Construída pelos ingleses, de iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha o assoalho de madeira na sua construção (por isso seu apelido "de pau") e a cobrança de pedágio.
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Reprodução
Quando falamos de cultura, em Campos dos Goytacazes, normalmente estamos nos referindo a um setor. Como se “cultura” fosse um guarda-chuva que abriga alguns grupos que pouco se comunicam entre si — e que, não raro, parecem separados da própria cidade. É como se esses grupos lutassem para construir uma identidade coletiva, alijados da coletividade.
Esse afastamento tem várias causas — e não cabe reduzi-lo a um único culpado. Há, sim, a responsabilidade do poder público, que não formula políticas estruturantes para a área cultural. Mas há também, em certos momentos, a postura pedante de quem se reivindica “do setor”. É um erro tentar decretar, de cima para baixo, o que tem ou não valor cultural — ou mesmo histórico. Essas definições nascem das vivências coletivas e, para fazerem sentido, precisam ser orgânicas.
As defesas preservacionistas obedecem a uma lógica não mercadológica: busca-se preservar elementos materiais e imateriais mesmo quando eles não geram lucro. A premissa é simples — há outros valores em jogo na proteção desses bens. E, quando um imóvel é tombado, ele passa, em tese, por avaliações de relevância histórica e cultural.
Em Campos, há bens tombados nas esferas federal, estadual e municipal.
Tomemos, porém, o exemplo do Solar dos Airizes. Há enorme relevância histórica e cultural em um prédio que atravessou o ciclo do açúcar, a escravidão, as grandes fazendas de Campos que funcionavam como núcleos de educação e saúde, entre outras nuances. Além disso, foi residência da família Lamego, que produziu obras fundamentais para compreender a formação de toda a região.
E então vem a pergunta que muitas vezes evitamos encarar: para que, concretamente, serviria sua preservação? Quantas pessoas seriam impactadas por seu restauro? E, uma vez restaurado, qual vocação o imóvel assumiria — que instituição abrigaria, que uso público sustentaria, que projeto o manteria vivo?
Solar dos Airizes, tombado pelo Iphan em 1940.
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Foto: César Ferreira (PMCG)
Em Campos, essas perguntas seguem sem resposta — por falta de planejamento do poder público, pela baixa iniciativa do empresariado local e, sobretudo, pela dificuldade de transformar patrimônio e cultura em vida cultural de verdade: contínua, diversa, acessível e conectada à cidade.
A ponte de pau: quando o símbolo cede
Neste início de março, Campos atravessa mais uma cheia do Rio Paraíba do Sul. Além das populações ribeirinhas e das fazendas, um patrimônio histórico foi afetado: a “ponte de pau” — ou “ponte do meio” —, cujo nome oficial é Barcelos Martins (veja matéria da Folha aqui).
Foi a primeira ponte erguida em Campos, em 1873, para ligar o distrito de Guarus à chamada “pedra” da cidade. Construída por ingleses, por iniciativa privada e por ação do Barão da Lagoa Dourada, a ponte tinha assoalho de madeira — daí o apelido “de pau” — e chegou a ter cobrança de pedágio.
Nesta cheia, um dos pilares principais cedeu. O estado crítico é visível: pilares deteriorados, desgaste acumulado e sinalização insuficiente. Servindo à passagem de motos, bicicletas e pedestres, a histórica ponte ameaça ruir.
Ponte Barcelos Martins, março 2026.
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Reprodução
Se o Paraíba a levar de vez, será mais do que uma perda material: será o símbolo de uma cidade que não cuida de seus elementos memorialistas — que são também elementos de construção cultural — e que não sabe integrar sua população. Não há mais pedágio para transitar entre as margens do rio, mas persiste um distanciamento social severo.
E isso afeta, diretamente, os projetos culturais e as decisões de uso dos patrimônios materiais.
Um Solar dos Airizes abrigando um museu seria frequentado pela enorme população de Guarus, de Santo Eduardo ou de Ururaí? O público que deveria justificar restauros — e uma exploração comercial responsável do patrimônio — deveria vir justamente de onde historicamente se esteve à margem das iniciativas de restauro, de programação e de acesso.
Mercado Municipal: patrimônio escondido, uso desorganizado
Outro exemplo é o Mercado Municipal: um patrimônio histórico que permanece escondido e desconhecido de parte relevante da população campista. De um lado, uma feira de peixes e legumes feita para ser temporária, mas que dura décadas. De outro, um camelódromo mal planejado, que resolve um problema imediato criando outro de longo prazo.
A proposta de transferir a feira para uma praça subutilizada nos fundos da rodoviária central encontra resistência de alguns desses “grupos culturais” de Campos, que parecem não perceber que o público predominante do Mercado não é do centro, mas sim, em larga medida, de outros distritos. E uma nova localização — se pensada com acesso, infraestrutura e dignidade — atenderia perfeitamente ao funcionamento da feira e ao fluxo de compradores e trabalhadores.
A dicotomia entre “preservar vivências sociais” e “mudar a feira de lugar” não se sustenta quando se observa o conjunto, com a abertura e requalificação do prédio histórico, com um projeto de uso dos espaços. Desde que a mudança seja bem planejada.
Foto: Rodrigo Silveira
Sem transporte, não há cultura sustentável e acessível
O gargalo que une patrimônios históricos, pontes, mercados e iniciativas culturais é o transporte público. Em um município com mais de 4.000 km², transporte é condição elementar para ampliar público, garantir acessibilidade e permitir que “a cidade” exista como tal, com circulação, encontros e direito de acesso.
A estrutura atual é deficiente e cara, com baixa integração de modais, horários pouco compatíveis com a vida real e linhas que não organizam a mobilidade de forma racional entre distritos e área central. Cultura, assim, vira evento para quem mora perto, tem carro ou pode pagar, ou isolado em distritos.
Sem ônibus com frequência e previsibilidade, sem rotas que conectem distritos às áreas de equipamentos culturais, sem integração tarifária e sem planejamento territorial, qualquer política cultural nasce manca. E a cultura continua “um setor”, e não um campo de vida coletiva.
Discute-se restauração sem discutir circulação e fala-se em museu sem falar em acesso e amplitude de público. Há diversas iniciavas culturais em Campos, em todos os cantos do município, de enorme relevância e qualidade. O problema está na interação e no acesso. O que Campos não tem — ou ainda não construiu — é um sistema que transforme cultura em hábito e em pertencimento.
E, quando pertencimento falta, o patrimônio não “morre” de uma vez, acaba apodrecendo devagar, como ponte com pilar cedendo — até que a próxima cheia leve o resto.
Interior do Museu Histórico de Campos, com aspecto de abandono e sem energia, em imagem gerada por inteligência artificial.
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Imagem feita a partir de IA
A Peste Negra foi uma pandemia que dizimou ao menos um terço da população europeia e que, em diferentes surtos ao longo dos séculos, atingiu em cheio a histórica cidade do comércio e das artes: Veneza, um dos principais portos e rotas comerciais da Europa. Ali, os barcos precisavam cumprir 40 dias de isolamento como medida profilática para a contenção da peste — e é nesse contexto que surge o termo “quarentena”, que hoje não se refere, necessariamente, a um período específico.
O Museu Histórico de Campos atravessa uma quarentena de 40 dias sem energia elétrica, após o furto de cabos de cobre ocorrido em 25 de dezembro. A instituição museística, única administrada pelo município, está em risco, assim como seu importante acervo, durante todo esse período.
“A falta de iluminação apropriada e de controle climático compromete a integridade física das obras, contrariando as boas práticas museológicas e as normas de preservação do patrimônio histórico e artístico (...) impede o atendimento ao público visitante, prejudica o cumprimento da agenda institucional de exposições, visitas educativas e ações culturais, além de impactar diretamente os agentes culturais da cidade que utilizam o museu como espaço para o desenvolvimento de suas atividades, projetos e eventos”, disse Graziela Escocard, diretora do Museu.
De quem é a responsabilidade?
O reparo dos danos causados pelo furto não é de responsabilidade da concessionária de energia, a Enel, no caso do Museu. A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), como responsável pela administração do Museu, deve acionar a Superintendência de Iluminação Pública para que execute a reposição dos equipamentos e restabeleça a energia no local.
No habitual jogo de empurra da prefeitura de Campos, principalmente no que diz respeito aos equipamentos culturais, o Museu permanece 40 dias no escuro. A FCJOL, embora tenha status de secretaria, não possui a estrutura orçamentária e de pessoal para funcionar adequadamente, e depende permanentemente do apoio — não raro negado — de outros órgãos municipais.
Consultada, a FCJOL diz que solicitou urgência e que aguarda o reparo para após o carnaval: “eles (Sup. Iluminação Pública) já providenciaram a parte de documentação, estão no processo de abertura orçamentária para reposição de energia elétrica do Museu, esse é o andamento atual”, disse Fernando Machado, vice-presidente da Fundação.
A cultura no escuro e no fim da fila
Solar Visconde de Araruama, no centro da cidade, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 23 de julho de 1987, que se tornou sede do Museu da cidade. Através da Lei Municipal nº 8.300, de 10 de maio de 2012, foi criado o Museu Histórico de Campos dos Goytacazes, entregue à população no dia 29 de junho daquele mesmo ano.
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Antônio Filho - Folha1
Em cidades que se pretendem minimamente civilizadas, museus não podem permanecer no escuro por semanas. Não se trata apenas de iluminação, mas de responsabilidade institucional com a memória, com o patrimônio público e com o direito da população ao acesso à cultura.
Ademais, há a fragilidade de segurança e do acervo. O tempo e a temperatura, no caso de acervos históricos, não são detalhes, mas elementos determinantes para sua preservação e acessibilidade. Mantê-los 40 dias sem energia é um abandono inaceitável sob qualquer critério cultural. Em relação à segurança da instituição, do acervo e dos funcionários, a situação se mostra evidentemente frágil e impossibilita o monitoramento por câmeras, além de impor condições insalubres para quem trabalha no Museu.
Em Veneza, a quarentena protegia a cidade da morte. Em Campos, a quarentena do Museu expõe o quanto a cultura segue tratada como um corpo estranho, isolado, à espera de que o problema desapareça sozinho. Mas a história ensina: quando a luz não volta a tempo, o dano já foi feito — e, por vezes, mostra-se irreversível.
HIPÓCRATES" (1638) (PETER RUBENS, 1577-1640), "JURAMENTO DE HIPÓCRATES" (SEC. XII), "MAIMÓNIDES (DISSERTA SOBRE A DIMENSÃO HUMANA)" (1347) (AUTOR DESCONHECIDO), "JURAMENTO MÉDICO DE MAIMÓNIDES" (SEC. XX-XXI) (J LEE JAGERS, SEC. XX-XXI)
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Fonte: https:/www.josepocas.com/2019/10/hipocrates/
Em termos médicos, uma epidemia acontece quando um patógeno encontra hospedeiros com baixa imunidade causando um aumento do número de casos além do esperado. Nos últimos dez anos, o Brasil viveu uma epidemia de novos cursos de medicina: o número de faculdades passou de 252 para 505, e mais de 75% das vagas estão na rede privada, segundo dados do Ministério da Educação (MEC).
O Brasil só perde para a Índia em número de escolas de medicina per capita. Essa proliferação embasou um prognóstico sombrio, que se mostrou concretizado na última segunda-feira (19), com a divulgação dos resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica).
O Enamed deixou exposto o baixo desempenho de parte relevante das faculdades analisadas: 107 cursos de medicina, dos 351 avaliados, obtiveram conceito 1 ou 2, considerado insatisfatório pelo MEC. Dos “reprovados”, 87 são faculdades particulares.
A tradicional Faculdade de Medicina de Campos (FMC) ficou entre elas. Com nota 2, o curso ofertado no município há quase 60 anos teve sua qualidade contestada. Em nota, a FMC disse que “uma avaliação única, teórica e padronizada não é capaz de mensurar, de forma integral, o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que compõem a formação médica”.
De fato, o Enamed sozinho não é capaz de apresentar um diagnóstico preciso da “doença”. Porém, o exame oferece pistas para se chegar nele. Com 100 questões de múltipla escolha — que abrangem clínica geral, cirurgia, obstetrícia, pediatria, medicina da família, saúde mental e coletiva — o exame é aplicado obrigatoriamente aos concluintes.
Os alunos
Um dia após a divulgação do Enamed, o Diretório Acadêmico Luiz Sobral, da FMC, divulgou uma nota onde contestou as justificativas da faculdade. Reconheceu o esforço da direção em “evitar interpretações simplistas”, mas disse que a resposta da instituição “sem explicitar um compromisso claro com a investigação interna de fragilidades acadêmicas”, “transmite à comunidade acadêmica e à sociedade a percepção de deslocamento de responsabilidade”.
A nota pública do Diretório expôs uma fratura antiga. Uma parte dos discentes está insatisfeita e vem registrando denúncias e reclamações nos canais internos contra professores e direção, como acesso ao hospital-escola (instalado no Hospital Álvaro Alvim), favorecimentos de alunos, ausência de professores, dentre outras.
Embora sejam reclamações endógenas, o resultado do Enamed acabou por tornar pública a existência de conflitos que têm potencial para afetar a formação dos futuros médicos.
A profissão médica, selada pelo juramento de Hipócrates e essencial a qualquer sociedade, não diz respeito apenas às instituições de ensino. Ela envolve também os alunos, gestores e o poder público. Trata-se de uma responsabilidade compartilhada — sobretudo quando os sinais de falha deixam de ser internos e passam a ser públicos.
Os professores
O médico infectologista Nélio Artiles, ex-diretor da FMC e professor da instituição há quase 40 anos, foi ouvido sobre o assunto. Segundo ele, é preciso cautela na leitura dos resultados. “Não podemos nunca ficar cegos. É necessário compreender as dificuldades que levam os alunos a trazer essas questões e refletir tanto sobre a realidade do curso quanto sobre a eficácia do próprio método de avaliação. O resultado do Enamed não corresponde ao que observamos quando analisamos o produto final da FMC”, afirmou.
Em 2025, a FMC recebeu o conceito máximo (5) do MEC, que avalia qualidade dos cursos, com base em indicadores como corpo docente, infraestrutura e desempenho dos alunos. O Enade, agora o Enamed, são componentes da avaliação.
“A nota dois da faculdade não é condizente com a estrutura do curso que foi graduado com a nota máxima do MEC, o que mostra a eficácia da infraestrutura e dos seus professores”, continuou Artiles.
Sobre as rusgas com os alunos, disse que pode ter afetado o resultado do exame: “uma insatisfação de um grupo de alunos no último ano com a gestão pode motivar negativamente (a realização da prova), isso é algo que tem que ser considerado com muito cuidado”.
A sociedade
Um curso de medicina é um investimento alto para as famílias, que depositam na instituição a confiança de que seus membros sejam formados para exercer uma profissão altamente valorizada.
No entanto, tratar o curso de medicina apenas como um negócio é aceitar que vidas podem ser descartadas como custos do sistema. Com o diagnóstico do Enamed nas mãos, alunos, professores e a direção das instituições devem achar um caminho profilático efetivo, que não apenas exponha fraturas, mas que as tratem.
“Como diretor, na minha época, sempre tive essa preocupação de trazer os alunos para perto e mostrar a importância da instituição, para eles poderem se orgulhar”, disse Artiles. Para o bem de todos, é preciso que esse orgulho seja retomado.
* O atual diretor da FMC, Edilbert Pellegrini, não retornou as tentativas de contato até a publicação desta matéria.
Bancos de areia e assoreamento do rio Paraíba do Sul próximo à cidade de Campos dos Goytacazes. O acúmulo de sedimentos causado por barragens torna o fluxo do rio cada vez mais fraco perto do delta, tornando-o incapaz de proteger Atafona das ondas do oceano (https:/www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2021/10/atafona-rio-de-janeiro-mar-esta-engolindo-cidade-brasileira).
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Foto: Felipe Fittipaldi
A água se constitui como um elemento essencial para a vida. A afirmação — que carrega consigo uma obviedade ululante — torna-se mais palpável no Norte Fluminense quando o Rio Paraíba do Sul seca, ou mesmo quando se enche e causa estragos. Neste janeiro, o rio mostra-se nos menores índices de vazão em décadas, quando deveria estar em seu período de inundações. Quais os motivos da atual estiagem? O que provoca longos períodos de estiagem na região e as inundações recorrentes?
O Paraíba nasce em São Paulo, a aproximadamente 1.800 metros de altitude na Serra da Bocaina. A sua formação hidrológica se dá pela confluência de dois outros rios — Paraitinga e Paraibuna — se constitui como o principal recurso hídrico de dezenas de cidades ao longo de seu curso, que contempla 1.137 km no sentido geral oeste-leste, até desembocar no oceano Atlântico no distrito de Atafona, município de São João da Barra, no Norte Fluminense.
Com uma área de drenagem de cerca de 62 mil km², a água do rio mais importante do Estado garante a vida através do abastecimento de residências, comércios e empresas e é essencial à produção industrial, contemplando o Vale do Paraíba (eixo socioeconômico industrial) e, na porção fluminense, servindo à Baixada Campista, extensa planície fluviomarinha próxima à foz.
As cheias
Existe uma máxima entre quem depende do rio para viver e produzir no norte do Estado do Rio de Janeiro que afirma serem as chuvas de São Paulo as causadoras de cheia. A percepção popular tem base científica, mas é incompleta: entre os principais afluentes do Paraíba do Sul estão os rios Pomba e Muriaé que deságuam na região e contribuem significativamente para o regime hidrológico no trecho final do Paraíba, em sua foz.
Em condições naturais, o Paraíba do Sul apresentava vazão média de longo termo em torno de 1.100 m³/s, o que seria suficiente para que o caudal cumpra seu papel. Porém, esse regime foi alterado por diversas intervenções (reservatórios e desvios) e o uso intensivo do solo em alguns locais, deixando áreas antes cobertas por Mata Atlântica, hoje restrita a fragmentos. O Paraíba foi severamente afetado por represas e captações e pelas chamadas “pressões antrópicas” — impactos negativos das atividades humanas no meio ambiente.
Então governador do Rio, Chagas Freitas, toma banho no rio Paraíba do Sul para mostrar que a água estava limpa, em 1982. O governador ainda bebeu a água do rio.
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Agência O Globo
Historicamente, as cheias do Paraíba do Sul estão diretamente relacionadas a eventos de precipitação extrema na bacia, sobretudo durante o verão. Chuvas intensas concentradas em poucos dias geram grandes volumes de escoamento que excedem a capacidade dos rios, provocando enchentes. As chuvas nas áreas serranas e na Zona da Mata (região de cabeceira de afluentes como Pomba, Muriaé, Pirapetinga e Piabanha) são particularmente críticas.
O Rio Paraíba é como uma grande aorta, que drena e recebe sangue (água) de artérias menores, que no caso do rio são os “tributários” ou “afluentes”. Quando esses transbordam levam ao transbordamento do rio principal. A região Norte Fluminense conviveu com inundações significativas desde o início do século XX — por exemplo, cheias de grande porte foram registradas em 1925, 1943, 1961 e 1966, afetando várias cidades ribeirinhas.
Nas últimas décadas, eventos notáveis incluem as cheias de 1979 e 1985 (atingindo amplamente o noroeste fluminense), bem como as de 2007 e 2008, quando o rio superou cotas de inundação e desalojou milhares de pessoas em municípios do baixo Paraíba. Em janeiro de 1997 e janeiro de 2011, a cheia alcançou níveis críticos causando destruição em municípios do Norte e Noroeste Fluminense, com rompimento de diques na localidade de Três Vendas, em Campos, em 2011, por exemplo. Nessas ocasiões o Paraíba inundou de forma generalizada.
De maneira geral, as cheias catastróficas resultam da combinação de solo já encharcado por chuva contínua e episódios de precipitação extrema concentrada, potencializados pela drenagem rápida das encostas desmatadas e pela convergência de picos de vazão de múltiplos afluentes.
Para atenuar as cheias, os “reservatórios de regularização” atuam como o principal instrumento.
João Gomes de Siqueira
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Ceivap
“O Paraíba tem várias ‘fozes’, Atafona, Barra do Furado (em São João da Barra) e Gargaú e Guaxindiba (em São Francisco de Itabapoana) e aqui (Campos) ele se espraia. Ele entra no mar com pouca vazão, pois não tem diferença de altitude. A cheia aqui se espraia, e esse volume monstruoso que chega aqui (Norte Fluminense), cerca de 6.000 m³ por segundo, como aconteceu em 2007, 2008 e 2022, poderia ser reservado. Essas águas advém de uma chuva muito concentrada, chove muito em Minas Gerais, que tem muita declividade, vem a água com muita rapidez principalmente no rio Pomba e atinge o Paraíba em Itaocara e causa inundação. A foz leva em torno de 15 dias para drenar toda essa água, e passa esse período com mais 11 metros de cota aqui em Campos do rio Paraíba”, disse João Gomes Siqueira, diretor do Comitê Hidrográfico do Baixo Paraíba.
Ainda segundo o diretor, deveriam ser criados esses grandes reservatórios em Minas para controlar as cheias no Norte Fluminense e a água utilizada para amenizar os períodos de estiagem.
Secas
A região é afetada, além das cheias, por longos períodos de estiagem. Períodos prolongados de falta de chuva resultam em redução drástica das vazões do Paraíba e seus afluentes, e por consequência dos níveis dos reservatórios.
Em 2014 e 2015 foi registrado uma seca severa, que afetou diversos municípios da região e causou prejuízos significativos à milhares de produtores rurais. No período, com chuvas muito abaixo da média, desencadeou a pior crise hídrica já registrada na bacia. Eventos de bloqueios atmosféricos e alterações nos padrões meteorológicos (como oscilações do Atlântico Sul ou El Niño/Oscilação Sul) são citados por estudos climáticos como fatores que podem reduzir a chuva no Sudeste, contribuindo para essas secas extremas.
Historicamente, destacam-se outras secas severas: em 1955 foi um ano de vazões extremamente baixas (referência de pior situação hídrica até então), assim como o período de 2003, no qual o volume armazenado do sistema de reservatórios quase atingiu mínimos históricos. Em 2003, medidas emergenciais precisaram ser adotadas, como a redução temporária da vazão defluente controlada na represa de Santa Cecília de 190 m³/s para 160 m³/s, a fim de evitar colapso do armazenamento até a chegada das chuvas.
Avanço do mar em Atafona, São João da Barra. Mudanças na foz do rio Paraíba do Sul.
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Gilberto Pessanha
“Nós perdemos água desde 2015. Essa vazão de 190 m³/s inicialmente era de 250 m³/s, onde distribuía-se 160 m³ para a capital Rio de Janeiro e 90 m³ para o norte e noroeste fluminenses. Isso passou para 120 m³ para a capital e 70 m³ para o Baixo Paraíba, portanto nós perdemos água depois da crise de 2015”, afirma João Gomes.
As alternativas para as crises, estudos prévios e o janeiro atual
O Comitê do Baixo Paraíba desenvolve pesquisas e estudos sobre as crises hídricas da bacia desde 2016. Em 2024, foi identificado pelo órgão que havia uma crise se aproximando, e para contê-la foi solicitado à Agência Nacional de Águas (ANA) que liberasse 40 m³ de vazão para o Baixo Paraíba, pela carência da região e por identificarem que os reservatórios controlados pela ANA estavam elevados.
A ANA negou o pedido do Comitê, e cerca de 45 dias depois dessa solicitação Campos dos Goytacazes teve a “crise da geosmina”, com o município afetado por uma substância associada a episódios de florações de microrganismos na água que levou à iminência da suspensão de abastecimento de água, contornado pela aplicação de carvão ativado nas águas do Paraíba.
Em 2025, o comportamento do rio Paraíba foi semelhante, segundo João Gomes:
“Dezembro de 2025 foi o pior mês da história. A curva de vazão mostra que ele ficou baixo não apenas de junho de novembro, mas não se recuperou em dezembro como nos anos anteriores. Então, podemos afirmar que dezembro de 2025 e este janeiro de 2026 são os piores da história do Paraíba do Sul. Os níveis de vazão aqui em Campos, na estação da ANA em Campos, estão com índices mais baixos do que em 2015, que foram os piores da série histórica até aqui, portanto estamos com uma seca histórica para o período”.
O futuro
As ações antrópicas — barragens, transposições, canais e inúmeras captações — reconfiguraram o balanço hídrico do Paraíba do Sul. Por um lado, proporcionaram benefícios (controle de cheias médias, energia, expansão agrícola e segurança hídrica para centros urbanos distantes), mas por outro, reduziram a resiliência ambiental do sistema fluvial, deixando o baixo curso com menor vazão natural, ecossistemas fragilizados e maior sensibilidade a eventos extremos.
Até aqui há convergência nos estudos que indicam uma tendência de redução das vazões médias anuais do rio ao longo do século 21. Em simulações com modelos regionais (ETA/INPE) sugerem que já até 2040 deve ocorrer decréscimo nas vazões médias em comparação ao clima de períodos anteriores. Existem projeções que indicam possibilidade de até - 65% na vazão média anual em pontos da bacia (como na estação de Santa Cecília) no final do século (2071–2100), segundo um dos modelos analisados.
Embora haja incertezas e outros modelos indiquem quedas menos drásticas ou até estabilidade, o sinal de redução hídrica é preocupante, especialmente na região de Santa Cecília (baixo Paraíba). Em termos práticos, isso sugere maior risco de escassez: períodos secos poderão ser mais frequentes, duradouros e com vazões ainda mais baixas do que as já observadas, aumentando a probabilidade de crises de abastecimento como a de 2014-2015.
A crise hídrica do rio Paraíba do Sul no Norte Fluminense não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma combinação complexa de fatores naturais e antrópicos. Geograficamente, o baixo Paraíba é uma região vulnerável — uma planície costeira no final de um grande sistema fluvial, dependente das chuvas nas distantes cabeceiras e sensível à influência do mar. Historicamente, a região vivenciou tanto secas severas quanto cheias destrutivas, cujas causas residem em padrões climáticos variáveis e, por vezes, extremos.
Se o Paraíba do Sul é a aorta do Sudeste, o Norte Fluminense é a ponta do sistema: é onde a falta de água aparece primeiro — e onde a cheia também demora mais a ir embora. A cada ciclo, a região paga por duas fragilidades ao mesmo tempo. O futuro do Paraíba, portanto, não será resolvido por uma narrativa única — “a culpa é da chuva” ou “a culpa é do desvio” —, mas por decisões técnicas e políticas que promovam regras de operação transparentes, monitoramento fino, redução de perdas, proteção de mananciais e um pacto federativo que trate a água como o que ela é: não um favor, mas um limite físico.
Captação da ETA Guandu, que abastece 9,5 milhões de moradores do Grande Rio: cianobactérias preocupam especialistas, em 2020.
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Foto: Comitê Guandu.
Imagem gerada por Ia a partir do envio do texto já pronto.
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Gemini
Rio, São Paulo e Minas no espelho do Brasil
Edmundo Siqueira William Passos
O pequeno Justus nasceu na cidade de Darmstadt, no sul da Alemanha, nos primeiros anos do século XIX. Seu pai mantinha uma espécie de farmácia, onde comercializava produtos químicos usados em medicamentos e pintura. Havia um pequeno laboratório anexo ao estabelecimento, onde Justus von Liebig cresceu brincando de ser químico — e se tornaria um dos mais importantes cientistas da história moderna.
Entre seus feitos estão o fertilizante artificial e o espelho — ou, mais precisamente, a aplicação de uma fina camada de prata líquida sobre o vidro para criar a imagem refletida.
A imagem que o espelho cria é virtual e invertida, produzida a partir de um elemento real. No Brasil, o espelho, que já foi usado como moeda de troca na colonização, tem refletido uma sociedade polarizada, violenta e desconfiada. Mas qual é, afinal, a imagem refletida do Brasil de hoje? Como o brasileiro se vê — e, mais importante, quais são os elementos reais que produzem essa imagem no espelho?
Essas são algumas das perguntas a que se propõe a responder o mais novo livro do cientista político Felipe Nunes, intitulado “Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros”, lançado pela Globo Livros, em novembro de 2025. Em entrevista concedida ao Folha1 nos primeiros dias de 2026, Nunes — diretor e fundador da conceituada Quaest Pesquisa — falou sobre o conservadorismo no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, as eleições deste ano e os pontos em que o Brasil mais se reconhece — e mais se desconhece.
Para ampliar essa leitura, este texto dialoga também com o geógrafo William Passos, especialista em estatística e pesquisador formado pelo IBGE. Em uma escrita a quatro mãos — uma, analítica; outra, territorial — tentamos esmiuçar o que os números dizem sobre um ano decisivo para o Brasil e, em especial, sobre como o eleitorado do Rio de Janeiro se posiciona diante do conservadorismo, da insegurança e da política.
O conservadorismo no Rio, em São Paulo e em Minas Gerais
Os dados da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” mostram que o conservadorismo brasileiro não é um bloco homogêneo. Ele se organiza como um conjunto de valores relativamente estáveis — ordem, autoridade, centralidade da família, fé e moralidade pública —, mas assume formas distintas conforme a experiência concreta com o Estado, a economia e a violência.
São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais compartilham o rótulo, mas vivem conservadorismos diferentes. Em São Paulo, a ordem está associada à previsibilidade e ao desempenho institucional. No Rio de Janeiro, à proteção e à sobrevivência. E em Minas, à conciliação e à estabilidade. Essas diferenças ajudam a explicar não apenas escolhas eleitorais, mas também modelos distintos de capitalismo, desenvolvimento e relação com o poder público.
Nesse sentido, Nunes insiste que em São Paulo prevalece um conservadorismo de ordem, no qual há uma forte demanda por desempenho. Trata-se, assim, de um conservadorismo mais “institucional”, com forte necessidade de eficiência, previsibilidade, ambiente regulatório com regras claras, meritocracia e punição para quem “atrapalha”.
Por esses elementos, o conservadorismo paulista tende a enxergar o Estado com ambivalência, na medida em que, por um lado, aceita o Estado quando este entrega serviços públicos essenciais, como saúde, educação, infraestrutura e segurança, mas, por outro lado, o rejeita quando o Estado ganha a forma de burocracia, corporativismo ou “privilégio”. Ainda a este respeito, Nunes lembra que, no conservadorismo dominante em São Paulo, a moralidade aparece, porém, frequentemente colada ao discurso de responsabilidade e disciplina.
Por outro lado, no estado do Rio de Janeiro, o que prevalece é um conservadorismo de segurança, no qual há uma forte demanda por proteção, o que é explicado, na visão de Nunes, pela insegurança cotidiana, com atributos — violência armada, crime organizado, territórios capturados, entre outros — que empurram o conservadorismo para o eixo da proteção. Esse cenário é explicado pela contingência da garantia do direito a não morrer.
Ainda no espelho do Rio de Janeiro, Nunes constata que o Estado é visto como ausente, frágil ou capturado, o que, por sua vez, explicaria o crescimento da tolerância social com “soluções duras” e com lideranças que prometem controle. Em paralelo, revelando o alto e forte contraste interno do conservadorismo fluminense, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, o cientista político identifica bolsões cosmopolitas e libertários relevantes.
Por sua vez, no espelho de Minas Gerais, que no seu íntimo reflete o Brasil, o que se impõe, na avaliação de Nunes, é o conservadorismo de conciliação/pragmatismo, que, mais “temperado”, valoriza família, tradição e ordem, mas costuma ser menos performático e mais pragmático. Outro achado importante da pesquisa que gerou o livro “Brasil no espelho” é o forte peso, no conservadorismo mineiro, do que Nunes chama de redes locais, municipalismo e “política do possível”. Espinha dorsal deste singular conservadorismo, a política do possível tende a punir radicalismos percebidos como ameaça à estabilidade, o que explica o fato do conservadorismo mineiro frequentemente se traduzir em moderação e “cautela” — o eleitor mineiro demanda segurança e entregas, mas desde que não haja rupturas.
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Como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico
Perguntado sobre como o conservadorismo se reflete na dinâmica do capitalismo e do desenvolvimento econômico, Nunes revela que os valores dominantes, por si só, não determinam o desenvolvimento, mas influenciam o tipo de coalizão política e o “clima institucional” que cada estado brasileiro constrói — e isso, por sua vez, se reflete na dinâmica do investimento, da produtividade, da informalidade e da capacidade estatal.
Nesse cenário, Nunes enxerga o conservadorismo de São Paulo como pró-previsibilidade, o que, por sua vez, favorece um capitalismo mais orientado à produtividade, competição, governança e à formação de cadeias complexas — indústria, serviços avançados e finanças. Este modelo de conservadorismo, por sua vez, pressiona por políticas públicas mais “gerenciais” — metas, controle, entrega e regulação mais estável —, ao mesmo tempo que tende a premiar governos com boa reputação de administração e infraestrutura.
Por outro lado, no caso do estado do Rio de Janeiro, o eixo proteção/segurança encarece o capitalismo. Isso acontece em função do aumento do custo de transação, além dos custos do risco, da informalidade e das “economias de coerção”. Assim, em função desta estrutura, a economia acaba por ficar mais sensível aos ciclos da renda extrativa/rentista — óleo, royalties e grandes contratos — e, ao mesmo tempo, menos sustentada por um ambiente amplo de pequenos e médios negócios protegidos por instituições fortes. Portanto, a promessa de “retomada” do controle territorial acaba por virar uma agenda econômica indireta, na medida em que, sem ordem territorial, a economia não floresce.
Finalmente, no caso de Minas Gerais, o pragmatismo e a busca por estabilidade tendem a produzir um capitalismo mais incremental, na visão de Nunes, isto é, diversificado — mineração, agro, indústria e serviços — e com forte peso da interiorização e da formação de cadeias regionais. Isso acontece porque a preferência por conciliação facilita a formação de arranjos de investimento e de infraestrutura quando há coordenação. Por outro lado, o capitalismo incremental mineiro acaba produzindo um efeito colateral importante, que é o gradualismo excessivo quando há a necessidade da realização de reformas, o que é explicado pelo predomínio da lógica menos “ruptura” e mais “ajuste”, baliza fundamental para a garantia da previsibilidade política e dos pactos locais firmados.
O espelho real e o distorcido
No fim, o que “Brasil no espelho” revela não é apenas a diversidade dos conservadorismos regionais, mas a dificuldade histórica do país em reconhecer a própria imagem sem distorcê-la. São Paulo se vê como engrenagem e o Rio, como um estado onde não se aplicam as mesmas leis dos “outros”, e Minas, como fiadora da estabilidade possível. Cada qual se reconhece — e se protege — a partir de sua própria experiência com o Estado, a economia e o medo.
Como no espelho de Liebig, a imagem que se forma não é falsa, mas invertida: parte de um elemento real, porém reorganizada por camadas de expectativa, insegurança e memória coletiva. O desafio político de 2026, mais do que escolher entre direita e esquerda, será compreender que o Brasil não cabe em um único reflexo.
Talvez o maior risco esteja justamente em insistir em buscar respostas uniformes para sociedades que se organizam a partir de medos distintos. Enquanto isso, o espelho segue posto. Não para nos dizer quem deveríamos ser — mas para revelar, com desconforto, quem de fato somos quando ninguém está olhando.
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Edmundo Siqueira
Um círculo se formava em frente ao palco. Cadeiras brancas, de plástico, acomodavam organizadores e participantes do festival — discutiam-se os problemas e apontavam-se soluções para as próximas edições. A principal queixa era a falta de público. A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), uma espécie de secretaria de cultura da cidade e organizadora do evento, era cobrada a respeito da qualidade e antecedência da divulgação das mesas, vindas da programação proposta pela curadoria que estaria por conta da sociedade civil.
A mesa subsequente àquela discussão trataria sobre o fechamento da “Ao Livro Verde”, livraria tida como a mais antiga do Brasil enquanto estava em funcionamento em Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro. Debatedores e público presente tentavam encontrar um caminho para que a livraria renascesse e ocupasse novamente o posto da longevidade no país. Embora houvesse propostas factíveis e gente disposta a apoiar a iniciativa, havia no ar um saudosismo irrevelado, quase como se todos ali soubessem que aquele seria um sonho distante, e incapaz de atrair apoio do poder público local.
Os dois acontecimentos se deram na noite de 9 de novembro de 2025, três dias depois da reinauguração do prédio denominado “Palácio da Cultura”, local onde estava sendo realizado o festival. Batizado com o sugestivo nome de FDP!, o Festival Doces Palavras encerrava sua sexta edição naquela noite.
O episódio que narro até aqui possui uma forte relação simbólica com a cidade de Campos, no geral. O próprio Palácio que abrigou o referido festival, representa como o poder público encara os patrimônios materiais que dispõe sob o seu jugo — descaso que não tem apenas relação com o governo da ocasião, mas como uma forma de governar que se perpetua por décadas, quase como um “modelo de Estado campista”. O palácio é uma construção de beleza arquitetônica icônica, pensado sob linhas vanguardistas europeias nos anos 1970, combinadas ao modernismo e ao concretismo brasileiros, e que contou ainda com jardins assinados por Burle Marx. Mesmo incrustado na área mais valorizada da cidade, permaneceu fechado por mais de uma década.
O fechamento do Palácio da Cultura por tanto tempo não expõe apenas o descaso patrimonial. Representa, fielmente, o deserto de ideias e políticas públicas que assola o município. O “modelo de Estado campista” é carente de ações estruturantes. Campos é uma cidade histórica, extremamente representativa do período imperial do Brasil e da produção de cana-de-açúcar. Conta também boa parte do processo escravagista do país. E nenhuma das duas características são exploradas de forma turística, tampouco em educação patrimonial e ações antirracistas.
Inexiste em Campos uma política pública patrimonial como há em cidades como Ouro Preto (MG) e Petrópolis, também no interior do Rio. Embora existam problemas na conservação patrimonial nessas cidades, o ativo construído por mais de um século é explorado e gera divisas. Portanto, Campos ignora seu passado e por isso dá as costas ao futuro que poderia ter.
Interior do Palácio da Cultura, em 2018. Obras haviam começado em 2014 e foram paralisadas em 2016. Seguiu fechado por mais de uma década.
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Foto: Divulgação/Prefeitura de Campos
A estagnação como projeto
Para além do potencial em patrimônio e história, Campos vem se consolidando como uma cidade de serviços. Pela proximidade com uma zona portuária significativa e sua posição geográfica entre capitais importantes (Rio e Vitória), ser polo universitário e por Campos oferecer a melhor estrutura da região em comércio, shoppings, vida noturna e lazer, a cidade acaba por concentrar moradores imigrantes vindos de outras cidades menores e população flutuante que utiliza constantemente oos serviços oferecidos.
O que à primeira vista pode parecer uma qualidade — e traz benefícios, porém limitados e limitantes —, acarreta estagnação no município em três frentes importantes: a primeira diz respeito à industrialização. Com exceção de algumas iniciativas industriais, principalmente ligadas à cana-de-açúcar, Campos atraiu poucas indústrias e teve tentativas frustradas na criação de zonas industriais circundando a cidade.
A segunda estagnação — talvez a mais danosa quando pensado em um município com a extensão territorial de Campos — está relacionada à concentração de serviços, oportunidades de emprego e educação na área central. A cidade, popularmente chamada de “pedra”, mantém concentrada não apenas a iniciativa privada como os esforços públicos em infraestrutura. Regiões de alto potencial turístico como Imbé e Lago de Cima seguem sem acesso satisfatório, transporte público eficiente e serviços básicos como segurança e esgotamento sanitário precários.
A terceira estagnação está no agronegócio. Tido por mais de um século como a atividade mais importante do município, poderia gerar divisas e empregos com os espólios dos tempos áureos, mas segue com baixa tecnologia aplicada, deficiência de pessoal especializado e inexistência de programas de irrigação com incentivo público.
Segundo o Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (Nuperj), da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o saldo de empregos acumulado em outubro de 2025 (veja aqui) para o Estado do Rio de Janeiro foi de apenas 641, enquanto serviços acumulou um saldo de 65.339 empregos. Na indústria, fortemente puxado por distritos industriais no grande Rio, teve saldo positivo de 13.983.
Os dados apresentados e as avaliações empíricas em relação a Campos são ainda mais estagnantes se pensarmos em indústria fina e tecnologia da informação. Não seria ilógico pensar que uma cidade com quase meio milhão de habitantes conseguisse produzir um ecossistema mínimo de tecnologia e inovação.
Lago de Cima, Campos dos Goytacazes. Local subutilizado em turismo.
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Foto: Leonardo Berenger
Quando o entorno avança
Em comparação com vizinhos próximos, o Nuperj informa que em Macaé, com uma população estimada de 264.138 habitantes em 2024, registrou um estoque de 130.321 empregos formais em 2023, sendo o município, além de produtor de petróleo, sede de um conjunto importante de empresas que operam na atividade offshore da indústria petrolífera.
São João da Barra com uma população estimada de 38.708 habitantes em 2024, registrou um estoque de 21.009 empregos formais em 2023. “Uma discussão importante a esse respeito passa pelas teorias de aglomerações produtivas e as correspondentes externalidades (Ribeiro e Hasenclever, 2019), e sendo “consenso na literatura internacional que aglomerações dessa natureza costumam atrair fluxos consistentes de capital e tecnologia, com reflexos ampliados em indicadores como PIB, Renda, emprego, etc”.
Em contrapartida, “os territórios não se constituem de boa capacidade de absorção das externalidades positivas, a sua fuga é inevitável, sendo fixadas somente as externalidades negativas associadas à poluição, pobreza, violência, desemprego e outros problemas da mesma natureza”, conforme matéria publicada no Folha1, em março de 2025 (veja aqui).
Prefeitura Tentacular
Em um município com as características de Campos, é fundamental que o poder público local se articule com outros entes federativos e ofereça à população e aos investidores privados as melhores condições possíveis em infraestrutura e facilidades para expansão habitacional e empresarial.
O que se vê, historicamente, é uma cidade que faz o contrário. As políticas públicas, quando existentes, servem a fins eleitorais ou a interesses de nichos específicos. Estradas vicinais, asfaltamento urbano, anéis rodoviários, pontes, melhorias em educação básica e saúde, programas de segurança pública, ações ambientais e outras ações estruturantes respondem a problemas, mas não demonstram planejamento.
A prefeitura local se mostra, há vários governos, mantendo o “modelo de Estado campista” como um organismo tentacular, que mantém sob seus desígnios boa parte da força de trabalho empregada e um sistema de compadrio — ou um capitalismo de compadres — que cria uma interdependência proposital entre atores públicos e privados.
Politicamente, é um sistema interessante aos objetivos eleitorais estaduais. Não é surpreendente que existam atores locais com força política estadual ou ocupando cargos estratégicos da máquina administrativa do Rio de Janeiro. O próprio modelo político implantado historicamente em Campos favorece que a cidade seja usada como trampolim, e ajuda a explicar muito das ações da prefeitura e a ausência de políticas públicas.
Além das ações propositalmente eleitoreiras, as boas iniciativas da prefeitura esbarram em movimentos contrários da sociedade civil, que se colocam contra intervenções que afetem o meio ambiente ou comunidades tradicionais, por exemplo. Essas oposições da sociedade civil além de rotineiras em democracias consolidadas, servem para que o poder público calibre suas ações e conciliem os interesses distintos, mantendo o interesse público em primeiro plano quando forem inconciliáveis.
Vejamos o caso do Mercado Municipal em Campos, exemplificativo e simbólico nessa questão. Há na região central da cidade uma praça de Mercado com mais de 100 anos, instalada por questões logísticas e econômicas que não mais se justificam. Nos anos 1980, foi construída uma estrutura metálica que iria abrigar temporariamente a feira de peixe e verduras. A estrutura permanece até os dias de hoje. Além dela, outra grande estrutura que abriga um camelódromo esmaga o prédio histórico, tornando-o invisível, além de manter, abaixo das estruturas, condições precárias para feirantes e clientes.
Mercado Municipal de Campos: espremido entre estruturas equivocadas.
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Foto: Genilson Pessanha
A prefeitura propôs que fosse utilizado uma praça próxima ao Mercado, cerca de 250 metros, localizada nos fundos da rodoviária central da cidade. Além de uma nova feira, estavam contemplados no projeto áreas de convivência e aberturas de restaurantes, e ainda um Banco de Alimentos, que distribuiria alimentos que seriam descartados à população em situação de rua e vulnerabilizados. A iniciativa encontrou resistência principalmente sobre a utilização da praça, que possui árvores e construções, mas também da remoção da feira do local que permanecia há um século (veja matéria sobre os 104 anos do Mercado, aqui).
Embora ambas fossem manifestações justas, a praça encontrava-se em abandono e assim permanece. As condições dos feirantes e clientes mantêm-se da mesma maneira. A prefeitura se retraiu quando encontrou resistência, possivelmente por receio de incomodar o eleitorado e direcionou o orçamento para outras áreas. A iniciativa com potencial transformador da área central e cultural da cidade, ficou anestesiada.
Isso se repete sistematicamente. É possível citar o abandono do sambódromo público, chamado de CEPOP, a falta de aproveitamento da Cidade da Criança, ações meramente maquiadoras na área do cais da Lapa, o Palácio da Cultura por mais de 10 anos fechado, solares em ruína, casarios doados à prefeitura sem utilização e também em ruínas como o Olavo Cardoso.
Modelo de Estado Campista
O problema, portanto, não é a ausência de potencial, mas a persistência de um modelo. O “modelo de Estado campista” não fracassa por ignorância técnica ou falta de diagnósticos — fracassa porque não foi concebido para induzir desenvolvimento, mas para administrar permanências.
Campos não é uma cidade abandonada pelo Estado. É uma cidade administrada para não mudar demais, demonstrando que sua estagnação faz parte de um projeto fisiológico de poder.
Trata-se de um Estado que funciona melhor na exceção do que na regra, que responde a crises pontuais com ações episódicas, mas se esquiva sistematicamente de políticas de longo prazo. Um “Estado Campista” que prefere inaugurações simbólicas a processos contínuos; eventos a estruturas; remendos a reformas; pinturas a revitalizações.
Nesse modelo, a estagnação não é um efeito colateral indesejado — é um componente funcional. A cidade que não diversifica sua economia permanece dependente, e quando não organiza seu território reforça desigualdades. Não investindo em educação patrimonial ou inovação, limita a formação de pensamento crítico e reduz sua capacidade de reivindicação e formulação prática de seu futuro.
O Palácio da Cultura fechado por mais de uma década, a livraria histórica encerrada sem mobilização efetiva do poder público, as regiões de potencial turístico relegadas à precariedade e a ausência de uma política industrial consistente não são episódios desconexos. São manifestações distintas de uma mesma lógica: a de um Estado que governa o presente sem compromisso com o futuro.
Campos segue presa a uma ideia de centralidade que não se converte em liderança regional. Atrai pessoas, mas não fixa projetos. Concentra serviços, mas não multiplica oportunidades. Produz circulação, mas não gera transformação. O resultado é uma cidade que se move sem sair do lugar.
Regionalismo, Cidennf e abandono da ideia de capital do Estado
Campos já pensou em ser a capital do Estado do Rio de Janeiro. Nas mudanças promovidas pela União, que mudou a capital da República para Brasília e criou o Estado da Guanabara, as elites campistas tentaram fazer de Campos dos Goytacazes a capital, iniciativas facilmente comprovadas em periódicos locais dos anos 1960 e 1970, e anteriormente, quando o município era um potente produtor de cana-de-açúcar.
A ideia foi vencida por Niterói, e depois novamente pela cidade do Rio de Janeiro. Porém, parece ter permanecido no imaginário das elites de Campos a vontade de ter centralidade estadual, quando na verdade seria necessário que se criasse uma política voltada à regionalização do Norte e Noroeste Fluminense.
Campos exerce organicamente a liderança dessas regiões, pelas características e motivos aqui elencados e mesmo com as dificuldades também aqui apresentadas. Portanto, voltar-se aos municípios regionais não seria uma fraqueza e sim um direcionamento estratégico mais lógico e mais efetivo economicamente.
Para tanto, já existe o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento do Norte e Noroeste Fluminense (Cidennf), que conta com nove câmaras técnicas setoriais distribuídas em diversas áreas, como saúde, turismo, desenvolvimento regional, cultura e educação. Apesar de constituir-se como um órgão consultivo e deliberativo, o Cidennf se mostra um instrumento potente para produzir o regionalismo necessário para cidades como Campos e seus vizinhos (site do Cidennf aqui).
Promover arranjos regionais se mostra fundamental para a realidade desses municípios, que ao unir esforços e pensar conjuntamente políticas públicas, estabelecem planejamentos de médio e longo prazos, com real poder transformador.
Soluções já dadas
Campos não carece de planos, diagnósticos ou recursos. Carece de decisão política para romper com um modelo que transforma a exceção em regra e a permanência em método. Enquanto o “Estado campista” seguir operando para administrar dependências, toda tentativa de transformação será episódica, toda promessa de futuro será adiada.
O que está em disputa não é apenas o desenvolvimento econômico ou a revitalização urbana, mas a capacidade da cidade de voltar a se pensar como projeto coletivo — e não apenas como território administrado.
A roda de cadeiras de plástico montada diante do palco, discutindo a falta de público, não era apenas uma cena cultural, no Palácio da Cultura reaberto. Era uma metáfora da cidade. Campos segue debatendo seus próprios limites sem decidir se quer ultrapassá-los. Enquanto isso, o palco permanece montado, as luzes acendem, o espetáculo começa — e o futuro, mais uma vez, não entra em cartaz.
RIBEIRO, Rodrigo; HASENCLEVER, Lia. Aglomerações produtivas, desenvolvimento regional e políticas públicas. Revista Brasileira de Inovação,
NÚCLEO DE PESQUISA ECONÔMICA DO RIO DE JANEIRO (NUPERJ). Boletim do mercado de trabalho do Estado do Rio de Janeiro: outubro de 2025. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2025.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO (UENF). Núcleo de Pesquisa Econômica do Rio de Janeiro (NUPERJ). Campos dos Goytacazes, 2025. Disponível em: <https://www.uenf.br>. Acesso em: dez. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estimativas da população residente nos municípios brasileiros: 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br>. Acesso em: jan. 2026.
FOLHA1. Externalidades negativas e desenvolvimento regional no Norte Fluminense. Folha1, Campos dos Goytacazes, mar. 2025.
Pesquisas recentes informam o que eu já sabia: o brasileiro valoriza sobremaneira a família. Descontadas as margens de erro — que nada mais fazem além de ir ao encontro da ideia rodriguiana que a unanimidade é invariavelmente burra —, cerca de 90% de nós, nascentes e viventes nesta terra, creem ser o amor o sentimento fundante da família, independente do modelo que se adote. Por volta de 95% concordam com a frase que afirma ser a família a coisa mais importante da vida.
Não proponho ilusões aqui. Nem mesmo natalinas. O Brasil é um país autoritário e violento, e a mesma pesquisa demonstra que somos extremamente desconfiados, não acreditamos no vizinho, nas instituições e muito menos nos políticos. Depositamos nossa confiança na família.
O núcleo familiar, nem sempre composto por vínculos sanguíneos, é onde vivemos plenamente. É a nossa Ítaca, nossa terra, nossa pátria. Viver bem em família significa viver bem na vida, e o contrário se faz verdadeiro. Se houver alguma pesquisa entre pessoas em situação de rua será constatado que muitos estão na vida miserável pelo alijamento de sua família. Portanto, não se trata de uma casa, e sim relaciona-se com um lar.
A escolha de Ulisses (Odisseu) por Ítaca, presente nos cantos V e VII da “Odisseia”, escrita pelo poeta grego Homero, mostrou como o herói da guerra de Tróia respondeu à proposta mais indecente que um homem pode receber: não morrer.
Na ilha de Ogígia, a belíssima deusa Calipso lhe ofereceu a eternidade embrulhada em conforto. Juventude sem prazo de validade, amor divino, prazer sem consequência. Nada de rugas, nada de luto, nada de despedidas. Um paraíso administrado por uma deusa apaixonada. Mas Ulisses renunciou.
Ulisses renunciou por amor, mas principalmente para não renunciar à própria condição humana. Entendeu que a imortalidade cobra um preço alto demais, o levaria a deixar de pertencer a algum lugar, a alguém, a uma história que começa e termina. Ele escolheu Ítaca — pequena, pedregosa, cheia de problemas. Escolheu Penélope — mortal, envelhecida pela espera, imperfeita como só os humanos são. Escolheu o tempo, com tudo o que ele carrega: desgaste, perda, saudade e sentido.
Ao renunciar à Calipso, Ulisses faz a escolha mais radical da literatura ocidental: prefere ser homem a ser deus. Faz essa escolha na certeza de que mais vale ser um mortal em seu lar, em sua pátria e em sua família, a ser um deus imortal à distância física e emocional do que lhe constituía como pessoa.
O que Homero nos ensina escrevendo há cerca de 2.700 anos, é que há as renúncias necessárias e ao mesmo tempo há as renúncias inegociáveis. O Natal de hoje continua a exigir de nós a escolha de nossas renúncias. Porém, na contemporaneidade, renunciar ao ódio é fundamental. Porquanto, não é no ódio que está a confiança da quase totalidade dos brasileiros, e sim no amor, na família.
O que ainda é demonstrado na pesquisa, que também não carece de grandes comprovações, é que o brasileiro é religioso. E cristão, em sua maioria. Portanto, tem Jesus Cristo como o Messias escolhido para guia espiritual. Basta ler um pouco dos textos sagrados cristãos para perceber que é fundante em amor o que o judeu Yeshua trouxe ao mundo. E em renúncia.
O Natal representa o nascimento de Cristo, e para o brasileiro representa a família, em pé de igualdade em importância. As tradições e costumes natalinos acontecem em volta de uma mesa, com comidas e bebidas, assim como foi a Santa Ceia. Pão e vinho para a família, com todos seus significados.
Escolhemos nossas renúncias pela família. Que consigamos renunciar ao ódio em nome da coletividade de uma pátria que, gostemos ou não, é nossa Ítaca. Onde somos mortais e imperfeitos, mas onde nos reconhecemos. E onde criamos nossa família.
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O que definirá as eleições de 2026 — quais serão os candidatos e como eles se apresentarão — depende de um jogo de poder complexo e constante. O eleitor tem o poder democrático de escolha, mas a questão é que ele se dá a partir de uma cartela de opções definida por partidos políticos e por quem detém o poder real — acumulado ao longo de eleições passadas.
Qual a escolha mais importante, presidente e governadores ou deputados e senadores? Será uma eleição polarizada e apertada? Ou surgirá uma “terceira via” com votos o bastante para desequilibrar o jogo? O Congresso ficará com a direita, com a esquerda, ou dominado pela extrema-direita?
O voto para o executivo e legislativo não se equivalem em peso simbólico. A presidência da República carrega o imaginário do poder, o carisma do “líder nacional”. Governadores, embora mais raro, também encarnam esse papel nos estados. Mas são deputados e senadores que moldam, silenciosamente, a arquitetura do poder, em um país que criou um “presidencialismo de coalizão” e mais recentemente um “orçamento secreto” que dá muito poder ao Congresso.
A quantidade de recursos disponíveis no Congresso e a grave crise institucional que o Brasil se meteu, deixarão as disputas pelo Senado e Câmara acirradas e determinantes para os projetos de poder em curso.
Senado como praça de poder da extrema-direita
O voto no Executivo é um ato quase emocional, narrativo, de identidade. O voto no legislativo, na maioria dos casos, é marcado pela invisibilidade — muitos sequer se lembram em quem votaram. O resultado é uma distorção estrutural, onde o eleitor escolhe quem governa, mas tende a ignorar quem estará no jogo político com uma quantidade determinante de cartas na mão.
Os jogos de poder dependem de bastiões — muros e trincheiras de contenção para as ações dos oponentes políticos que estejam mais fortes. Para a extrema-direita brasileira, construída e fortalecida a partir do advento do bolsonarismo, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi o bastião para suas pretensões mais ousadas de poder.
Em 2020, quando Bolsonaro tentou impor uma “vida normal” aos brasileiros em uma das pandemias mais mortais da história recente, o STF garantiu a autonomia de prefeitos e governadores para determinarem medidas de isolamento. Em 2022, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) fazia blitz buscando impedir que eleitores do Nordeste votassem, ou não desobstruíssem as rodovias tomadas por caminhoneiros, lá estava o Supremo agindo. Quando tentaram dar golpe de Estado, a Corte de novo.
Não é gratuito que o Supremo seja eleito como o inimigo principal do bolsonarismo e da extrema-direita. A Corte — cometendo ou não excessos, agindo ou não em autopreservação e atitudes suspeitas — esteve na linha de frente da contenção autoritária de poder. Além da necessidade de ser combatido no jogo de poder, se mostrou como elemento de união da extrema-direita eleito como inimigo número um.
E onde é a única praça de poder possível de ser o STF combatido? O Senado Federal.
O único caminho
Conquistar a maioria no Senado é a primeira tarefa do bolsonarismo. Como todas as pesquisas sérias apontam, a eleição presidencial é um sonho distante e quase impossível. Portanto, vencer no legislativo não apenas mantém a extrema-direita ativa como abre a possibilidade de interferir no Supremo.
Ao que vem demonstrando, nas escolhas que tem feito, Bolsonaro, ainda como líder de um movimento de massa, não pretende conquistar a presidência em 2026, e sim controlar o Senado e parte da Câmara para poder colocar em prática um plano de poder de longo prazo.
Executivo deve governar com o legislativo eleito
Porém, é da democracia. Não se pode reclamar da “qualidade” dos parlamentares eleitos, justamente por estarem lá por decisão popular, em eleições limpas e diretas. Respeita-se a vontade do eleitor; e pronto. Questionar o sistema que acaba permitindo essa composição no legislativo é necessário, mas enquanto isso não acontece, é preciso conviver com o Congresso que temos.
E, convenhamos, não vem do legislativo todo mal da política brasileira.
As eleições de 2026, portanto, não serão decididas apenas nas urnas do Executivo, mas no silêncio das urnas do Legislativo. Enquanto o debate público se concentra em nomes, slogans e carismas, o poder real pode estar sendo reorganizado em outro tabuleiro — menos visível, porém mais duradouro.
O risco não está em quem vencerá a Presidência, mas em quem terá força suficiente para limitar, constranger ou paralisar o sistema de freios e contrapesos. Democracias não morrem apenas por golpes explícitos; muitas vezes, definham pela normalização do jogo duro institucional.
E é nesse ponto que o eleitor, mais uma vez, será chamado a decidir se quer apenas escolher um governante — ou assumir a responsabilidade pelo regime que ajudará a sustentar.
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Gemini (Google)
Clara não assistia todas as aulas. Cabulava uma ou outra, sempre no boteco em frente à faculdade. Naquela quinta-feira não foi diferente; ela e mais uns quatro amigos resolveram substituir as últimas disciplinas do dia pela cerveja gelada e a mesa de sinuca.
Alguns alunos moravam por ali perto do campus e outros, como Clara, precisavam pegar ônibus para voltar para casa, em cidade vizinha.
— Oxi! Esqueci meu Vade no boteco! — exclamou Clara, mais alto que gostaria, sentada na poltrona do fundo do ônibus.
— Já era, mano. — Teve como resposta desanimadora de sua companheira de viagem.
“Vade” é uma maneira carinhosa que os alunos de direito chamam o Vade Mecum: camalhaço de leis, acórdãos e súmulas. Em geral dividido por temas e cores, o “vade” é enorme e pesado. E não tem doutrina, é letra fria da lei, e pronto.
Enquanto Dona Lena limpava as últimas mesas do boteco, achou o livro em uma das cadeiras de plástico. “Que troço grande!”, colocou o alfarrábio no balcão com dificuldade, segurando com uma mão apenas, outra na vassoura, e pensou como os meninos carregam aquilo para cima e para baixo, a todo tempo. Evangélica, D. Lena pensou que podia ser uma bíblia, seria mais proveitoso aos discentes que frequentavam o bar no lugar das aulas.
Serviço terminado, Dona Lena decidiu dar uma folheada nas páginas de textura fina e lisa do Vade Mecum, lembrou novamente do livro sagrado. “Art. 121. Matar alguém: pena - reclusão, de seis a vinte anos”. Continuou no Decreto-Lei no 2.848, de 1940: “art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa”.
Achou muito simples aquilo que leu em comparação com toda a hermenêutica que escutava dos doutores, e suas expressões em latim. Afinal, era aquilo que toda a gente já sabe. “Matar é errado, roubar dá cadeia, pagar pensão evita confusão”, resmungava, arrastando o pano de chão para guardá-lo.
Quando viu o nome da dona do livro rabiscado na contracapa — Maria Clara A. Ferreira — achou graça. “Ah, é daquela menininha que vive rindo alto e nunca chega a tempo da primeira aula.” E resolveu guardar o Vade Mecum atrás do freezer, onde ninguém mexia. O freezer era mais seguro que muito fórum por aí.
Mas, enquanto trancava o bar, Dona Lena ainda pensava nas palavras secas da lei. Achou curioso como no Vade Mecum tudo parecia definitivo, organizado, engavetado em artigos e penas — como se a vida fosse simples assim, como se bastasse aplicar incisos e parágrafos para resolver o drama humano.
D. Lena não sabia da subjetividade estudada no direito penal, e ignorava a importância do animus necandi de quem mata, mas sabia que só um vade debaixo do braço não resolve.
No caminho para casa, Clara pensava no contrário: que o Direito era complicado demais, cheio de teses, de autores, de divergências, de exceções que engolem as regras. Pensava em como cada professor fazia questão de lembrar que era preciso ler mais a doutrina do que decorar a lei, e aquilo, ainda no 3º período, era algo que sempre a deixava mais confusa do que iluminada.
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Gemini (Google)
As duas — sem saber — refletiam sobre o mesmo livro.
E talvez fosse justamente ali, entre o freezer e o balcão engordurado de cerveja, que repousava uma verdade que nenhum manual trazia: a de que o Direito tenta controlar a vida, enquanto a vida insiste em escapar de qualquer regulamento.
A sabedoria popular sabe disso desde antes de Roma, mas alguns juristas fingem que não ouviram.
Ubi homo, ibi societas; ubi societas, ibi jus. Onde há pessoas, há sociedade; onde há sociedade, há Direito.
Dona Lena fechou a porta de metal, deu dois giros na chave e murmurou, sem saber que fazia filosofia:
— Direito bom mesmo é o que ajuda o povo a viver… não o que pesa na mochila dos menino.
No dia seguinte, Clara voltou ao bar antes mesmo da aula. Chegou cedo, como nunca. Tinha dormido mal, sonhado que o Vade virava peça de decoração, porta-copo, bandeja de petisco.
Dona Lena viu a menina entrar aflita, e sem esperar pergunta alguma, puxou o livro de trás do freezer e ergueu no ar como um troféu de campeonato amador.
— É seu, né, minha filha?
Clara suspirou enquanto retomava a posse mansa e pacífica do bem subtraído por ela mesma e pelo álcool.
É! Ai, muito obrigada, Dona Lena! — e o Vade nem parecia tão pesado diante do alívio.
— Menina…— disse, ajeitando o avental —, se todo esse povo estudasse a metade do que bebe, esse Brasil já tinha virado Suíça.
Clara riu.
E pela primeira vez entendeu que, embora o Vade Mecum fosse grosso, a vida sempre vinha com parágrafos ainda mais difíceis de decorar.
O deputado estadual do Paraná, Francisco Bührer (PSDB), foi perguntado pela equipe do jornal Gazeta do Povo como ele se posicionava ideologicamente — se era de esquerda ou de direita. A resposta do congressista, em julho de 2007, seria impensável hoje. “Nunca me perguntaram isso”, disse na ocasião, quando ele já contava mais de 20 anos de vida pública.
O restante da matéria da Gazeta (veja aqui) é ainda mais impressionante, aos olhos de hoje: 22 dos 54 deputados da Assembleia Legislativa do Paraná disseram que se consideravam de centro-esquerda, e apenas quatro parlamentares indicaram tendências de direita. O deputado Luiz Accorsi (PSDB) foi o único dos deputados da época que respondeu ao questionário dizendo, sem titubear, que é de direita.
Do levantamento de 2007 até hoje, o Paraná se transformou no quarto estado da federação mais à direita. Segundo pesquisa do DataSenado (veja aqui), feita em junho de 2024, entre os eleitores paranaenses, 36% se consideram de direita e apenas 11% de esquerda. O segundo estado apontado na pesquisa, Santa Catarina, tem apenas 1% a mais de eleitores direitistas.
A mudança
O que essas diferenças demonstram é que não houve apenas uma mudança de humor do brasileiro — seja político ou eleitor — com as esquerdas. Embora ela tenha acontecido, a migração maior foi entre quem não sabia ou não opinava sobre o assunto e passou a se autodeclarar de direita. E uma autodeclaração orgulhosa.
Ser de direita no Brasil até meados dos anos 2000 era um palavrão. A ditadura militar, identificada como direitista, mantinha no imaginário popular o histórico de violência e opressão, e os governos de esquerda que se iniciaram com a primeira vitória de Lula em 2002 ganharam grande apoio popular e altos índices de aprovação — em março de 2003, de acordo com pesquisa CNI/Ibope (veja aqui), a aprovação de Lula atingiu 75%.
Esse cenário começa a mudar drasticamente com o escândalo do Mensalão. Em dezembro de 2005, em pouco mais de dois anos do auge, a aprovação de Lula registrava 42%. Os casos de corrupção descobertos pelo mensalão foram acompanhados como um folhetim pelos brasileiros, mas embora tenha afetado o primeiro governo Lula sua popularidade foi recuperada com sua reeleição.
O então deputado Roberto Jefferson, expondo os envolvidos no escândalo do Mensalão.
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Memoria da Democracia
Mas a recuperação de popularidade de Lula, embora tenha sido fundamental para eleger e reeleger Dilma Rousseff (a presidente chegou a ter apenas 9% de aprovação, veja aqui), não foi o bastante para conter os impactos de uma mega operação então batizada de Lava Jato. Deflagrada em março de 2014, cumpriu mais de mil mandados de busca e apreensão, de prisão temporária, de prisão preventiva e de condução coercitiva, para apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina, denominado Petrolão.
Brasil no Espelho
A pesquisa “Brasil no Espelho” (veja aqui) da Rede Globo, feita em parceria com a Quaest, divulgada em agosto de 2025, considerada como “o maior estudo já feito no país sobre valores, atitudes e percepções”, trouxe vários assuntos e entre eles quantas pessoas no Brasil estariam na direita, na esquerda e no centro.
O que a pesquisa apontou mostra claramente que o brasileiro começou a migrar para a direita a partir de 2014. Naquele ano, direita e esquerda empataram: 29% dos brasileiros se consideravam de esquerda e o mesmo percentual estava no polo oposto. No centro estavam 26%. O que se viu a partir disso foi um crescimento vertiginoso da direita.
De 2014 a 2019, os 29% de brasileiros que estavam na direita passaram a ser 39%. A esquerda caiu um ponto e o centro se manteve. Com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, a direita alcança seu auge até aqui, de acordo com a pesquisa. A partir de 2019, ainda no governo Bolsonaro, a direita começa a declinar e chega a 2023 com 36%, e a esquerda, apresentando uma queda ainda maior, chega a 23%.
Ainda de acordo com a pesquisa, o centro teve um crescimento semelhante ao que teve a direita a partir de 2014. O centro sai de 26% em 2019 para 37% em 2023, superando a direita. A última vez que o centro tinha superado direita e esquerda aconteceu em 2012, quando somava 31% contra 27% da esquerda e 26% da direita.
Disponível em https:/gente.globo.com/brasil-no-espelho/
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Pesquisa ENTITY_quot_ENTITYBrasil no EspelhoENTITY_quot_ENTITY, feita pela Rede Globo em parceria com a Quaest
Esses dois momentos trazidos na pesquisa — 2014 a 2019 e 2019 a 2023 — dizem muito sobre o Brasil e hoje e como o posicionamento político do brasileiro passou a ser uma questão de identidade. E não por coincidência, a Lava Jato marcou a mudança mais radical no gráfico de espectros ideológicos do país, e há dois motivos principais para que isso tenha acontecido.
O primeiro diz respeito à chamada “demonização da política”, quando uma enxurrada de delações, imagens, vídeos e áudios dos malfeitos políticos dominavam o noticiário e passaram a ser o assunto principal nas rodas de conversa da população. O governo, então do PT com Dilma Rousseff, passou a ser visto como um mal a ser extirpado, e ser “de esquerda” assumiu quase a mesma posição envergonhada da direita de 2007, com os deputados do Paraná.
A segunda questão foi a profunda crise econômica que o país atravessava. Tão grave que atingiu índices piores que a recessão dos anos 1930, com uma retração acumulada de 7,2% do PIB em 2015 e 2016, resultado de uma série de choques de oferta e demanda, desvalorização cambial, aumento de juros e inflação.
Foi a tempestade perfeita. Crise econômica e política demonizada construíram um cenário onde o brasileiro médio não se via representado e culpava o governo pelas dificuldades que passava. Não sem razão, criou-se um ambiente de ressentimentos, desconfiança e revolta. Ecos que foram potencializados pelas redes sociais e seus algoritmos que precisam desses sentimentos para manter os acessos em alta.
Identidade pessoal e política
É possível pensar o “fenômeno Bolsonaro” a partir dessa perspectiva, um deputado federal do baixo clero que vocalizava muitos desses sentimentos na tribuna e na televisão e como poucos personificava o antipetismo. Há outros fatores que levaram Bolsonaro ao poder em 2018, mas o processo que a Lava Jato deu início no país em 2014 acabou por criar as condições para que eles coexistissem.
O bolsonarismo como identidade.
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UFRJ
Não foram apenas os números da direita e do centro que cresceram isoladamente, foi, essencialmente, o crescimento de brasileiros que passaram a vincular sua própria identidade à política e à necessidade de se alinhar a um dos polos ideológicos. O posicionamento político passou a fazer parte da identidade do brasileiro e, por consequência, a criação de divisão de grupos polarizantes, que contam com linguagem, símbolos e cores próprias.
O novo crescimento do centro mostra que esse ciclo está chegando ao fim? A recente prisão de Bolsonaro tem força para deixar a direita menos radical? A esquerda conseguirá criar uma afinidade maior com o brasileiro para além da figura de Lula? As próximas eleições serão determinantes para responder essas perguntas.
Mas o fato é que o Brasil mudou — e rápido demais para que nós, brasileiros, entendêssemos o que estava acontecendo. Em menos de duas décadas, saímos de um país onde deputados tinham vergonha de dizer que eram de direita para um cenário em que identidades políticas se tornaram bandeiras penduradas no peito, em carros, nas redes e até nos afetos.
Recuperar o direito de pensar sem pedir autorização ao grupo e de ser brasileiro antes de ser de esquerda, de direita ou de qualquer outra coisa: o futuro — ainda que turvo — pode começar por aí.