Vorcaro, Bets e Gatsby: o sonho brasileiro de neon
14/04/2026 | 19h01
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A primeira vez que li O Grande Gatsby — o romance clássico de F. Scott Fitzgerald sobre o sonho americano — ele não me impressionou imediatamente. Trata-se de uma narrativa curta, de aparente simplicidade, mas de grande potência literária, que expõe o brilho e o vazio da sociedade americana dos anos 1920. Aquilo me parecia distante da realidade brasileira.

Por aqui, nos anos 20, ainda se iniciava a modernização das capitais, enquanto o interior permanecia essencialmente agrário e atolado no analfabetismo. O poder e o dinheiro concentravam-se em oligarquias políticas e empresariais que, em regra, comportavam-se com discrição. Era o chamado old money, vindo de famílias que acumulavam uma considerável quantia de patrimônio que deixavam algumas gerações nascidas em berço de ouro.

Poster do filme inspirado no filme 'Gatsby'.
Poster do filme inspirado no filme 'Gatsby'. / Reprodução
O livro de Fitzgerald, portanto, parecia distante do Brasil. Parecia. Hoje, em 2026, já não faltam Gatsbys tropicais. Joesley e Eike Batista são alguns exemplos recentes. E a bola da vez, entre os bilionários envolvidos em negócios nebulosos, é o banqueiro Daniel Vorcaro.


Vorcaro expôs de forma violenta duas predileções que o brasileiro tenta negar em sua gênesis e em seu comportamento ao longo dos tempos: a valorização da esperteza ilícita e a complacência com a promiscuidade entre poder público e empresariado. Ainda nesta última semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) disse ter ouvido da Polícia Federal que deputados recebiam mesada do jogo do bicho. Para espanto de pouquíssimos brasileiros.

A questão é que o brasileiro se acostumou a ver a contravenção e a falcatrua como parte do jogo. “Todo mundo sabe que é assim”, e ponto. Se olharmos para o jogo do bicho, podemos perceber a essência desse modo brasileiro de encarar as coisas. O bicho está em cada esquina, todos sabem onde se joga, a polícia sabe onde são os pontos, os lucros da atividade financiam assassinatos e escolas de samba quase com a mesma intensidade e visibilidade, e se convive perfeitamente bem com isso. É ilegal, mas “todo mundo sabe que existe”.

O jogo do bicho e as bets — apostas esportivas eletrônicas — são o “divertimento” de grande parte dos brasileiros. As bets têm sua porção legal, normatizada por legislação federal, mas são a porta de entrada para uma jogatina desenfreada que gera diversos problemas. É a promessa de dinheiro fácil que passa a sensação que o esperto se dá bem enquanto um incauto perde. Mas é a “casa” que sempre ganha.

Em sua face mais especulativa, o mercado financeiro tampouco se distancia muito da lógica da jogatina. É dinheiro mudando de mãos e gerando lucros exorbitantes com a mera movimentação de papéis. Não se produz, há ganho com movimentação financeira e com aposta. Vorcaro sintetiza esse homem do mercado financeiro que fez fortuna especulando e apenas movimentando capital.

Vorcaro se assemelha a Gatsby, sobretudo, na extravagância de suas festas. Mas há uma diferença decisiva de motivação. Enquanto o personagem de Fitzgerald buscava impressionar a mulher amada, que antes o rejeitara por sua pobreza, o banqueiro brasileiro parecia ostentar por uma necessidade bem mais cafona: a de parecer rico para continuar poderoso, desejado e socialmente intocável.
Uma das festas de noivado de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, com Martha Graeff, em novembro de 2024, na Villa Adriana, em Roma
Uma das festas de noivado de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, com Martha Graeff, em novembro de 2024, na Villa Adriana, em Roma / Reprodução


Vorcaro, ao menos pelo que veio à tona, parece pertencer ao mundo das relações convertidas em ativo, do luxo extravagante e da intimidade com o poder tratada como investimento. Nas conversas extraídas de seu WhatsApp, divulgadas nas investigações, o brasileiro viu com curiosidade quase mórbida um homem que mantinha belas amantes, torrava cifras obscenas em festas privadas e cultivava trânsito entre políticos, autoridades e figuras do topo da República.
Gatsby ainda sonhava com a luz verde (a casa de sua amada, vizinha a sua, emanava uma luz verde que servia de símbolo de conquista para ele). O seu primo tropical preferiu o neon.

Bets supremas

A declaração no Supremo sobre a mesada do bicho é vista com a mesma naturalidade trágica da disseminação das bets. O presidente Lula disse recentemente que “por ele”, as bets acabavam. A questão é que há um mercado já consolidado que se fortaleceu por omissão e é de difícil combate quando alcançou o tamanho atual.

O mesmo STF que, pela voz de Gilmar Mendes, condena a mesada do bicho, passa por forte desgaste insitucional, com ministro andando em jatinho de investigado e o escritório de advocacia da esposa de outro recebendo milhões do mesmo Vorcaro.

A mensagem que o país passa para seus próprios conterrâneos é que essa é uma terra onde tudo pode ao “esperto” e apostar alto, mesmo que de forma ilegal, pode garantir poder e uma vida de luxos. Em outros episódios de corrupção generalizada, sempre houve instituições que permaneceram como alternativas ilibadas para a contenção. Hoje, o Supremo atravessa talvez sua pior fase, e qualquer controle que tente exercer sobre ilegalidades será, inevitavelmente, questionado.

O problema do Brasil não são apenas as bets, nem apenas Vorcaro, nem apenas o bicho, nem apenas o Supremo em sua hora mais opaca. O problema é mais fundo: trata-se de uma cultura que há muito deixou de condenar a esperteza quando ela vem acompanhada de cifra alta, champanhe, autoridade por perto e aparência de sucesso.

Lula se insurge contra as bets quando elas já corroem famílias inteiras; o STF condena o jogo ilegal enquanto também sofre o desgaste de sua própria promiscuidade periférica; e o país assiste a tudo com a velha resignação de quem repete que “sempre foi assim”. Fitzgerald imaginou um homem perseguindo uma luz. Nós construímos uma sociedade fascinada pelo brilho. E, entre a luz verde de Gatsby e o neon brasileiro, talvez esteja a diferença entre um sonho trágico e um vício nacional.
 
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Do grito contra os usineiros ao acordo com o açúcar
06/04/2026 | 20h45
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes / Foto: César Ferreira


O ano era 1988. O Brasil finalizava as extensas — e propositalmente graduais — negociações para um novo período democrático, com a promulgação de nova Constituição e a realização de eleições diretas em todo o país. Em Campos dos Goytacazes, iniciava-se um processo que iria determinar a história local, definindo não apenas um novo rumo político, mas também redesenhando as relações sociais da cidade.

Havia naquele período um movimento denominado “Frente Campos”. A mobilização tinha claras ambições políticas, e nascia de um sentimento quase palpável de insatisfação popular com os governos municipais ligados às elites campistas de então, principalmente ao setor sucroalcooleiro.

A tal “frente” era composta por pessoas ligadas ao setor cultural, especialmente do teatro e poesia. Parte da intelectualidade e da imprensa também se organizavam ali. E havia os partidos de esquerda — PDT, PCB, PV e mais tarde o PT. A insatisfação estava nas camadas mais populares, mas também na classe média — composta por comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais —, fazendo o movimento tomar corpo e vislumbrou-se uma candidatura ao executivo municipal.

Entre os personagens, um jovem despontava: Anthony Garotinho. Oratória sofisticada, ambição e ligação partidária efetiva no PDT, avalizada por Leonel Brizola. Em 1986, Garotinho elegeu-se deputado estadual, já sendo uma figura conhecida do rádio na cidade, onde, na emissora Cultura, disputava com outro nome conhecido dos dials, Barbosa Lemos.

O movimento Frente Campos passou a se denominar “Muda Campos”, em março de 1988. Naquele ano, Garotinho conseguiu, pelo PDT, homologar sua candidatura a prefeito de Campos, tendo o médico Adilson Sarmet como vice. Estava formada uma confluência de fatores e forças políticas que possibilitaria romper com velhas oligarquias.

Apesar dos inúmeros candidatos que concorreram às eleições municipais naquele ano, a polarização estava bem delimitada: Garotinho, como representante da classe média, de grupos emergentes na política local, como os jovens e intelectuais, e como já apontado, os “homens e mulheres de cultura”.

Garotinho conseguiu discursar em nome do “povo” e se aliar a setores de mando local, com poder financeiro. O outro lado era composto pelo poder político de Zezé Barbosa, que apoiou Jorge Pereira Pinto. A narrativa eleitoral criou o “inimigo” popular, associando o atraso da cidade com o “poder de usina” e as antigas oligarquias rurais campistas.

O início do garotismo
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT.
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT. / Arquivo
Anthony Garotinho foi eleito prefeito de Campos em 3 de outubro de 1988, com pouco mais de 30% dos votos válidos. Boa parte desses votos foi dada pela imagem construída do “novo” e pela cultura como plataforma política.


Um dos eventos mais traumáticos de Campos — a demolição do cine-teatro Trianon — foi atribuído ao prefeito anterior, derrotado no pleito. O teatro-cinema foi a principal diversão de várias gerações de campistas e a demolição do símbolo Trianon estava engasgada, precisando achar culpados. Zezé Barbosa foi acusado de complacência, e Garotinho conseguiu centralizar nele a ideia de uma “política cultural mais democrática”, tendo como uma das primeiras medidas reativar o Teatro Trianon.

A luta pelo renascimento do Trianon e as críticas à sua demolição já estavam na sociedade campista, mas Garotinho conseguiu capitalizar a pauta, e sua origem no teatro amador e no rádio o ajudou bastante nessa empreitada. E mais: a cultura era vendida como forma de aproximação popular e democratização de acesso.

Neste sentido, junto com uma pluralidade de personagens ligados ao teatro amador, à intelectualidade e à cultura de modo geral, deu-se o significado histórico sociológico da eleição de Garotinho, que ajudou sobremaneira a legitimar seu poder e dar representatividade ao “povo” e à classe média.

E não se limitava ao Trianon. Em conjunto com a ideia brizolista de fortalecimento da educação e da cultura, entre os planos locais estavam reativar o carnaval campista,
promover “grandes bailes para o povo”, democratizar a festa de São Salvador como atração turística, entre outras iniciativas.
Poder, Campos como a anti-capital e os royalties
A cidade que ajudou a eleger Garotinho em 1988 queria romper com a velha Campos. Ou, ao menos, com a imagem dela: a Campos dos usineiros, do mando tradicional, da política envelhecida e dos círculos fechados de poder. Havia ali um bafejo de redemocratização, um impulso de participação e uma crença — talvez sincera, talvez ingênua — de que seria possível reorganizar a cidade a partir de novas energias sociais.

Não por acaso, já no primeiro governo, em 1991, seria instituído o Plano Diretor do município, no contexto mais amplo da redemocratização brasileira e da nova centralidade adquirida pelos municípios após a Constituição de 1988. Uma nova urbanidade também se construía.

A Campos que começava a se redescobrir, com um importante ciclo econômico em decadência — do açúcar — sofre um baque nos anos 1980: o dinheiro fácil. No início do século XXI, Campos entrava em outro ciclo econômico, agora sob o signo do petróleo. E a promessa, desta vez, era maior, pois não se tratava apenas de riqueza agrícola ou comercial, mas de uma renda extraordinária, potencialmente capaz de promover mudanças estruturais e institucionais na cidade e na região. Campos liderou por anos o ranking dos maiores recebedores de royalties do país. Em 2005, sozinha, recebeu R$ 670,1 milhões, o equivalente a 24,19% de todas as rendas petrolíferas municipais distribuídas no Brasil naquele ano.
 
Usina do Limão
Usina do Limão / Arquivo


Entretanto, o poder local optou por sequestrar as rendas petrolíferas, sem se preocupar com projetos consistentes de desenvolvimento regional nem justiça intergeracional. O populismo foi a tônica escolhida, com alguns hiatos na gestão de Arnaldo Vianna e no segundo governo Rosinha Garotinho, onde algumas obras estruturais urbanas foram entregues.

Politicamente os movimentos foram direcionados ao Estado. Constituída como a principal cidade do Norte e Noroeste Fluminense, Campos sempre foi uma vitrine importante e serviu para que os políticos locais buscassem o poder estadual. O próprio Garotinho foi governador do Rio, elegeu sua esposa, Rosinha, e foi candidato à presidência da República, ficando em terceiro lugar.

Campos, por essas características, funcionou como uma espécie de “anti-capital”. Não tinha a importância e contingente populacional para ser capital do Estado, mas buscava sempre aproximação com esse lugar simbólico. Por sua vez, a capital sempre viu o interior com preconceito e distanciamento — sentimento que, em larga medida, se concentrava na maior cidade do interior: Campos.
O açúcar histórico
A prosperidade econômica de Campos não se constituiu historicamente apenas num centro municipal-regional, mas sim em um polo econômico importante ainda no Império, que se desenvolveu continuamente com a concentração das usinas, exercendo, por esse potencial do setor açucareiro, a função de capital.

Com o advento do Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, criado em 1933, essa centralidade foi reforçada, fazendo de Campos um dos principais centros produtores de açúcar do país. A Usina São José, por exemplo, ocupava o quarto lugar dentre as maiores usinas do Brasil.
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz / Arquivo


Mas o mesmo sistema que deu sustentação ao açúcar campista também ajudou a criar dependências. A proteção estatal — as cotas e a regulação do IAA — permitiram a sobrevivência por algum tempo de estruturas que, em muitos casos, envelheceram sem modernização compatível. Quando o setor passou pela desregulamentação e o IAA foi extinto em 1990, o choque foi profundo. O decreto de Collor transferiu as atribuições do instituto e marcou a passagem de um ambiente subvencionado para outro, mais exposto à lógica de mercado.

A literatura acadêmica sobre o Norte Fluminense é relativamente convergente nesse ponto. O declínio das usinas campistas não decorreu de uma causa única, mas de um acúmulo de fragilidades: baixa produtividade agrícola, parque industrial envelhecido, alto endividamento, dificuldade de modernização tecnológica, perda de competitividade diante do Centro-Sul, competição por matéria-prima, capacidade ociosa crescente e desorganização após a desregulamentação dos anos 1990. Enquanto outras regiões ganharam escala, tecnologia e integração logística, boa parte do parque sucroalcooleiro campista perdeu mercado e fechou unidades.
A situação ficou ainda mais contraditória porque a decadência do açúcar coincidiu, em larga medida, com a ascensão das receitas petrolíferas. Porém, em vez de a crise do primeiro ciclo servir como alerta para a necessidade de diversificação econômica e planejamento de longo prazo, a abundância dos royalties acabou amortecendo a urgência da reinvenção.

Isso também aparece em estudos locais: a renda do petróleo não foi convertida, de forma estrutural, em uma nova base econômica capaz de substituir com consistência a velha centralidade sucroalcooleira.
Royalties e a volta do usineiro

Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho.
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho. / Foto: César Ferreira

Na última quinta-feira (2), Campos dos Goytacazes tem um novo prefeito. Após a renuncia do atual, Wladimir Garotinho, para concorrer nas eleições deste ano, quem assume é o vice, Frederico Paes. Ele é engenheiro agrônomo, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) e figura diretamente vinculada ao setor canavieiro da região e ex-diretor do Hospital dos Plantadores de Cana. Sua posse devolve ao centro do poder municipal um nome associado, de modo explícito, ao universo do açúcar.

O garotismo nasceu, em 1988, como linguagem de ruptura contra a cidade do mando tradicional, das oligarquias locais e do “poder de usina”. Décadas depois, entrega a Prefeitura a um homem do açúcar. Não se trata de dizer que Campos voltou intacta ao passado; a história não é tão simples. Mas a imagem é eloquente, e talvez represente uma ruptura que envelheceu.

Por isso a ascensão de Frederico Paes pode ser lida menos como retorno puro e simples do passado e mais como um evento que mostre uma cidade que um dia gritou contra os usineiros, e ainda não conseguiu produzir, em plenitude, uma alternativa duradoura às suas velhas formas de conciliação entre riqueza, poder e sobrenome, e que precisa aprender a se reconciliar.

Talvez este seja o momento para isso, sobretudo diante do julgamento que o STF pautou para 6 de maio sobre duas ações que discutem as regras de distribuição dos royalties do petróleo no país. A depender do resultado, Campos poderá ser chamada, mais uma vez, a repensar sua história, seu presente e, principalmente, seu futuro.
 
MATIAS, Glauber Rabelo. Os donos da cultura: uma análise sociológica sobre o campo das políticas culturais em Campos dos Goytacazes/RJ (1989-2013). Trabalho apresentado no XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, Porto Alegre, 2015.
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A melhor forma de destruir a democracia: relativizá-la em tempos de defendê-la
04/04/2026 | 09h08
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Imagem gerada por IA a partir do envio do texto. / Gemini


A democracia é um conceito abstrato. E não apenas isso, trata-se de um acordo, um pacto feito na sociedade que decide adotá-la como modelo, que mesmo depois de pactuado, exige ser constantemente lembrado. Mas a democracia não se sustenta sozinha. Precisa ser constantemente lembrada, reafirmada e defendida. Seria justamente sua abstração um motivo para desistir dela?

A justiça é, do mesmo modo, um conceito abstrato. Não se pode “tocar” a justiça, ela não se materializa no cotidiano e tampouco está no imaginário da sociedade enquanto conceito filosófico. Porém, ela é fundamental para a vida coletiva e muitas vezes suprime liberdades individuais em nome do bem comum. Deve ser entendido como justo alimentar quem tem fome, custear a saúde pública e oferecer educação a todos, assim como punir severamente quem mata ou atua no tráfico de drogas.

A própria Constituição de um país é um compêndio de ideias abstratas. “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”; “ninguém será submetido a tortura”; ou “é livre a manifestação do pensamento”, são conceitos que garantem as materialidades envolvidas nas abstrações legais.

Em termos simples: governo, dinheiro, tribunal, mandato, propriedade e fronteira não são “ilusões”; são fatos institucionais, sustentados por regras constitutivas e aceitação social. Eles não existem como uma pedra existe, mas existem socialmente de modo objetivo o bastante para prender, taxar, casar, condenar, legitimar e governar.

No livro dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem, é explicado que a derrocada democrática na era moderna ocorre de forma gradual, lenta e legal. Portanto, é uma forma de destruir o ordenamento usando as próprias previsões legais. Promove-se a erosão gradual das regras escritas da sociedade —e das não escritas.

Democracia jamais será um valor absoluto — nem pretende ser

Há conceitos que possuem universalidade e partem de uma premissa que devem ser respeitados sob quaisquer circunstâncias. Como o direito à vida, por exemplo. Entretanto, mesmo um direito tão fundamental pode ser relativizado, por exemplo, em tempos de guerra ou em situações de legítima defesa.

A reflexão sobre absolutismos e dogmas sempre será perpassada pelas religiões. Hegel (1770-1831) —filósofo germânico, autor de “Fenomenologia do Espírito” — ensina que a verdade religiosa não é algo separado da razão ou da filosofia, mas sim uma etapa essencial no desenvolvimento do que ele chama de “geist” (espírito). A compreensão de Deus e da realidade se dá através de "representações" (imagens, símbolos e histórias) que buscam uma verdade absoluta, um dogma.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos. / Fonte: Hellenic Organization of Cultural Resources Development


Outros pensadores entendem que há uma distinção clara entre a verdade religiosa e a verdade filosófica, sendo a primeira no campo da fé e da revelação, e a segunda no campo do trabalho da razão. A filosofia se dá em um processo de descoberta e questionamento, enquanto a religião se baseia na aceitação de dogmas.

Portanto, a democracia — que não se pretende absolutista tampouco religiosa — não deve trabalhar com verdades imutáveis; mesmo porque, essa forma de pactuação social é recente no tempo histórico e ainda pouco testada em comparação a modelos anteriores. Ao contrário: a democracia se sustenta em um ordenamento social e legal que deve se adaptar com o tempo, observar os valores éticos e culturais de seu tempo e propor soluções para os conflitos que são contemporâneos a ela.

A democracia deve ser defendida — não por ser absoluta, mas necessária

As relativizações e fraquezas da democracia não podem servir de desculpa para seu abandono. A fragilidade do modelo não se mostra como um atalho para apoiar sua morte gradual, mas, ao contrário, deve ser entendida como uma característica que a difere de modelos absolutistas.

É justamente por isso que a abstração não enfraquece a democracia; ela revela sua natureza civilizatória. Democracia não é um objeto, mas um arranjo normativo exigente. A tradição contemporânea a descreve menos como simples vontade da maioria e mais como um método de decisão coletiva que pressupõe alguma forma de igualdade política entre os participantes. Em outras palavras, democracia não é apenas contar votos; é reconhecer que o poder precisa passar por regras, freios, justificação pública e aceitação do dissenso.

A melhor forma de destruir a democracia, portanto, não é necessariamente negá-la em praça pública. É algo mais sofisticado e mais covarde: relativizá-la enquanto se diz defendê-la. É conservar sua casca retórica e demolir, por dentro, os princípios que lhe dão sentido. Porque a democracia raramente morre apenas quando lhe arrancam o nome. Muitas vezes, ela começa a morrer quando já não se acredita que certas abstrações mereçam ser levadas a sério.
 
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Quem manda no Rio? O Estado e os escombros da soberania
24/03/2026 | 21h10
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O Rio de Janeiro talvez seja o estado mais complexo da federação. Essa complexidade vem de sua história, como elemento vivo que é, mas expõe no presente os absurdos cotidianos vistos como normais. Há lugares em que crises se sucedem e impõem suas consequências. Mas, no Rio, uma crise sistêmica parece ser a única forma de convivência entre cidadãos e os poderes constituídos.

Cai governador, assume interino, afasta-se presidente da Assembleia, desembargador é chamado a ocupar o vazio, e ninguém chega propriamente a se espantar. A renúncia de Cláudio Castro, somada ao afastamento do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, não é apenas mais um episódio exótico de instabilidade fluminense; acaba por ser uma imagem quase didática de um mal mais profundo.

O que se vê não é só a queda de homens; é a instabilidade das instituições, a fragilidade dos modelos de estado que o Rio adota, e a forma de fazer política. Quando nos deparamos com a quantidade de governadores fluminenses presos e afastados, a sequência de episódios de violência da capital e o abandono do interior, o problema já não é apenas moral. É estrutural.

Thomas Hobbes, lá no século XVII, escreveu Leviatã tomado pelo horror da guerra civil. Seu medo não era o mau governante apenas, mas a dissolução da autoridade comum. O Estado, em Hobbes, surge para impedir que a sociedade se despedace em facções, medos privados e violências. “O homem é o lobo do homem”, ele dizia, trazendo a ideia do dramaturgo romano Plauto (c. 254–184 a.C.).

O “soberano”, na visão hobbesiana, seria esse grande corpo artificial capaz de concentrar a força, impor regras e conter o conflito difuso. O Rio de Janeiro, porém, parece oferecer a caricatura tropical e trágica dessa ideia: ali o Leviatã existe, mas existe rachado.

Não se trata de ausência de Estado. O Rio não é um vazio. Há polícia, palácio, tribunal, Assembleia, arrecadação, decreto, operação, licitação, propaganda oficial, solenidade, farda, toga e diário oficial. O problema é outro: o Estado não consegue aparecer, de modo inteiro e estável, como a autoridade final e incontestável diante da qual todas as demais forças se submetem. Ele disputa espaço com facções, milícias, corporações, máquinas partidárias, igrejas, negócios clandestinos e interesses privados incrustados na carne da administração. O Rio não vive sem poder. Vive com excesso de poderes.


Em vez de uma ordem comum, uma superposição de ordens parciais. Em vez da velha e boa separação entre Estado, política, polícia e crime, uma zona turva em que essas esferas, embora não sejam iguais, frequentemente se tocam, se contaminam, se tangenciam ou se aproveitam umas das outras. O resultado é uma vida pública em que a legalidade formal convive, sem grande pudor, com práticas informais de mando, medo, favor e intimidação.

Talvez por isso o Rio seja tão difícil de definir e tão fácil de intuir. Ele é uma espécie de Babilônia fluminense: grandiosa, simbólica, armada, barroca, sedutora e arruinada ao mesmo tempo.

Mas seria raso demais reduzir tudo isso à esperteza dos atores contemporâneos. O Rio não começou ontem. Sua confusão é histórica. Foi capital do Império, capital da República, centro simbólico do país, cidade-corte, cidade-vitrine, cidade-comando. Depois virou Guanabara, uma singularidade federativa parida pela mudança da capital para Brasília. Mais tarde, pela caneta da ditadura, fundiu-se ao antigo estado do Rio em uma operação que resolveu problemas administrativos sem resolver identidades políticas.

O resultado foi um ente federativo com alma partida: de um lado, a metrópole que por muito tempo se pensou o próprio centro do Brasil; de outro, um interior fluminense frequentemente tratado como paisagem auxiliar — curral, em outros termos.

Essa fratura entre Guanabara e interior nunca desapareceu de todo. Foi apenas burocratizada. O estado do Rio, em certo sentido, nunca terminou de coincidir consigo mesmo. Herdou o narcisismo da antiga capital e as práticas oligárquicas do interior — estética de modernidade com entranhas coloniais.

O Rio carrega, de modo hipertrofiado, algumas das heranças mais persistentes do Brasil: colonização predatória, escravidão longa, patrimonialismo, confusão entre autoridade e propriedade, polícia historicamente voltada à contenção seletiva dos de baixo, elites acostumadas a viver muito perto do aparelho estatal. Em tal ambiente, o Estado não se consolida como esfera impessoal; tende a ser visto como extensão de redes pessoais, instrumento de facção ou plataforma de negócios.

Thomas Hobbes
Hobbes ajuda a entender um pedaço disso. Sem uma autoridade comum reconhecida, os homens vivem sob o signo da desconfiança. Não é preciso imaginar monstros metafísicos; bastam instituições frágeis para que homens ordinários ajam como predadores preventivos.


É aí que entra a ideia de Leviatã rachado. O Rio não está sem soberano; está com soberania repartida, infiltrada, concorrente. Grande demais para desaparecer; falho demais para unificar.

Seria confortável atribuir tudo ao presente, como se a última safra de políticos tivesse inaugurado a degradação. Não inaugurou. A era dos grupos dominantes no Rio e em várias partes do estado, inclusive no interior, já vinha sendo marcada por personalismo, uso intensivo da máquina, redes de dependência, lealdades montadas menos sobre programas do que sobre influência, acesso, favor e intimidação simbólica.

Dizer que o Rio “é assim mesmo” seria repetir o pecado de boa parte de suas elites: estetizar a falência. O personalismo, a captura privada do público, a militarização do imaginário político, a desigualdade territorial da cidadania, a naturalização da violência, o uso seletivo da lei — tudo isso existe em outras partes do país. No Rio, apenas ganha forma mais nítida, mais veloz, mais dramática e mais armada. No fundo, a pergunta que o Rio faz ao Brasil é hobbesiana e atual: quem manda, afinal? A Constituição? O governo eleito? O tribunal? A corporação armada? O chefe local? O crime organizado? A milícia? O mercado? A resposta, quando vem embaralhada, já é por si um diagnóstico.

O drama fluminense não é a falta de instituições. É a sua contaminação recorrente. Não é a ausência de Estado. É a sua insuficiência moral e material para se impor como ordem comum. Não é a inexistência de poder. É a sua promiscuidade.

O Rio é um Leviatã rachado: ainda grande o bastante para cobrar, punir e prometer; já fraturado demais para pacificar, representar e mandar sozinho. Um gigante ferido, vestido de cerimônia, cercado de armas, afogado em símbolos, andando cambaleante sobre os escombros da própria soberania.
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Rosas não apagam incêndios
08/03/2026 | 18h47
Imagem gerada a partir do envio do texto, por plataforma de inteligência artificial.
Imagem gerada a partir do envio do texto, por plataforma de inteligência artificial. / Grok
Clara Lemlich nasceu em março de 1886, em Horodok, então território do Império Russo, hoje situado na Ucrânia. Judia, cresceu sob a sombra dos pogroms (significa “devastação” em russo; é uma espécie de perseguição étnica violenta) e das condições de precariedade extrema impostas a sua família.

Segundo registros biográficos, interessou-se ainda jovem pela literatura revolucionária russa e comprava livros às escondidas, com o dinheiro de pequenos serviços, já que os pais desaprovavam aquele tipo de leitura. Em 1903, desembarcou em Nova York por Ellis Island, a “ilha da esperança” que, para milhões de imigrantes, parecia prometer liberdade, trabalho e futuro.

Mas a realidade que Clara Lemlich encontrou não foi exatamente de esperança. Empregada na indústria têxtil nova-iorquina, deparou-se com longas horas de trabalho, baixos salários, insegurança e humilhação cotidiana. Clara logo envolveu-se na luta sindical e se destaca como uma líder improvável e temida. Em 22 de novembro de 1909, discursou no salão da Cooper Union e interrompeu as formalidades cautelosas da instituição e chamou as pessoas para a ação.

Clara Lemlich
Clara Lemlich / Reprodução
O discurso de Clara feito em ídiche (dialeto alemão que incorpora elementos do hebraico) acabou por se concretizar em uma greve geral, a chamada “Revolta das 20.000”, a maior greve liderada por mulheres nos EUA na época, que resultou em melhores condições para trabalhadoras de confecção. Como acontece com muitas mulheres que ousam desobedecer ao lugar que lhe foi reservado, Clara pagou caro por sua coragem. Sofreu agressões, perseguições e prisões.


A luta liderada por Clara Lemlich não é, isoladamente, o que explica o 8 de março como dia internacional de luta feminina. Porém, traz os elementos que o constituem, a genealogia desse dia, um ambiente de sufrágio, socialismo e luta operária feminina. Como todos os movimentos que transformam a história, não possui uma origem única e simples.

Pouco mais de um ano depois, uma das fábricas da Triangle Waist Company sofreu um incêndio devastador, causando a morte de 146 trabalhadores do setor do vestuário — 123 mulheres e meninas e 23 homens —, a maioria imigrantes italianos ou judeus, com idades entre 14 e 23 anos. A fábrica já simbolizava o tipo de exploração que a greve de 1909 havia denunciado, e a tragédia expôs com brutalidade aquilo que o discurso elegante das elites preferia não ver. Embora impactante, o incêndio não criou o 8 de março, como tantas vezes se repete de forma errada, mas se incorporou à memória histórica das lutas femininas e operárias que cercam a data.

8 de março nasce da fuligem e não das rosas

Clara Lemlich, portanto, ajuda a contar uma parte decisiva dessa história, mas não a esgota. No ano seguinte à sua greve, em 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, uma outra Clara, a Zetkin, propôs a criação de um dia internacional de mobilização das mulheres.

As lutas das Claras e de tantas outras mulheres tratava-se de organizar politicamente a luta feminina em torno do sufrágio, do trabalho digno e da igualdade de direitos. O que estava em jogo não era a delicadeza da mulher, mas sua cidadania.
Clara Zetkin
Clara Zetkin / Reprodução


O 8 de março, como se vê, não nasceu da gentileza — nasceu do conflito. Não brotou de uma floricultura, mas da modificadora energia desprendida quando há o choque de injustiças com coragem.

A data ganharia seu marco definitivo alguns anos depois, em 1917, quando mulheres trabalhadoras de Petrogrado — então capital do mesmo Império Russo de Clara Lemlich — saíram às ruas contra a fome, a guerra e a miséria. O gesto, que muitos homens da política consideraram inoportuno, ajudou a precipitar a Revolução Russa.

A manifestação em Petrogrado ocorreu em 23 de fevereiro no calendário juliano usado na Rússia, o que corresponde a 8 de março no calendário gregoriano, usado na maioria dos países. Dias depois da mobilização feminina, o czar abdicou. Não é pouca coisa. Uma data hoje transformada em arranjo floral foi ajudada a nascer por mulheres que abalaram um império. Em 1921, o 8 de março foi oficializado como referência para a comemoração.

A história do 8 de março é áspera demais para caber nas homenagens floridas do presente, mesmo entre frases bem-intencionadas e declarações verdadeiras de amor. Até por estarem mantidas muitas das condições que levaram aos levantes femininos, como salário desigual, o assédio naturalizado, a sobrecarga invisível, a violência doméstica, o feminicídio, a desautorização cotidiana, a exaustão de existir sob permanente cobrança.

O Dia Internacional da Mulher não foi criado para enfeitar o mundo com rosas, mas para lembrar que muitas delas vieram com espinhos, que muitas vezes são o que restou a quem quase sempre precisou florescer em terreno hostil. Se hoje distribuem rosas no 8 de março, convém não esquecer as mãos que sangraram para que elas pudessem ser entregues.

O verdadeiro 8 de março não nasceu em vitrines. Nasceu na fuligem, na greve, na marcha, no panfleto, na fábrica, no sindicato e na rua. Nasceu quando mulheres decidiram que não aceitariam mais o lugar estreito que lhes haviam reservado. O dia das mulheres continua sendo o da luta. As flores podem ficar. Mas que ninguém ouse arrancar os espinhos da memória.
 
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Patrimônio sem povo: a cultura que não atravessa o rio
01/03/2026 | 21h24
 Construída pelos ingleses, de iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha o assoalho de madeira na sua construção (por isso seu apelido "de pau") e a cobrança de pedágio.
Construída pelos ingleses, de iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha o assoalho de madeira na sua construção (por isso seu apelido "de pau") e a cobrança de pedágio. / Reprodução
 
Quando falamos de cultura, em Campos dos Goytacazes, normalmente estamos nos referindo a um setor. Como se “cultura” fosse um guarda-chuva que abriga alguns grupos que pouco se comunicam entre si — e que, não raro, parecem separados da própria cidade. É como se esses grupos lutassem para construir uma identidade coletiva, alijados da coletividade.

Esse afastamento tem várias causas — e não cabe reduzi-lo a um único culpado. Há, sim, a responsabilidade do poder público, que não formula políticas estruturantes para a área cultural. Mas há também, em certos momentos, a postura pedante de quem se reivindica “do setor”. É um erro tentar decretar, de cima para baixo, o que tem ou não valor cultural — ou mesmo histórico. Essas definições nascem das vivências coletivas e, para fazerem sentido, precisam ser orgânicas.

As defesas preservacionistas obedecem a uma lógica não mercadológica: busca-se preservar elementos materiais e imateriais mesmo quando eles não geram lucro. A premissa é simples — há outros valores em jogo na proteção desses bens. E, quando um imóvel é tombado, ele passa, em tese, por avaliações de relevância histórica e cultural.

Em Campos, há bens tombados nas esferas federal, estadual e municipal.

Tomemos, porém, o exemplo do Solar dos Airizes. Há enorme relevância histórica e cultural em um prédio que atravessou o ciclo do açúcar, a escravidão, as grandes fazendas de Campos que funcionavam como núcleos de educação e saúde, entre outras nuances. Além disso, foi residência da família Lamego, que produziu obras fundamentais para compreender a formação de toda a região.

E então vem a pergunta que muitas vezes evitamos encarar: para que, concretamente, serviria sua preservação? Quantas pessoas seriam impactadas por seu restauro? E, uma vez restaurado, qual vocação o imóvel assumiria — que instituição abrigaria, que uso público sustentaria, que projeto o manteria vivo?
Solar dos Airizes, tombado pelo Iphan em 1940.
Solar dos Airizes, tombado pelo Iphan em 1940. / Foto: César Ferreira (PMCG)


Em Campos, essas perguntas seguem sem resposta — por falta de planejamento do poder público, pela baixa iniciativa do empresariado local e, sobretudo, pela dificuldade de transformar patrimônio e cultura em vida cultural de verdade: contínua, diversa, acessível e conectada à cidade.

A ponte de pau: quando o símbolo cede

Neste início de março, Campos atravessa mais uma cheia do Rio Paraíba do Sul. Além das populações ribeirinhas e das fazendas, um patrimônio histórico foi afetado: a “ponte de pau” — ou “ponte do meio” —, cujo nome oficial é Barcelos Martins (veja matéria da Folha aqui).

Foi a primeira ponte erguida em Campos, em 1873, para ligar o distrito de Guarus à chamada “pedra” da cidade. Construída por ingleses, por iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha assoalho de madeira — daí o apelido “de pau” — e chegou a ter cobrança de pedágio.

Nesta cheia, um dos pilares principais cedeu. O estado crítico é visível: pilares deteriorados, desgaste acumulado e sinalização insuficiente. Servindo à passagem de motos, bicicletas e pedestres, a histórica ponte ameaça ruir.
Ponte Barcelos Martins, março 2026.
Ponte Barcelos Martins, março 2026. / Reprodução


Se o Paraíba a levar de vez, será mais do que uma perda material: será o símbolo de uma cidade que não cuida de seus elementos memorialistas — que são também elementos de construção cultural — e que não sabe integrar sua população. Não há mais pedágio para transitar entre as margens do rio, mas persiste um distanciamento social severo.

E isso afeta, diretamente, os projetos culturais e as decisões de uso dos patrimônios materiais.
Um Solar dos Airizes abrigando um museu seria frequentado pela enorme população de Guarus, de Santo Eduardo ou de Ururaí? O público que deveria justificar restauros — e uma exploração comercial responsável do patrimônio — deveria vir justamente de onde historicamente se esteve à margem das iniciativas de restauro, de programação e de acesso.

Mercado Municipal: patrimônio escondido, uso desorganizado

Outro exemplo é o Mercado Municipal: um patrimônio histórico que permanece escondido e desconhecido de parte relevante da população campista. De um lado, uma feira de peixes e legumes feita para ser temporária, mas que dura décadas. De outro, um camelódromo mal planejado, que resolve um problema imediato criando outro de longo prazo.

A proposta de transferir a feira para uma praça subutilizada nos fundos da rodoviária central encontra resistência de alguns desses “grupos culturais” de Campos, que parecem não perceber que o público predominante do Mercado não é do centro, mas sim, em larga medida, de outros distritos. E uma nova localização — se pensada com acesso, infraestrutura e dignidade — atenderia perfeitamente ao funcionamento da feira e ao fluxo de compradores e trabalhadores.

A dicotomia entre “preservar vivências sociais” e “mudar a feira de lugar” não se sustenta quando se observa o conjunto, com a abertura e requalificação do prédio histórico, com um projeto de uso dos espaços. Desde que a mudança seja bem planejada.

Foto: Rodrigo Silveira
Sem transporte, não há cultura sustentável e acessível


O gargalo que une patrimônios históricos, pontes, mercados e iniciativas culturais é o transporte público. Em um município com mais de 4.000 km², transporte é condição elementar para ampliar público, garantir acessibilidade e permitir que “a cidade” exista como tal, com circulação, encontros e direito de acesso.

A estrutura atual é deficiente e cara, com baixa integração de modais, horários pouco compatíveis com a vida real e linhas que não organizam a mobilidade de forma racional entre distritos e área central. Cultura, assim, vira evento para quem mora perto, tem carro ou pode pagar, ou isolado em distritos. 

Sem ônibus com frequência e previsibilidade, sem rotas que conectem distritos às áreas de equipamentos culturais, sem integração tarifária e sem planejamento territorial, qualquer política cultural nasce manca. E a cultura continua “um setor”, e não um campo de vida coletiva. 

Discute-se restauração sem discutir circulação e fala-se em museu sem falar em acesso e amplitude de público. Há diversas iniciavas culturais em Campos, em todos os cantos do município, de enorme relevância e qualidade. O problema está na interação e no acesso. O que Campos não tem — ou ainda não construiu — é um sistema que transforme cultura em hábito e em pertencimento.

E, quando pertencimento falta, o patrimônio não “morre” de uma vez, acaba apodrecendo devagar, como ponte com pilar cedendo — até que a próxima cheia leve o resto.
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Quarenta dias no escuro: o Museu Histórico e a quarentena habitual da cultura campista
03/02/2026 | 12h21
Interior do Museu Histórico de Campos, com aspecto de abandono e sem energia, em imagem gerada por inteligência artificial.
Interior do Museu Histórico de Campos, com aspecto de abandono e sem energia, em imagem gerada por inteligência artificial. / Imagem feita a partir de IA


A Peste Negra foi uma pandemia que dizimou ao menos um terço da população europeia e que, em diferentes surtos ao longo dos séculos, atingiu em cheio a histórica cidade do comércio e das artes: Veneza, um dos principais portos e rotas comerciais da Europa. Ali, os barcos precisavam cumprir 40 dias de isolamento como medida profilática para a contenção da peste — e é nesse contexto que surge o termo “quarentena”, que hoje não se refere, necessariamente, a um período específico.

O Museu Histórico de Campos atravessa uma quarentena de 40 dias sem energia elétrica, após o furto de cabos de cobre ocorrido em 25 de dezembro. A instituição museística, única administrada pelo município, está em risco, assim como seu importante acervo, durante todo esse período.

“A falta de iluminação apropriada e de controle climático compromete a integridade física das obras, contrariando as boas práticas museológicas e as normas de preservação do patrimônio histórico e artístico (...) impede o atendimento ao público visitante, prejudica o cumprimento da agenda institucional de exposições, visitas educativas e ações culturais, além de impactar diretamente os agentes culturais da cidade que utilizam o museu como espaço para o desenvolvimento de suas atividades, projetos e eventos”, disse Graziela Escocard, diretora do Museu.

De quem é a responsabilidade?

O reparo dos danos causados pelo furto não é de responsabilidade da concessionária de energia, a Enel, no caso do Museu. A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), como responsável pela administração do Museu, deve acionar a Superintendência de Iluminação Pública para que execute a reposição dos equipamentos e restabeleça a energia no local.

No habitual jogo de empurra da prefeitura de Campos, principalmente no que diz respeito aos equipamentos culturais, o Museu permanece 40 dias no escuro. A FCJOL, embora tenha status de secretaria, não possui a estrutura orçamentária e de pessoal para funcionar adequadamente, e depende permanentemente do apoio — não raro negado — de outros órgãos municipais.

Consultada, a FCJOL diz que solicitou urgência e que aguarda o reparo para após o carnaval: “eles (Sup. Iluminação Pública) já providenciaram a parte de documentação, estão no processo de abertura orçamentária para reposição de energia elétrica do Museu, esse é o andamento atual”, disse Fernando Machado, vice-presidente da Fundação.

A cultura no escuro e no fim da fila
 
Solar Visconde de Araruama, no centro da cidade, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 23 de julho de 1987, que se tornou sede do Museu da cidade.  Através da Lei Municipal nº 8.300, de 10 de maio de 2012, foi criado o Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, entregue à população no dia 29 de junho daquele mesmo ano.
Solar Visconde de Araruama, no centro da cidade, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 23 de julho de 1987, que se tornou sede do Museu da cidade. Através da Lei Municipal nº 8.300, de 10 de maio de 2012, foi criado o Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, entregue à população no dia 29 de junho daquele mesmo ano. / Antônio Filho - Folha1


Em cidades que se pretendem minimamente civilizadas, museus não podem permanecer no escuro por semanas. Não se trata apenas de iluminação, mas de responsabilidade institucional com a memória, com o patrimônio público e com o direito da população ao acesso à cultura.

Ademais, há a fragilidade de segurança e do acervo. O tempo e a temperatura, no caso de acervos históricos, não são detalhes, mas elementos determinantes para sua preservação e acessibilidade. Mantê-los 40 dias sem energia é um abandono inaceitável sob qualquer critério cultural. Em relação à segurança da instituição, do acervo e dos funcionários, a situação se mostra evidentemente frágil e impossibilita o monitoramento por câmeras, além de impor condições insalubres para quem trabalha no Museu.

Em Veneza, a quarentena protegia a cidade da morte. Em Campos, a quarentena do Museu expõe o quanto a cultura segue tratada como um corpo estranho, isolado, à espera de que o problema desapareça sozinho. Mas a história ensina: quando a luz não volta a tempo, o dano já foi feito — e, por vezes, mostra-se irreversível.

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Enamed e Campos: o diagnóstico incômodo da formação médica
24/01/2026 | 11h04
HIPÓCRATES" (1638) (PETER RUBENS, 1577-1640), "JURAMENTO DE HIPÓCRATES" (SEC. XII), "MAIMÓNIDES (DISSERTA SOBRE A DIMENSÃO HUMANA)" (1347) (AUTOR DESCONHECIDO), "JURAMENTO MÉDICO DE MAIMÓNIDES" (SEC. XX-XXI) (J LEE JAGERS, SEC. XX-XXI)
HIPÓCRATES" (1638) (PETER RUBENS, 1577-1640), "JURAMENTO DE HIPÓCRATES" (SEC. XII), "MAIMÓNIDES (DISSERTA SOBRE A DIMENSÃO HUMANA)" (1347) (AUTOR DESCONHECIDO), "JURAMENTO MÉDICO DE MAIMÓNIDES" (SEC. XX-XXI) (J LEE JAGERS, SEC. XX-XXI) / Fonte: https:/www.josepocas.com/2019/10/hipocrates/

Em termos médicos, uma epidemia acontece quando um patógeno encontra hospedeiros com baixa imunidade causando um aumento do número de casos além do esperado. Nos últimos dez anos, o Brasil viveu uma epidemia de novos cursos de medicina: o número de faculdades passou de 252 para 505, e mais de 75% das vagas estão na rede privada, segundo dados do Ministério da Educação (MEC).

O Brasil só perde para a Índia em número de escolas de medicina per capita. Essa proliferação embasou um prognóstico sombrio, que se mostrou concretizado na última segunda-feira (19), com a divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica).

O Enamed deixou exposto o baixo desempenho de parte relevante das faculdades analisadas: 107 cursos de medicina, dos 351 avaliados, obtiveram conceito 1 ou 2, considerado insatisfatório pelo MEC. Dos “reprovados”, 87 são faculdades particulares.

A tradicional Faculdade de Medicina de Campos (FMC) ficou entre elas. Com nota 2, o curso ofertado no município há quase 60 anos teve sua qualidade contestada. Em nota, a FMC disse que “uma avaliação única, teórica e padronizada não é capaz de mensurar, de forma integral, o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que compõem a formação médica”.

De fato, o Enamed sozinho não é capaz de apresentar um diagnóstico preciso da “doença”. Porém, o exame oferece pistas para se chegar nele. Com 100 questões de múltipla escolha — que abrangem clínica geral, cirurgia, obstetrícia, pediatria, medicina da família, saúde mental e coletiva — o exame é aplicado obrigatoriamente aos concluintes.

Os alunos

Um dia após a divulgação do Enamed, o Diretório Acadêmico Luiz Sobral, da FMC, divulgou uma nota onde contestou as justificativas da faculdade. Reconheceu o esforço da direção em “evitar interpretações simplistas”, mas disse que a resposta da instituição “sem explicitar um compromisso claro com a investigação interna de fragilidades acadêmicas”, “transmite à comunidade acadêmica e à sociedade a percepção de deslocamento de responsabilidade”.

A nota pública do Diretório expôs uma fratura antiga. Uma parte dos discentes está insatisfeita e vem registrando denúncias e reclamações nos canais internos contra professores e direção, como acesso ao hospital-escola (instalado no Hospital Álvaro Alvim), favorecimentos de alunos, ausência de professores, dentre outras.

Embora sejam reclamações endógenas, o resultado do Enamed acabou por tornar pública a existência de conflitos que têm potencial para afetar a formação dos futuros médicos.

A profissão médica, selada pelo juramento de Hipócrates e essencial a qualquer sociedade, não diz respeito apenas às instituições de ensino. Ela envolve também os alunos, gestores e o poder público. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada — sobretudo quando os sinais de falha deixam de ser internos e passam a ser públicos.

Os professores


O médico infectologista Nélio Artiles, ex-diretor da FMC e professor da instituição há quase 40 anos, foi ouvido sobre o assunto. Segundo ele, é preciso cautela na leitura dos resultados. “Não podemos nunca ficar cegos. É necessário compreender as dificuldades que levam os alunos a trazer essas questões e refletir tanto sobre a realidade do curso quanto sobre a eficácia do próprio método de avaliação. O resultado do Enamed não corresponde ao que observamos quando analisamos o produto final da FMC”, afirmou.

Em 2025, a FMC recebeu o conceito máximo (5) do MEC, que avalia qualidade dos cursos, com base em indicadores como corpo docente, infraestrutura e desempenho dos alunos. O Enade, agora o Enamed, são componentes da avaliação.

“A nota dois da faculdade não é condizente com a estrutura do curso que foi graduado com a nota máxima do MEC, o que mostra a eficácia da infraestrutura e dos seus professores”, continuou Artiles.

Sobre as rusgas com os alunos, disse que pode ter afetado o resultado do exame: “uma insatisfação de um grupo de alunos no último ano com a gestão pode motivar negativamente (a realização da prova), isso é algo que tem que ser considerado com muito cuidado”.

A sociedade

Um curso de medicina é um investimento alto para as famílias, que depositam na instituição a confiança de que seus membros sejam formados para exercer uma profissão altamente valorizada.

No entanto, tratar o curso de medicina apenas como um negócio é aceitar que vidas podem ser descartadas como custos do sistema. Com o diagnóstico do Enamed nas mãos, alunos, professores e a direção das instituições devem achar um caminho profilático efetivo, que não apenas exponha fraturas, mas que as tratem.

“Como diretor, na minha época, sempre tive essa preocupação de trazer os alunos para perto e mostrar a importância da instituição, para eles poderem se orgulhar”, disse Artiles. Para o bem de todos, é preciso que esse orgulho seja retomado.
* O atual diretor da FMC, Edilbert Pellegrini, não retornou as tentativas de contato até a publicação desta matéria. 
 
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O "pior janeiro da história" do rio Paraíba do Sul: secas, cheias e desvios
18/01/2026 | 20h59
Bancos de areia e assoreamento do rio Paraíba do Sul próximo à cidade de Campos dos Goytacazes. O acúmulo de sedimentos causado por barragens torna o fluxo do rio cada vez mais fraco perto do delta, tornando-o incapaz de proteger Atafona das ondas do oceano (https:/www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2021/10/atafona-rio-de-janeiro-mar-esta-engolindo-cidade-brasileira).
Bancos de areia e assoreamento do rio Paraíba do Sul próximo à cidade de Campos dos Goytacazes. O acúmulo de sedimentos causado por barragens torna o fluxo do rio cada vez mais fraco perto do delta, tornando-o incapaz de proteger Atafona das ondas do oceano (https:/www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2021/10/atafona-rio-de-janeiro-mar-esta-engolindo-cidade-brasileira). / Foto: Felipe Fittipaldi

 
A água se constitui como um elemento essencial para a vida. A afirmação — que carrega consigo uma obviedade ululante — torna-se mais palpável no Norte Fluminense quando o Rio Paraíba do Sul seca, ou mesmo quando se enche e causa estragos. Neste janeiro, o rio mostra-se nos menores índices de vazão em décadas, quando deveria estar em seu período de inundações. Quais os motivos da atual estiagem? O que provoca longos períodos de estiagem na região e as inundações recorrentes? 

O Paraíba nasce em São Paulo, a aproximadamente 1.800 metros de altitude na Serra da Bocaina. A sua formação hidrológica se dá pela confluência de dois outros rios — Paraitinga e Paraibuna — se constitui como o principal recurso hídrico de dezenas de cidades ao longo de seu curso, que contempla 1.137 km no sentido geral oeste-leste, até desembocar no oceano Atlântico no distrito de Atafona, município de São João da Barra, no Norte Fluminense.

Com uma área de drenagem de cerca de 62 mil km², a água do rio mais importante do Estado garante a vida através do abastecimento de residências, comércios e empresas e é essencial à produção industrial, contemplando o Vale do Paraíba (eixo socioeconômico industrial) e, na porção fluminense, servindo à Baixada Campista, extensa planície fluviomarinha próxima à foz.

As cheias

Existe uma máxima entre quem depende do rio para viver e produzir no norte do Estado do Rio de Janeiro que afirma serem as chuvas de São Paulo as causadoras de cheia. A percepção popular tem base científica, mas é incompleta: entre os principais afluentes do Paraíba do Sul estão os rios Pomba e Muriaé que deságuam na região e contribuem significativamente para o regime hidrológico no trecho final do Paraíba, em sua foz.

Em condições naturais, o Paraíba do Sul apresentava vazão média de longo termo em torno de 1.100 m³/s, o que seria suficiente para que o caudal cumpra seu papel. Porém, esse regime foi alterado por diversas intervenções (reservatórios e desvios) e o uso intensivo do solo em alguns locais, deixando áreas antes cobertas por Mata Atlântica, hoje restrita a fragmentos. O Paraíba foi severamente afetado por represas e captações e pelas chamadas “pressões antrópicas” — impactos negativos das atividades humanas no meio ambiente.

Então governador do Rio, Chagas Freitas, toma banho no rio Paraíba do Sul para mostrar que a água estava limpa, em 1982. O governador ainda bebeu a água do rio.
Então governador do Rio, Chagas Freitas, toma banho no rio Paraíba do Sul para mostrar que a água estava limpa, em 1982. O governador ainda bebeu a água do rio. / Agência O Globo
Historicamente, as cheias do Paraíba do Sul estão diretamente relacionadas a eventos de precipitação extrema na bacia, sobretudo durante o verão. Chuvas intensas concentradas em poucos dias geram grandes volumes de escoamento que excedem a capacidade dos rios, provocando enchentes. As chuvas nas áreas serranas e na Zona da Mata (região de cabeceira de afluentes como Pomba, Muriaé, Pirapetinga e Piabanha) são particularmente críticas.

O Rio Paraíba é como uma grande aorta, que drena e recebe sangue (água) de artérias menores, que no caso do rio são os “tributários” ou “afluentes”. Quando esses transbordam levam ao transbordamento do rio principal. A região Norte Fluminense conviveu com inundações significativas desde o início do século XX — por exemplo, cheias de grande porte foram registradas em 1925, 1943, 1961 e 1966, afetando várias cidades ribeirinhas.

Nas últimas décadas, eventos notáveis incluem as cheias de 1979 e 1985 (atingindo amplamente o noroeste fluminense), bem como as de 2007 e 2008, quando o rio superou cotas de inundação e desalojou milhares de pessoas em municípios do baixo Paraíba. Em janeiro de 1997 e janeiro de 2011, a cheia alcançou níveis críticos causando destruição em municípios do Norte e Noroeste Fluminense, com rompimento de diques na localidade de Três Vendas, em Campos, em 2011, por exemplo. Nessas ocasiões o Paraíba inundou de forma generalizada.

De maneira geral, as cheias catastróficas resultam da combinação de solo já encharcado por chuva contínua e episódios de precipitação extrema concentrada, potencializados pela drenagem rápida das encostas desmatadas e pela convergência de picos de vazão de múltiplos afluentes.

Para atenuar as cheias, os “reservatórios de regularização” atuam como o principal instrumento.

João Gomes de Siqueira
João Gomes de Siqueira / Ceivap
“O Paraíba tem várias ‘fozes’, Atafona, Barra do Furado (em São João da Barra) e Gargaú e Guaxindiba (em São Francisco de Itabapoana) e aqui (Campos) ele se espraia. Ele entra no mar com pouca vazão, pois não tem diferença de altitude. A cheia aqui se espraia, e esse volume monstruoso que chega aqui (Norte Fluminense), cerca de 6.000 m³ por segundo, como aconteceu em 2007, 2008 e 2022, poderia ser reservado. Essas águas advém de uma chuva muito concentrada, chove muito em Minas Gerais, que tem muita declividade, vem a água com muita rapidez principalmente no rio Pomba e atinge o Paraíba em Itaocara e causa inundação. A foz leva em torno de 15 dias para drenar toda essa água, e passa esse período com mais 11 metros de cota aqui em Campos do rio Paraíba”, disse João Gomes Siqueira, diretor do Comitê Hidrográfico do Baixo Paraíba.


Ainda segundo o diretor, deveriam ser criados esses grandes reservatórios em Minas para controlar as cheias no Norte Fluminense e a água utilizada para amenizar os períodos de estiagem.

Secas

A região é afetada, além das cheias, por longos períodos de estiagem. Períodos prolongados de falta de chuva resultam em redução drástica das vazões do Paraíba e seus afluentes, e por consequência dos níveis dos reservatórios.

Em 2014 e 2015 foi registrado uma seca severa, que afetou diversos municípios da região e causou prejuízos significativos à milhares de produtores rurais. No período, com chuvas muito abaixo da média, desencadeou a pior crise hídrica já registrada na bacia. Eventos de bloqueios atmosféricos e alterações nos padrões meteorológicos (como oscilações do Atlântico Sul ou El Niño/Oscilação Sul) são citados por estudos climáticos como fatores que podem reduzir a chuva no Sudeste, contribuindo para essas secas extremas.

Historicamente, destacam-se outras secas severas: em 1955 foi um ano de vazões extremamente baixas (referência de pior situação hídrica até então), assim como o período de 2003, no qual o volume armazenado do sistema de reservatórios quase atingiu mínimos históricos. Em 2003, medidas emergenciais precisaram ser adotadas, como a redução temporária da vazão defluente controlada na represa de Santa Cecília de 190 m³/s para 160 m³/s, a fim de evitar colapso do armazenamento até a chegada das chuvas.
 
Avanço do mar em Atafona, São João da Barra. Mudanças na foz do rio Paraíba do Sul.
Avanço do mar em Atafona, São João da Barra. Mudanças na foz do rio Paraíba do Sul. / Gilberto Pessanha


“Nós perdemos água desde 2015. Essa vazão de 190 m³/s inicialmente era de 250 m³/s, onde distribuía-se 160 m³ para a capital Rio de Janeiro e 90 m³ para o norte e noroeste fluminenses. Isso passou para 120 m³ para a capital e 70 m³ para o Baixo Paraíba, portanto nós perdemos água depois da crise de 2015”, afirma João Gomes.

As alternativas para as crises, estudos prévios e o janeiro atual

O Comitê do Baixo Paraíba desenvolve pesquisas e estudos sobre as crises hídricas da bacia desde 2016. Em 2024, foi identificado pelo órgão que havia uma crise se aproximando, e para contê-la foi solicitado à Agência Nacional de Águas (ANA) que liberasse 40 m³ de vazão para o Baixo Paraíba, pela carência da região e por identificarem que os reservatórios controlados pela ANA estavam elevados.

A ANA negou o pedido do Comitê, e cerca de 45 dias depois dessa solicitação Campos dos Goytacazes teve a “crise da geosmina”, com o município afetado por uma substância associada a episódios de florações de microrganismos na água que levou à iminência da suspensão de abastecimento de água, contornado pela aplicação de carvão ativado nas águas do Paraíba.
Em 2025, o comportamento do rio Paraíba foi semelhante, segundo João Gomes:

“Dezembro de 2025 foi o pior mês da história. A curva de vazão mostra que ele ficou baixo não apenas de junho de novembro, mas não se recuperou em dezembro como nos anos anteriores. Então, podemos afirmar que dezembro de 2025 e este janeiro de 2026 são os piores da história do Paraíba do Sul. Os níveis de vazão aqui em Campos, na estação da ANA em Campos, estão com índices mais baixos do que em 2015, que foram os piores da série histórica até aqui, portanto estamos com uma seca histórica para o período”.

O futuro

As ações antrópicas — barragens, transposições, canais e inúmeras captações — reconfiguraram o balanço hídrico do Paraíba do Sul. Por um lado, proporcionaram benefícios (controle de cheias médias, energia, expansão agrícola e segurança hídrica para centros urbanos distantes), mas por outro, reduziram a resiliência ambiental do sistema fluvial, deixando o baixo curso com menor vazão natural, ecossistemas fragilizados e maior sensibilidade a eventos extremos.

Até aqui há convergência nos estudos que indicam uma tendência de redução das vazões médias anuais do rio ao longo do século 21. Em simulações com modelos regionais (ETA/INPE) sugerem que já até 2040 deve ocorrer decréscimo nas vazões médias em comparação ao clima de períodos anteriores. Existem projeções que indicam possibilidade de até - 65% na vazão média anual em pontos da bacia (como na estação de Santa Cecília) no final do século (2071–2100), segundo um dos modelos analisados.

Embora haja incertezas e outros modelos indiquem quedas menos drásticas ou até estabilidade, o sinal de redução hídrica é preocupante, especialmente na região de Santa Cecília (baixo Paraíba). Em termos práticos, isso sugere maior risco de escassez: períodos secos poderão ser mais frequentes, duradouros e com vazões ainda mais baixas do que as já observadas, aumentando a probabilidade de crises de abastecimento como a de 2014-2015.

A crise hídrica do rio Paraíba do Sul no Norte Fluminense não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma combinação complexa de fatores naturais e antrópicos. Geograficamente, o baixo Paraíba é uma região vulnerável — uma planície costeira no final de um grande sistema fluvial, dependente das chuvas nas distantes cabeceiras e sensível à influência do mar. Historicamente, a região vivenciou tanto secas severas quanto cheias destrutivas, cujas causas residem em padrões climáticos variáveis e, por vezes, extremos.

Se o Paraíba do Sul é a aorta do Sudeste, o Norte Fluminense é a ponta do sistema: é onde a falta de água aparece primeiro — e onde a cheia também demora mais a ir embora. A cada ciclo, a região paga por duas fragilidades ao mesmo tempo. O futuro do Paraíba, portanto, não será resolvido por uma narrativa única — “a culpa é da chuva” ou “a culpa é do desvio” —, mas por decisões técnicas e políticas que promovam regras de operação transparentes, monitoramento fino, redução de perdas, proteção de mananciais e um pacto federativo que trate a água como o que ela é: não um favor, mas um limite físico.
Captação da ETA Guandu, que abastece 9,5 milhões de moradores do Grande Rio: cianobactérias preocupam especialistas, em 2020.
Captação da ETA Guandu, que abastece 9,5 milhões de moradores do Grande Rio: cianobactérias preocupam especialistas, em 2020. / Foto: Comitê Guandu.
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Rio, São Paulo e Minas no espelho do Brasil
15/01/2026 | 20h59
Imagem gerada por Ia a partir do envio do texto já pronto.
Imagem gerada por Ia a partir do envio do texto já pronto. / Gemini

Rio, São Paulo e Minas no espelho do Brasil

Edmundo Siqueira
William Passos

O pequeno Justus nasceu na cidade de Darmstadt, no sul da Alemanha, nos primeiros anos do século XIX. Seu pai mantinha uma espécie de farmácia, onde comercializava produtos químicos usados em medicamentos e pintura. Havia um pequeno laboratório anexo ao estabelecimento, onde Justus von Liebig cresceu brincando de ser químico — e se tornaria um dos mais importantes cientistas da história moderna.

Entre seus feitos estão o fertilizante artificial e o espelho — ou, mais precisamente, a aplicação de uma fina camada de prata líquida sobre o vidro para criar a imagem refletida.

A imagem que o espelho cria é virtual e invertida, produzida a partir de um elemento real. No Brasil, o espelho, que já foi usado como moeda de troca na colonização, tem refletido uma sociedade polarizada, violenta e desconfiada. Mas qual é, afinal, a imagem refletida do Brasil de hoje? Como o brasileiro se vê — e, mais importante, quais são os elementos reais que produzem essa imagem no espelho?

Essas são algumas das perguntas a que se propõe a responder o mais novo livro do cientista político Felipe Nunes, intitulado “Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros”, lançado pela Globo Livros, em novembro de 2025. Em entrevista concedida ao Folha1 nos primeiros dias de 2026, Nunes — diretor e fundador da conceituada Quaest Pesquisa — falou sobre o conservadorismo no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, as eleições deste ano e os pontos em que o Brasil mais se reconhece — e mais se desconhece.

Para ampliar essa leitura, este texto dialoga também com o geógrafo William Passos, especialista em estatística e pesquisador formado pelo IBGE. Em uma escrita a quatro mãos — uma, analítica; outra, territorial — tentamos esmiuçar o que os números dizem sobre um ano decisivo para o Brasil e, em especial, sobre como o eleitorado do Rio de Janeiro se posiciona diante do conservadorismo, da insegurança e da política.

O conservadorismo no Rio, em São Paulo e em Minas Gerais

Os dados da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” mostram que o conservadorismo brasileiro não é um bloco homogêneo. Ele se organiza como um conjunto de valores relativamente estáveis — ordem, autoridade, centralidade da família, fé e moralidade pública —, mas assume formas distintas conforme a experiência concreta com o Estado, a economia e a violência.

São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais compartilham o rótulo, mas vivem conservadorismos diferentes. Em São Paulo, a ordem está associada à previsibilidade e ao desempenho institucional. No Rio de Janeiro, à proteção e à sobrevivência. E em Minas, à conciliação e à estabilidade. Essas diferenças ajudam a explicar não apenas escolhas eleitorais, mas também modelos distintos de capitalismo, desenvolvimento e relação com o poder público.

Nesse sentido, Nunes insiste que em São Paulo prevalece um conservadorismo de ordem, no qual há uma forte demanda por desempenho. Trata-se, assim, de um conservadorismo mais “institucional”, com forte necessidade de eficiência, previsibilidade, ambiente regulatório com regras claras, meritocracia e punição para quem “atrapalha”.

Por esses elementos, o conservadorismo paulista tende a enxergar o Estado com ambivalência, na medida em que, por um lado, aceita o Estado quando este entrega serviços públicos essenciais, como saúde, educação, infraestrutura e segurança, mas, por outro lado, o rejeita quando o Estado ganha a forma de burocracia, corporativismo ou “privilégio”. Ainda a este respeito, Nunes lembra que, no conservadorismo dominante em São Paulo, a moralidade aparece, porém, frequentemente colada ao discurso de responsabilidade e disciplina.

Por outro lado, no estado do Rio de Janeiro, o que prevalece é um conservadorismo de segurança, no qual há uma forte demanda por proteção, o que é explicado, na visão de Nunes, pela insegurança cotidiana, com atributos — violência armada, crime organizado, territórios capturados, entre outros — que empurram o conservadorismo para o eixo da proteção. Esse cenário é explicado pela contingência da garantia do direito a não morrer.

Ainda no espelho do Rio de Janeiro, Nunes constata que o Estado é visto como ausente, frágil ou capturado, o que, por sua vez, explicaria o crescimento da tolerância social com “soluções duras” e com lideranças que prometem controle. Em paralelo, revelando o alto e forte contraste interno do conservadorismo fluminense, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, o cientista político identifica bolsões cosmopolitas e libertários relevantes.

Por sua vez, no espelho de Minas Gerais, que no seu íntimo reflete o Brasil, o que se impõe, na avaliação de Nunes, é o conservadorismo de conciliação/pragmatismo, que, mais “temperado”, valoriza família, tradição e ordem, mas costuma ser menos performático e mais pragmático. Outro achado importante da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” é o forte peso, no conservadorismo mineiro, do que Nunes chama de redes locais, municipalismo e “política do possível”. Espinha dorsal deste singular conservadorismo, a política do possível tende a punir radicalismos percebidos como ameaça à estabilidade, o que explica o fato do conservadorismo mineiro frequentemente se traduzir em moderação e “cautela” — o eleitor mineiro demanda segurança e entregas, mas desde que não haja rupturas.
Reprodução


Como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico

Perguntado sobre como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico, Nunes revela que os valores dominantes, por si só, não determinam o desenvolvimento, mas influenciam o tipo de coalizão política e o “clima institucional” que cada estado brasileiro constrói — e isso, por sua vez, se reflete na dinâmica do investimento, da produtividade, da informalidade e da capacidade estatal.

Nesse cenário, Nunes enxerga o conservadorismo de São Paulo como pró-previsibilidade, o que, por sua vez, favorece um capitalismo mais orientado à produtividade, competição, governança e à formação de cadeias complexas — indústria, serviços avançados e finanças. Este modelo de conservadorismo, por sua vez, pressiona por políticas públicas mais “gerenciais” — metas, controle, entrega e regulação mais estável —, ao mesmo tempo que tende a premiar governos com boa reputação de administração e infraestrutura.

Por outro lado, no caso do estado do Rio de Janeiro, o eixo proteção/segurança encarece o capitalismo. Isso acontece em função do aumento do custo de transação, além dos custos do risco, da informalidade e das “economias de coerção”. Assim, em função desta estrutura, a economia acaba por ficar mais sensível aos ciclos da renda extrativa/rentista — óleo, royalties e grandes contratos — e, ao mesmo tempo, menos sustentada por um ambiente amplo de pequenos e médios negócios protegidos por instituições fortes. Portanto, a promessa de “retomada” do controle territorial acaba por virar uma agenda econômica indireta, na medida em que, sem ordem territorial, a economia não floresce.

Finalmente, no caso de Minas Gerais, o pragmatismo e a busca por estabilidade tendem a produzir um capitalismo mais incremental, na visão de Nunes, isto é, diversificado — mineração, agro, indústria e serviços — e com forte peso da interiorização e da formação de cadeias regionais. Isso acontece porque a preferência por conciliação facilita a formação de arranjos de investimento e de infraestrutura quando há coordenação. Por outro lado, o capitalismo incremental mineiro acaba produzindo um efeito colateral importante, que é o gradualismo excessivo quando há a necessidade da realização de reformas, o que é explicado pelo predomínio da lógica menos “ruptura” e mais “ajuste”, baliza fundamental para a garantia da previsibilidade política e dos pactos locais firmados.

O espelho real e o distorcido

No fim, o que “Brasil no espelho” revela não é apenas a diversidade dos conservadorismos regionais, mas a dificuldade histórica do país em reconhecer a própria imagem sem distorcê-la. São Paulo se vê como engrenagem e o Rio, como um estado onde não se aplicam as mesmas leis dos “outros”, e Minas, como fiadora da estabilidade possível. Cada qual se reconhece — e se protege — a partir de sua própria experiência com o Estado, a economia e o medo.

Como no espelho de Liebig, a imagem que se forma não é falsa, mas invertida: parte de um elemento real, porém reorganizada por camadas de expectativa, insegurança e memória coletiva. O desafio político de 2026, mais do que escolher entre direita e esquerda, será compreender que o Brasil não cabe em um único reflexo.

Talvez o maior risco esteja justamente em insistir em buscar respostas uniformes para sociedades que se organizam a partir de medos distintos. Enquanto isso, o espelho segue posto. Não para nos dizer quem deveríamos ser — mas para revelar, com desconforto, quem de fato somos quando ninguém está olhando.
 
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

edmundosiqueira@hotmail.com