, que aposta no poder por meio da governabilidade, não da retórica. Se chegar ao cargo, será legítimo perguntar: o que isso significará para Campos?

Talvez, diferente do que se imaginava no século XIX, o poder político não precise mais de sede geográfica, mas de projetos que incluam de fato o interior fluminense. A cidade que já sonhou em ser capital talvez deva hoje sonhar em não ser apenas um feudo eleitoral. Afinal, se a história não soube premiá-la com a capitalidade, ainda pode ensiná-la a exigir centralidade nos rumos do Estado.
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Sem ódio no ar
28/04/2024 | 06h34
Dois personagens da política campista foram ao programa Folha no Ar, da FolhaFM 98.3, neste mês de abril. No último dia 6, Anthony Garotinho concedeu uma entrevista onde falou sobre diversos assuntos, e revelou que se encontraria com um histórico adversário, Arnaldo Vianna, logo após o fim do programa.


Nesta sexta-feira (26), o presidente da Câmara de Vereadores, Marquino Bacellar, também concedeu uma entrevista, onde falou sobre os embates passados com o Executivo, e a futura disputa eleitoral de 6 de outubro, onde seu grupo político enfrentará o favoritismo atestado em pesquisas de Wladimir Garotinho.

Ambos personagens, Anthony e Marquinho, são conhecidos pela veemência nos posicionamentos, muitas vezes com ataques duros aos adversários, usando palavras fortes e apelidos no mínimo jocosos. Porém, nas entrevistas concedidas, eles mantiveram um tom mais sereno e mais ponderado, inclusive ao falar de seus adversários.

Nas entrevistas, o alívio no tom não se confundiu com a ausência de críticas. Elas estavam lá, os dois não se abstiveram de dizer o que pensam sobre o jogo político campistas e os outros personagens que o compõe. Mas elas foram feitas atendo-se a questões políticas, essencialmente, sem ataques pessoais ou familiares.

Como ainda eram ali as personas políticas que fazem questão de cultivar, houve momentos de posições mais malcriadas sobre os adversários, e ironias inevitáveis foram ditas. Mas sempre acima da “linha da cintura”.

Em tempos de polarização afetiva na política nacional, e discursos de ódio nas redes sociais, Garotinho e Bacellar conseguiram levar ao Folha no Ar um tom surpreendentemente ponderado nas análises que fizeram. Mesmo em ano eleitoral, mantiveram-se em uma postura de negação a forma de fazer política com ataques pessoais. Ponderaram, ou pelo menos demonstraram ponderar, que talvez seja o momento de não esticar a corda, de disputar apenas na arena eleitoral e política, sem agressões, mesmo contra grupos antagônicos.
As surpresas positivas em relação aos dois personagem deram-se pelo histórico de suas atuações, e de seus grupos políticos, mas também aconteceram por vivermos em um momento em Campos, no Brasil e no mundo do contrário. O estímulo ao ódio e as agressões oferecem de volta muitas curtidas e comentários em redes sociais, assim como engajam a claque, tornando a tentação de políticos assim agirem muito grande. E o Folha no Ar poderia ter sido um espaço onde isso fosse aproveitado. Mas não foi.

Talvez o programa da FolhaFM não reflita a realidade vista na atuação política dos mesmos personagens daqui para a frente. Talvez as eleições, quando a campanha começar de fato, impeça que climas elevados e de diálogo respeitoso voltem a acontecer. Mas o Folha no Ar deixou dois exemplos, através das entrevistas de Garotinho e Bacellar, que é preciso promover espaços onde os políticos façam de seus ofícios algo condizente com a convivência democrática e pacífica.
Campos não é, e nem pode ser, uma cidade fria politicamente. Oposição e embates políticos não são apenas naturais, são necessários para que o sistema democrático seja vivenciado em plenitude. Mas não se pode normalizar a agressão, mesmo verbal, no fazer político e no convívio social.

Todos saem ganhando com mais democracia. E o jornalismo cumpre um papel fundamental em mostrar que esse jogo só deve ser jogado com respeito e sem ódio, onde não se perca a capacidade de dialogar, mesmo com os opostos.

A política campista não pode dispensar os adversários, mas não precisa de inimigos. A Folha e a cidade agradecem.
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A cultura, o teatro, o Arquivo e os Garotinhos
17/12/2021 | 08h27
A primeira vitória política de Anthony Garotinho em Campos foi graças a uma plataforma essencialmente cultural. Eleito prefeito da cidade em outubro de 1988, aos 28 anos, recebera 30% dos votos válidos, desbancando uma oligarquia tradicional da cidade. Em 1983, como um jovem candidato a vereador claramente de esquerda, não venceu. Viria pelo PT. Para ser eleito, se filiou ao PDT, e foi o líder de um movimento que começa com o nome de “Frente Campos”. De 83 a 88 a memória de uma demolição construiu, paradoxalmente, o nome de Garotinho.
Não corro risco em afirmar que Garotinho venceu aquela eleição pelas mãos do “setor cultural” de Campos. Mais especificamente do teatro amador, que no início dos anos 80 fez nascer o “Grupo Abertura”, revelando nomes que ficariam conhecidos da cena política campista. Fernando Leite, Rosinha Garotinho, Sérgio Mendes e o próprio Anthony. Todos foram abrigados no PDT, e queriam lutar contra uma elite campista que eles consideravam atrasada, representada pelo prefeito da ocasião, Zezé Barbosa.
De fato o poder estava concentrado nas mãos de grandes produtores rurais, ligados ao setor sucroalcooleiro, e de comerciantes. Zezé Barbosa acumulava três mandatos. Carregava consigo o perfil do coronelismo típico, usando o poder econômico e exercendo o poder local de forma personalista e autoritária. Mas o Brasil estava mudando. A ditadura militar instalada em 1964 ia aos poucos cedendo espaço para a abertura democrática. Uma “Nova República” se instalava nos anos 1980. Mas não sem sangue, suor e lágrimas.
O teatro era o palco comum de engajamento político contra a ditadura, não só em Campos, como em várias partes do país. As peças teatrais eram a forma de criticar, com arte, o regime. A ruptura para um modelo mais democrático e moderno em Campos foi proposto pelas mãos de um grupo de teatro amador, que trazia no título de uma peça, escrita por Garotinho e Fernando Leite, em 1983, o recado que queria passar: “Precisa Acontecer Alguma Coisa”. E aconteceu.
O Trianon — de antes e de hoje — como elemento de poder
A economia açucareira sustentava uma identidade campista elitizada que passava tardes no Café High-Life, passeava pela Praça São Salvador, sabia das notícias pelo largo da imprensa e Boulevard do Comércio, — e ia ao teatro. O Orion e o Trianon traziam espetáculos de ópera, canto lírico e estavam entre os grandes espaços culturais do país. Ao longo do século XX o teatro era um elemento central que identificava uma elite financeira e intelectual da cidade.
Até que em 26 de junho de 1975 o Teatro Trianon veio ao chão. Um dos mais belos espaços de cultura do Brasil estava destruído para dar lugar a uma agência bancária. Demolido com a cumplicidade e “insensibilidade política e cultural” do prefeito Zezé Barbosa.
Antigo Trianon
Antigo Trianon
Aquilo teria afetado muito, e não apenas a elite financeira de Campos. Os escombros do Trianon passaram a ser um símbolo político que fortaleceria a oposição, que lutava conta o sucateamento da cultura e pela elitização dos espaços. E escandalizou a intelectualidade da época.
O grupo que simbolizava a cultura popular e buscava a modernização, pela via do progressismo, estava no “Abertura”, de Garotinho. Zezé Barbosa carregaria uma culpa histórica pela demolição de um símbolo campista, o que certamente levou a um sentimento crescente de renovação. E erguer um novo Trianon estava entre as propostas desse sentimento.
O início da “nova república campista” com Garotinho
A “Frente Campos” passa a se chamar “Muda Campos”, unindo o teatro amador, professores, intelectuais e a classe média campista em torno do seu projeto político. Anthony Garotinho, pelo PDT, coligado com partidos de esquerda, escolhe um representante da classe médica para ser seu vice, e de quebra leva o PSB. Adilson Sarmet traria à chapa a segurança que Garotinho precisava para romper o preconceito com o progressismo, existente ainda hoje em uma cidade conservadora com Campos.
Garotinho e Rosinha nas primeiras campanhas, em Campos. Foto: Acervo O Globo
Garotinho e Rosinha nas primeiras campanhas, em Campos. Foto: Acervo O Globo
Garotinho, de forma muito habilidosa, traz para a campanha os elementos que o fizeram vencer. Todos, satélites de um projeto de cultura popular. A praça, o povo, o teatro, a rua, o carnaval. Garotinho estava prometendo democracia, cultura e participação popular, e atendia a elite financeira prometendo retomar a “Campos do Trianon”. E ganhou a disputa.
Para entender melhor essa ruptura, trago à conversa o ecohistoriador Arthur Soffiati, que estava lá, e viveu aquele momento histórico de perto.
“O governo de Zezé não se interessava por cultura. Eu trabalhei 18 meses com ele e posso afirmar isso. Contudo, ele contou com dois nomes fundamentais para a cultura: Amaro Prata Tavares e Diva Abreu, que fizeram o possível pela cultura. Eu diria que trabalhei 18 meses na estrutura da cultura municipal e dela saiu apenas a Casa de Cultura José Cândido de Carvalho e o Prêmio Alberto Ribeiro Lamego. Tudo foi esquecido e perdido. Ainda bem que guardei cópia. Pretendia-se democratizar a cultura, atendendo todos os setores da produção e horizontalizá-la, criando casas de cultura no interior”, disse Soffiati.
A estratégia estava certa. A modernização, descentralização e abertura popular da cultura, e da identidade campista, já estavam em curso pelas mãos de gente competente e compromissada, como Diva e Arthur. Mas, a insensibilidade do prefeito não permitiu que acontecesse, e seu atraso custou a sua cadeira.
O ‘Garotinho’ de hoje
Não corro risco  (novamente) de errar, em afirmar que Garotinho hoje é o maior político de Campos desde Nilo Peçanha. Após seu primeiro mandato como prefeito, foi Deputado Federal eleito com a maior votação já registrada para o cargo no Estado do Rio, governador, e recebeu mais de 15 milhões de votos para presidente. Não é uma questão de avaliação qualitativa do político Garotinho; são os fatos.
Em Campos, Garotinho deixou sucessores, produziu aliados e muitos inimigos. Dois de seus filhos estão na vida política com relativo sucesso. Clarissa, atualmente Deputada Federal, e Wladimir, que segue o legado como prefeito.
Wladimir Garotinho, por ironia ou consequência do destino, venceu o neto de Zezé Barbosa, Rafael Diniz. A cultura não estava no centro das discussões. A economia falava mais alto. Mas alguns centros culturais estavam em destaque, como a promessa não cumprida de Diniz em entregar o Palácio da Cultura. Nas palavras de Soffiati, Rafael “nada fez; pelo contrário, abandou a cultura em nome do saneamento financeiro”. O que confirma o que costuma dizer o jornalista Aluysio Abreu Barbosa: “cultura não elege, mas retira voto”.
Arquivo, ‘Trianon’ de hoje
O teatro, por infelicidade do destino, deixou de estar no centro da cultura e identidade de Campos. Embora o “novo Trianon” tenha sido erguido, com o depósito de um milhão de dólares conseguido por garotinho em 1989 junto ao banco que “demoliu” o Trianon antigo, ele pouco recebe espetáculos.
Talvez o Trianon de hoje seja o Arquivo Público. Instalado na construção mais antiga de Campos, o Solar do Colégio, na baixada, vem recebendo atenção da sociedade campista e da intelectualidade. Instrumento essencial para salvaguardar a memória e história de toda região, o Arquivo se firmou como o principal equipamento cultural da cidade.
Fundado 2002, por meio de uma parceria com a Uenf, supervisionada pelo Arquivo do Estado (APERJ), Lei Municipal do vereador Edson Batista e viabilizada pelo então governador Anthony Garotinho, o Arquivo de Campos foi considerado o 5º melhor do país, e vem recebendo atenção do meio acadêmico e da imprensa campista.
A exposição que vem recebendo e o trabalho de excelência desenvolvido pela equipe da instituição, fizeram com que o atual prefeito Wladimir o escolhesse para receber 20 milhões (Folha1) em um acordo com a Uenf e Alerj (pelas mãos do deputado Bruno Dauaire e do presidente da Casa, André Ceciliano). O dinheiro será utilizado no restauro do Solar e consequente uso do espaço pelo Arquivo, com instalação de projeto para digitalização do acervo, e de acessibilidade à sociedade campista.
Wladimir talvez tenha cumprido a missão e desejo que todo pai responsável deseja ao filho. Pelo menos no “setor cultual” vem demonstrando que superará o pai, que teve recursos abundantes pelos tempos áureos dos royalties. Com uma “tacada só” deverá não apenas impedir que o Arquivo viesse ao chão, como entrega-lo em plenas funções a Campos, e por muito tempo, sem gastar recursos da municipalidade.
Muito ainda precisa ser feito, na cultura, na economia, no social, na infraestrutura, e tantos outros setores do município. Muito poderia ter sido feito em governos anteriores. Mas superar velhas oligarquias é um passo importante e essencial, mesmo (ou principalmente) se elas forem próximas o bastante para virem de um pai. Que seja novamente pela cultura!
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

edmundosiqueira@hotmail.com